Como João Gilberto e Bad Bunny quebraram barreiras no Grammy
Descubra como Getz/Gilberto e Bad Bunny quebram barreiras no Grammy, celebram diversidade linguística e redefinem o Álbum do Ano
O Grammy de Álbum do Ano sempre simboliza poder e prestígio na indústria fonográfica. Porém, nem sempre a premiação reconhece produções fora do eixo anglófono. Ao longo das décadas, alguns álbuns em outros idiomas conseguiram furar esse bloqueio. Esses casos revelam mudanças graduais na forma como o mercado global enxerga a diversidade de línguas e culturas.
Entre os exemplos mais citados, dois nomes se destacam. João Gilberto ajudou a levar o português ao centro do palco com o disco Getz/Gilberto, em 1965. Já Bad Bunny, com Debí Tirar Más Fotos, em 2026, fortaleceu o espaço do espanhol nas categorias principais. Esses momentos formam marcos simbólicos e apontam para um cenário mais aberto a sons internacionais.
Como João Gilberto mudou o lugar da língua portuguesa no Grammy?
O álbum Getz/Gilberto uniu o saxofonista americano Stan Getz e os brasileiros João Gilberto e Astrud Gilberto. A gravação misturou bossa nova e jazz. As faixas alternaram versos em português e inglês, com ênfase nas harmonias brasileiras. Assim, o disco chegou ao mercado norte-americano como uma proposta diferente para a época.
Quando o trabalho venceu o Grammy de Álbum do Ano, em 1965, o prêmio reconheceu um projeto majoritariamente estruturado em estética brasileira. A presença de "Garota de Ipanema" ampliou o alcance global da bossa nova. O êxito do álbum também abriu espaço para artistas de outros países. Muitos selos passaram a investir mais em gravações com sotaques, timbres e ritmos latinos.
Especialistas em história da música apontam que Getz/Gilberto sinalizou uma mudança de perspectiva. Em entrevistas recentes, pesquisadores destacam três efeitos principais:
- aumento da circulação de repertório em português no catálogo internacional;
- maior valorização do violão e da voz intimista como linguagem de exportação;
- interesse renovado por parcerias entre músicos dos Estados Unidos e da América Latina.
Álbum do Ano em espanhol: o que representa Debí Tirar Más Fotos?
Debí Tirar Más Fotos, de Bad Bunny, veio depois de uma sequência de lançamentos em espanhol com forte presença global. O disco manteve a base de reggaeton e trap latino. No entanto, também incorporou referências de pop, rock alternativo e música caribenha. As letras seguiram quase inteiramente em espanhol, com gírias e expressões do cotidiano porto-riquenho.
Quando o álbum entrou na disputa de Álbum do Ano no Grammy de 2026, críticos destacaram um ponto central. As votações passaram a considerar, com mais seriedade, projetos que falam diretamente com um público fora do eixo inglês. Entrevistas com curadores de playlists e jornalistas musicais mostram um consenso. O sucesso de Bad Bunny expôs a força comercial e cultural do espanhol no mercado global.
Para além das estatísticas de streaming, o reconhecimento trouxe outros efeitos visíveis:
- gravadoras passaram a lançar mais artistas latino-americanos em campanhas globais;
- festivais internacionais ampliaram espaços para shows em espanhol e português;
- produtores buscaram colaborações com rappers, cantores e DJs de países hispânicos.
Como esses álbuns revelam a diversidade linguística no Grammy?
Os casos de Getz/Gilberto e Debí Tirar Más Fotos ajudam a entender uma tendência mais ampla. O Grammy, por muitos anos, concentrou a maior parte dos prêmios em obras de língua inglesa. Mesmo assim, iniciativas paralelas tentaram ampliar o espectro. As categorias de música mundial e latina surgiram com esse objetivo. Porém, essas divisões também criaram certos limites.
Críticos e acadêmicos apontam que essas categorias funcionam como "caixas". Elas separam artistas internacionais das disputas centrais. Quando um álbum em outra língua chega à categoria de Álbum do Ano, esse movimento rompe a lógica do gueto de nicho. Especialistas em indústria fonográfica, ouvidos por veículos de comunicação, descrevem esse processo como um sinal de reequilíbrio. A lógica passa a reconhecer relevância artística, alcance global e impacto cultural, e não apenas o idioma.
Comparando os anos 1960 com a década de 2020, alguns pontos se destacam:
- hoje, o público consome música por streaming, sem barreiras de fronteira;
- redes sociais impulsionam hits em qualquer idioma, inclusive misturas de línguas;
- alguns artistas lançam álbuns bilíngues ou trilíngues para dialogar com públicos diversos;
- a academia do Grammy recebe pressão constante para refletir melhor essa pluralidade.
O Grammy passa a tratar melhor os álbuns internacionais?
Analistas observam sinais de mudança, mas também enxergam limitações. Por um lado, indicações como as de Bad Bunny e outros artistas de fora do eixo anglófono mostram avanços. Por outro, o número de vencedores que não cantam principalmente em inglês ainda se mantém reduzido. Pesquisas de imprensa especializada indicam que muitos votantes continuam mais familiarizados com o repertório norte-americano e britânico.
Entrevistas com críticos apontam três tendências recentes no Grammy. Primeiramente, a ampliação da base de votantes, com mais representantes de diferentes países. Em seguida, campanhas de conscientização da própria academia, que estimula a audição de catálogos internacionais. Por fim, a aproximação com mercados locais, por meio de eventos regionais e parcerias com organizações culturais.
Diante desse cenário, álbuns como Getz/Gilberto e Debí Tirar Más Fotos ganham peso simbólico adicional. Eles mostram que idiomas como português e espanhol podem ocupar o centro do debate musical global. Além disso, esses trabalhos ajudam a abrir espaço para produções em francês, coreano, japonês e outras línguas. A história desses discos indica que a linguagem da música circula para além das fronteiras verbais, ainda que a indústria avance de forma gradual nesse reconhecimento.