"Ao me ver, chore": A história por trás das "pedras da fome" da Europa
Marcos de séculos atrás que relembram períodos de estiagem devastadores voltam a emergir à medida que os rios da Europa recuam. Entre as mais famosas está uma pedra do rio Elba com a mensagem "ao me ver, chore".À medida que os rios da Europa recuam durante os períodos de seca, ressurgem vestígios do passado há muito escondidos.
Ao lado de naufrágios da era nazista, bombas não detonadas da Segunda Guerra Mundial e restos de mamutes pré-históricos, alguns rios revelam a história literalmente escrita em pedra.
Uma dessas inscrições, em alemão, diz Wenn du mich siehst, dann weine ("ao me ver, chore"). Essas palavras estão gravadas em uma pedra da fome no rio Elba, perto de Decin, na República Tcheca, próximo à fronteira com a Alemanha.
Por que "fome"?
As pedras da fome, ou Hungersteine em alemão, são pedras do leito dos rios que geralmente permanecem submersas e escondidas, mas ficam expostas quando os níveis dos rios caem significativamente durante as secas prolongadas.
Ao contrário de uma marca de cheia, que registra o nível mais alto da água, a pedra da fome marca o nível mais baixo.
Durante séculos, as comunidades esculpiram datas ou inscrições nessas pedras sempre que as águas de rios como o Elba, o Danúbio ou o Reno recuavam drasticamente. Algumas pedras da fome trazem listas de anos, incluindo 1616, 1746 e 1842.
Em um estudo de 2019 intitulado Secas extremas e respostas humanas a elas: as terras tchecas no período pré-instrumental, o historiador e climatologista tcheco Rudolf Brazdil e seus colegas recorreram a crônicas, registros administrativos e outras fontes documentais para examinar como as comunidades afetadas pela seca viviam muito antes das medições meteorológicas sistemáticas.
Para as pessoas que viviam ao longo de rios como o Elba, a baixa das águas criava uma série de problemas. Barcas transportando madeira, grãos e outras mercadorias enfrentavam dificuldades para navegar em canais rasos, interrompendo o comércio ao longo de uma das rotas de transporte vitais da Europa Central. Em casos graves, a navegação teve que ser restringida ou interrompida completamente.
Além disso, a seca também significava quebra de safra, aumento de preços, e fome.
Mais do que apenas memoriais das secas
Embora as pedras da fome fossem frequentemente tratadas como lembretes simbólicos da seca, elas provaram ser mais do que isso.
Um estudo de 2020 publicado no periódico científico Climate of the Past descobriu que muitas das datas e marcas nas pedras da fome do Elba correspondiam de perto a períodos documentados de níveis de água excepcionalmente baixos. Os pesquisadores concluíram que muitas das inscrições tinham a intenção de registrar o quão baixo o rio havia chegado, em vez de simplesmente marcar os anos de seca.
O estudo também documentou marcas de anos de secas na pedra de Decin que remontam até ao menos ao século 16, ressaltando que a famosa inscrição "ao me ver, chore", de 1904, representa apenas um capítulo na história muito mais longa das pedras da fome.
Pedra que pressagia a desgraça?
No entanto, sua fama reside principalmente em sua mensagem aparentemente sinistra. Seu avistamento durante as secas europeias mais recentes de 2020 e 2022 inspirou cobertura da mídia, descrevendo sua mensagem como "arrepiante", "sombria" ou um "presságio de tempos difíceis".
Em seu estudo de 2019, Die Botschaft der Hungersteine ("A mensagem das pedras da fome"), Bernd Gross se baseou em reportagens de jornais, cartões-postais e registros históricos locais para reconstruir a história da pedra da fome de Decin e observou que sua inscrição pode ter sido inspirada por uma mais antiga.
Gross citou reportagens de jornais da década de 1890 que descreviam uma pedra da fome perto de Techlovice, um rio acima de Decin, que supostamente continha inscrições em alemão como: "Nós choramos, nós choramos - e vocês chorarão."
O homem mais frequentemente associado à inscrição da pedra de Decin é F. Mayer, um dono de pousada e barqueiro local, membro da comunidade marítima do Elba. Segundo Gross, Mayer mandou gravar a frase, agora famosa, na pedra durante a seca de 1904, datada de 18 de julho, juntamente com seu nome.
Uma pedra conhecida
Na época, os jornais se referiam a ela como a pedra da fome de Bodenbach ou Tetschen, em referência às cidades vizinhas que hoje fazem parte de Decin e que até 1945 eram habitadas por alemães étnicos. Eles noticiaram a pedra exposta e sua mensagem, enquanto relatos contemporâneos descreviam os milhares de visitantes que iam vê-la.
Cartões-postais com a imagem da pedra da fome também circularam amplamente, espalhando o conhecimento do local muito além do Vale do Elba.
O jornal Reichenberger Zeitung, em circulação de 1860 a 1938, noticiou em 28 de agosto de 1904: "Dia após dia, grupos se reúnem na rocha; todos querem pisar nela pelo menos uma vez. No entanto, as marcas esculpidas no arenito provavelmente perderão sua visibilidade devido ao frequente pisoteio."
Os visitantes ficavam intrigados não apenas com a inscrição, mas também com as datas antigas esculpidas na rocha, registrando anos de seca que remontavam a séculos.
A pedra que quase desapareceu
Ironicamente, a seca de 1904, que colocou a pedra de Decin e sua inscrição no mapa, quase causou sua destruição. As autoridades fluviais locais decidiram remover rochas e outros obstáculos do Elba para melhorar a navegação, e o estudo de Gross afirma que havia preocupações de que a pedra da fome de Decin também pudesse ser removida.
Após a intervenção da Cooperativa de Barqueiros de Tetschen, que fez uma petição às autoridades imperiais, a pedra foi poupada. Notícias relataram que as autoridades concordaram em desviar as obras fluviais planejadas ao redor dela, a fim de preservar o que já era considerado um marco histórico do Elba.
Enquanto outros obstáculos foram removidos do rio, a pedra da fome de Decin sobreviveu.
Mas, sua história não terminou aí. Quando outra seca severa a expôs em 1911, a famosa inscrição de Mayer teria sido gravada novamente, desta vez mais profundamente. Mais tarde, em 1938, uma inscrição em tcheco foi adicionada ao lado das marcas mais antigas.
Juntas, essas datas e inscrições registram séculos da história da pedra e seu papel como um marcador de níveis de água excepcionalmente baixos no Elba.
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