Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

A música popular brasileira brilha nas páginas dos livros

Novos lançamentos se debruçam em recortes das obras de nomes como Caetano Veloso, Beth Carvalho e Marina Lima

1 out 2022 - 11h11
Compartilhar
Exibir comentários
📊 Fofoca Awards: vote nos seus favoritos

A filósofa e cantora Eliete Negreiros, uma das fundadoras da Vanguarda Paulista, estudiosa da obra de Paulinho da Viola, escreve no artigo Filosofia do Mundo, que faz parte de seu novo livro Amor à Música (Edições Sesc São Paulo), que na poética do compositor carioca é possível ver a canção como lugar de reflexão sobre o mundo.

Assim como o livro de Eliete, outros lançamentos recém chegados ao mercado se debruçam sobre a obra de artistas da música popular brasileira em busca de signos e conexões contidos em discos e gravações. Para Eliete, as canções proporcionam lições de sabedoria.

"A obra de Paulinho da Viola é particular e universal. Há ensinamentos e também momentos de pura beleza, de irradiância. Então, na primeira escuta somos como que encantados, está tudo ali, naquele instante, somos arrebatados por aquele universo. Depois, a canção fica como que gravada em nós e, aos poucos, vai nos revelando alguns de seus segredos, vamos aprendendo sobre música e sobre a vida", diz.

Em Amor à Música, Eliete também reflete, em textos escritos entre 2012 e 2014, sobre produções de Noel Rosa, Isaurinha Garcia, Tom Jobim, Elizeth Cardoso, Candeia, Arrigo Barnabé, Luiz Melodia, entre outros.

"Quando eu aprendi a prestar mais atenção nas canções senti que desenvolvi uma nova forma de percepção e acho que isso acontece com todo mundo: a gente aprende a escutar melhor", diz Eliete, sobre esse exercício.

Um dos novos lançamentos da série O Livro do Disco, da Editora Cobogó, é o primeiro grande olhar para a obra de Beth Carvalho (1946-2019) desde sua morte. Escrito pelo jornalista carioca Leonardo Bruno, o livro analisa o álbum De Pé no Chão, lançado por Beth em 1978, quando ela se aproximou do bloco carnavalesco Cacique de Ramos.

Aberto com a faixa Vou Festejar, parceria de Jorge Aragão, Dida e Neoci, o álbum, segundo mostra Bruno no livro, tem importância não apenas como um volume da obra de Beth, mas sim na história da música popular brasileira. Ele o compara com a bossa nova e à tropicália.

"É o Chega de Saudade do samba. Ele é um disco-manifesto que inaugura uma nova era. Ele lança o movimento do pagode, uma sonoridade, que tem uma permanência incrível. Os nomes do samba que surgiram nos 40 anos seguintes têm uma filiação muito forte com o Cacique", diz Bruno, nascido em Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro, autor também do livro Canto de Rainhas (2021), sobre a relação das mulheres com o samba.

Bruno relata no livro como foi a introdução de instrumentos como o banjo, o repique de mão e o tantã, tocados por caciqueanos, na gravação do álbum. O autor conversou com os técnicos de som que não estavam acostumados a captá-las e nem gravar com uma roda de samba dentro do estúdio - com direito à bebida e tira-gostos - como Beth fez questão de registrar no álbum.

"Beth queria o espírito do Cacique. Ela, uma pessoa de classe média alta, da zona sul, começou a circular em rodas de samba em busca da autenticidade. Ela sabia que o samba era um estilo de vida", diz o autor.

Bruno assina o roteiro do documentário Andança - Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho que será exibido em outubro no Festival do Rio. Com direção de Pedro Bronz, o filme foi construído a partir das cerca de 800 fitas que a cantora gravou ao longo da carreira com imagens de rodas de samba e estúdios que frequentava.

Também da série o Livro do Disco, Fullgás, de autoria do professor da ESPM Renato Gonçalves, mostra o contexto do quinto álbum da carreira de Marina Lima - e o primeiro a dar à cantora um sucesso popular.

O álbum, lançado em 1984, é analisado por Gonçalves sob três perspectiva: a política; a contracapa traz um manifesto escrito por Marina e por seu irmão e parceiro Antônio Cícero; a comportamental, com a abordagem do prazer feminino e da bissexualidade presentes nas canções; a musical, e, assim como De Pé No Chão, de Beth Carvalho, traz reformulações sonoras, mas, dessa vez, no pop/rock brasileiro.

"As pessoas se referem aos anos 1980 como década perdida. Mas isso foi na questão econômica, aqui no Brasil. Como desprezar o momento de construção da democracia, de transformações comportamentais e a consolidação da globalização? O Fullgás está nesse início de tudo", diz o autor.

Para Gonçalves, a música popular brasileira ocupa um lugar muito especial na cultura brasileira, sobretudo por conta da canção muito próxima da fala, da linguagem cotidiana. Por isso, as análises das obras se fazem tão necessárias - e procuradas pelo público. "O trabalho cultural cristaliza e constrói a realidade", diz.

Recortes e fragmentações. A jornalista Chris Fuscaldo classifica esse tipo de abordagem como "recorte biográfico". Autora dos livros Discobriografia Legionária, Discobiografia Mutante: Álbuns que Revolucionaram a Música Brasileira e Viver é Melhor que Sonhar: Os Últimos Caminhos de Belchior, esse último em parceria com Marcelo Bortoloti, ela criou em 2018 a editora Garota FM Books, voltada para publicações relacionadas à música.

Só neste mês ela lançou, por meio de financiamento coletivo, os livros 1979 - O Ano que Ressignificou a MPB, com organização de Célio Albuquerque, e Cantadas, de autoria de Mauro Ferreira.

Até o final deste ano, a editora lançará O Produtor da Tropicália - Manoel Barenbein e os álbuns de um movimento revolucionário, escrito por Renato Vieira, e De Tudo Se Faz Canção - Os 50 Anos do Clube da Esquina, que Chris organizou ao lado do compositor Márcio Borges.

Capa do CD Clube da Esquina, lançado pela coleção Discoteca Estadão
Capa do CD Clube da Esquina, lançado pela coleção Discoteca Estadão
Foto: Acervo Estadão / Estadão

O livro 1979, que traz artigos sobre 100 discos brasileiros lançados naquele ano, vendeu quase mil cópias em três meses. Um bom resultado. "É um livro muito diversificado. Agrada fã da Gretchen e do Gilberto Gil. E aos fãs das mulheres e compositoras que não estão em nenhum livro, como Fátima Guedes e Sueli Costa", opina.

Para o pesquisador Tito Guedes, que ao lado de Luiz Felipe Carneiro escreveu Lado C - A Trajeto´ria Musical de Caetano Veloso ate´ a Reinvenc¸a~o com a bandaCe^ (Editora Máquina de Livros), que aborda a feitura dos discos Cê, Zii e Zie e Abraçaço, um recorte específico torna possível um aprofundamento em um tema que uma biografia, por exemplo, não consegue contemplar por inteiro.

"É uma fase muito rica de Caetano. Colocando uma lupa nela, você consegue entendê-lo como um todo. A fase da banda Cê, inclusive, está refletida no disco Meu Coco (2021). A faixa Anjos Tronchos tem a guitarra de Pedro Sá. O próprio Caetano declarou que nessa faixa é como se o eu lírico da fase Cê tivesse viajado no tempo e chegado a 2021?, diz Tito. Completavam a banda os músicos Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo).

Como a fragmentação trazida pelas plataformas musicais, que estimulam o ouvinte a consumir música de forma avulsa e não em álbuns, como se dará esse tipo de análise no futuro?

Contexto da época

Guedes, autor também do livro Querem Acabar Comigo: Da Jovem Guarda ao Trono, a trajetória de Roberto Carlos na visão da crítica musical (2021), acredita que, igualmente, será preciso levar em conta o contexto do momento. "Na Era do Rádio era assim. Os artistas lançavam compactos e não álbuns", diz.

Renato Gonçalves afirma que a preferência do público por faixas virais traz novos desafios aos artistas e pesquisadores. "A fruição da obra é diferente. Não tem como se contar uma história pela ordem das faixas. Porém, há outras maneiras de se fazer isso, como os projetos audiovisuais", diz.

Para Eliete Negreiros, essa pulverização do streaming faz com que a canção perca seu lugar de reflexão. "Uma das coisas que a arte nos proporciona é um desacelerar do ritmo veloz do mundo, que pela pressa institui o domínio da superficialidade. É como se a arte, a canção criasse um outro tempo, dentro deste, tempo de fruição, deleite e reflexão. Com a velocidade e a fragmentação, a mercadoria reina soberana sobre a arte", diz.

📊 Fofoca Awards: vote nos seus favoritos
Estadão
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra