A importância da música em 'Estilhaços', nova série de Ryan Murphy
Com Troye Sivan responsável pela composição de músicas para a novidade, o produtor executivo dá continuidade à tradição de trilhas sonoras marcantes estabelecida em sucessos anteriores
Em Estilhaços, nova série de Ryan Murphy, a música está longe de ser apenas um elemento responsável por acompanhar as imagens. Ambientada em Los Angeles, em 1981, a produção usa canções para reforçar a identidade de uma época, construir a atmosfera de suas cenas e traduzir emoções que muitas vezes não são verbalizadas pelos personagens. A trilha sonora, portanto, ocupa um espaço tão importante quanto a fotografia, o figurino e a direção de arte na construção daquele universo.
Baseada no best-seller The Shards, de Bret Easton Ellis, a série acompanha uma versão ficcional do escritor durante seus últimos anos da adolescência. Interpretado por Igby Rigney, Bret é um jovem aspirante a escritor que vive cercado pelo luxo e pelos excessos de uma elite adolescente de Los Angeles. Sua rotina muda com a chegada do misterioso Robert Mallory (Homer Gere), enquanto a cidade é aterrorizada por um serial killer que tem adolescentes como alvo.
Essa combinação entre juventude privilegiada, paranoia, violência e nostalgia oitentista faz da música uma peça fundamental de Estilhaços. Não por acaso, a produção conta com músicas originais de Troye Sivan e Leland, além da participação musical de Hayes Warner, que também interpreta Debbie Schaffer.
A escolha faz ainda mais sentido quando observada dentro da trajetória de Ryan Murphy. Ao longo da carreira, o produtor transformou músicas populares em ferramentas narrativas, utilizando sucessos conhecidos para definir personagens, estabelecer períodos históricos, antecipar emoções e, em alguns casos, transformar uma cena inteira em um momento memorável.
Essa relação ficou especialmente evidente em Glee, primeiro grande fenômeno global de Murphy como produtor executivo. Em 2009, a série apresentou a história de um grupo de estudantes que encontrava no coral da escola uma forma de lidar com os altos e baixos da adolescência. A produção misturava comédia, drama e questões sociais, mas foi a música que rapidamente se tornou sua principal linguagem.
No fim do primeiro episódio, os protagonistas cantaram uma versão de "Don't Stop Believin'", do Journey. A escolha ajudou a estabelecer o tom da série e antecipou o que viria a se tornar uma de suas maiores características: a capacidade de transformar músicas conhecidas em parte essencial da narrativa.
Glee se tornou um fenômeno cultural, ganhou prêmios como Emmy e Globo de Ouro e ultrapassou os limites da televisão com turnês, álbuns, DVDs e videogames. Mais do que utilizar músicas como trilha, a série transformava sucessos do passado e do presente em uma espécie de extensão dos personagens.
Em entrevista ao The Hollywood Reporter, Murphy explicou que sempre foi "obcecado por cultura pop e pelas coisas que estão fervilhando na cultura neste momento". Essa relação com a cultura popular ajuda a explicar por que a música ocupa um lugar tão particular em seus projetos.
A estratégia também ganhou outra dimensão em American Horror Story, da FX. Desde a primeira temporada, a série antológica utiliza canções para construir atmosferas e criar associações inesperadas entre imagens e sons. Ao longo dos anos, a produção passou por casas assombradas, famílias de bruxas, circos, hotéis, cultos e cenários apocalípticos, mas a música permaneceu como uma ferramenta constante de construção narrativa.
"Há momentos em que a música é uma personagem da série e está transmitindo uma mensagem", afirmou Mac Quayle, compositor que se tornou um dos principais colaboradores de Murphy, em entrevista à Variety.
A ideia é justamente fazer com que a música tenha uma função dramática. Em vez de simplesmente acompanhar uma sequência, ela pode comunicar o que um personagem sente, criar contraste com aquilo que está acontecendo na tela ou até sugerir algo que o público ainda não percebeu.
Alexis Martin Woodall, colaboradora de longa data de Murphy, explicou à Variety que a trilha sonora serve para "comunicar subtexto, contexto, emoção e entretenimento no mais alto nível". Existe também uma função especialmente importante quando a história é ambientada em outra época: "você ouve uma música e ela te transporta para uma época e um lugar".
É exatamente esse efeito que Estilhaços explora. A série não apenas se passa nos anos 1980; ela procura fazer o espectador sentir aquele período por meio de sua identidade musical. O glamour, a juventude, as festas e a sensação de perigo são acompanhados por uma seleção que ajuda a transformar a Los Angeles de 1981 em um personagem da própria história.
Por isso, a presença de Troye Sivan e Leland na produção é particularmente significativa. Além de contribuir para a identidade sonora da série, a dupla ajuda a estabelecer uma ponte entre a música contemporânea e a estética da década retratada. Hayes Warner também participa desse processo com músicas originais, enquanto faz sua estreia como atriz no papel de Debbie.
A escolha de colocar uma cantora no elenco também segue outra tradição da carreira de Murphy. Desde Glee, seus projetos frequentemente aproximam televisão e música. Demi Lovato passou por Glee, Ariana Grande participou de Scream Queens e American Horror Story chegou a escalar nomes como Patti LaBelle, Adam Levine e Lady Gaga.
Em Estilhaços, essa relação parece ainda mais natural porque a música não está apenas ao redor da narrativa: ela faz parte da maneira como a série constrói sua época, seus personagens e sua atmosfera.
Assim, enquanto a história acompanha Bret tentando descobrir se Robert Mallory tem alguma ligação com os assassinatos que aterrorizam Los Angeles, a trilha sonora ajuda a estabelecer o estado emocional desse mundo. É mais uma demonstração de como Murphy transformou a música em uma das ferramentas mais reconhecíveis de sua televisão — e de como, em Estilhaços, canções podem dizer tanto quanto os próprios personagens.
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