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A Globo faz com que as pessoas se sintam notadas, diz autor

Jéfferson Balbino analisa em livros o sucesso da teledramaturgia e a paixão do brasileiro pela novela

12 mai 2018 15h25
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Novela ‘O Outro Lado do Paraíso’ atraiu público que se identificou com o ideal de justiça da protagonista Clara
Novela ‘O Outro Lado do Paraíso’ atraiu público que se identificou com o ideal de justiça da protagonista Clara
Foto: Rafael Campos/TV Globo / Divulgação

Especialista em História, Cultura e Sociedade pela Universidade do Norte do Paraná (UENP), Jéfferson Balbino é um apaixonado por novelas, assim como milhões de outros brasileiros.

Cresceu diante da TV, fascinado pela ficção exibida no horário nobre. Ao se tornar historiador, passou a dedicar parte de seu tempo à pesquisa sobre esse gênero tão valorizado no Brasil.

Em entrevista ao blog, o escritor comenta o desempenho positivo de ‘O Outro Lado do Paraíso’, assim como aponta os principais erros da novela recém-encerrada.

Comenta ainda outros folhetins inesquecíveis e dá sua visão a respeito do que faz o telespectador brasileiro ser tão fiel à Globo.

Qual a sua análise a respeito do sucesso de O Outro Lado do Paraíso?

A protagonista Clara (Bianca Bin) estava inserida numa atmosfera de vingança e justiça, e a própria história da nossa teledramaturgia demonstra que essa é uma fórmula que sempre resulta em sucesso junto aos brasileiros, pois foi assim com a Simone (Regina Duarte) em Selva de Pedra, em 1972, com a Claudia (Malu Mader) de Fera Radical, em 1988, e, mais recentemente, com a Nina (Débora Falabella) do retumbante sucesso Avenida Brasil, em 2012. O brasileiro tem fascínio por tramas nas quais o herói possui essa dualidade entre o bem e o mal, e que busca por si só a sua justiça. Acredito que isso acontece por um desejo intrínseco que todos nós temos de ver a injustiça ser reparada. Sendo assim, a qualidade dramatúrgica não é sequer notada pelo grande público, que deseja mesmo é se envolver com a trama que está sendo contada, por mais que se depa re às vezes com situações incoerentes e inverossímeis. Do ponto de vista dramatúrgico, O Outro Lado do Paraíso ficou completamente aquém do esperado. O didatismo presente na maioria dos diálogos das personagens levou a uma monotonia sem igual. Acho que, às vezes, o autor Walcyr Carrasco peca pelo excesso. Cria muitas personagens, muitas tramas paralelas, busca abordar múltiplos temas sociais, o que resulta numa mistura sem nexo.

Por que a teledramaturgia da Globo consegue resultados tão mais expressivos do que as produções da Record e do SBT?

A teledramaturgia da Globo possui maior influência por um único motivo, o investimento. Desde sua criação, em 1965, a emissora investe pesado em sua grade de programação. Quando ocorre um erro estratégico e a novela, ou outro produto, fracassa na audiência, a emissora busca logo identificar a causa do problema para solucioná-lo. Não faz como a Record e o SBT, que já cancelaram a exibição de novelas, mudaram tramas de horário, interromperam novas produções. Essa maestria da Globo se reflete em qualidade, em padrão. Lamento muito que a Record e o SBT não possuam a mesma disciplina da Globo, pois o público seria privilegiado com muito mais novelas de qualidade para assistir ao longo do dia.

Em trecho do seu livro ‘Teledramaturgia: O Espelho da Sociedade Brasileira’, você afirma que existe “preocupação por parte dos autores de novelas em retratar a sociedade em termos econômicos, sociais e étnicos”. Mas há quem reclame por maior representatividade. Acha que estamos coerentemente retratados?

Não somos, nem estamos e quiçá seremos totalmente representados na telenovela brasileira. Embora haja de fato uma preocupação para que isso aconteça, a teledramaturgia só conseguirá levar para a ficção ‘recortes’ de representação de qualquer sociedade que se disponha a representar. E isso ocorre por vários motivos. Toda sociedade é múltipla e repleta de nuances distintas. A telenovela é um produto mercadológico, portanto, há visões mercadológicas por trás de cada obra. Devemos constatar que há inúmeros interesses, sobretudo econômicos, dos donos dos veículos de comunicação. No entanto, louvo o fato de a telenovela ser a única que se preocupa com questões sociais e que propicia reflexões por parte da sociedade.

O escritor e pesquisador Jéfferson Balbino entre seus dois livros a respeito do universo da TV
O escritor e pesquisador Jéfferson Balbino entre seus dois livros a respeito do universo da TV
Foto: Divulgação

A partir de sua análise como pesquisador de teledramaturgia, quais suas novelas preferidas?

É uma pergunta difícil, pois já assisti a muitas novelas boas e há muitas novelas antigas que foram ótimas, mas que, infelizmente, nunca assisti. Mas vou citar algumas. Gosto muito de quatro produções que analiso em meu livro ‘Teledramaturgia: O Espelho da Sociedade Brasileira’. São elas Roque Santeiro, Pantanal, Xica da Silva e Vidas Opostas. Todas, à sua maneira, trazem um tipo de representação da sociedade brasileira. Agora excluindo o elemento sociocultural e focando mais na dramaturgia, no produto de entretenimento, gosto muito de Mulheres de Areia, A Viagem, Por Amor, Alta Estação, Rainha da Sucata, O Astro, Selva de Pedra, Avenida Brasil, A Sucessora, Roda da Vida, Chamas da Vida, As Pupilas do Senhor Reitor, História de Amor e Fera Radical. 

Por que a Globo gera tanto fascínio e glamour para muitos, e é tão atacada e desprezada por outros?

Vivenciamos uma sociedade de superfície, como muito bem enfatizou o ator Lima Duarte em entrevista no meu novo livro, ‘Operários da Arte’. Na atual conjuntura social, a maioria das pessoas quer a todo custo ser vista, ter status, ser bem-sucedida, notada, respeitada, reconhecida. E a Globo torna isso possível. Em contrapartida, a emissora da família Marinho é, também, muito atacada por alguns grupos sociais, sobretudo pelos militantes políticos que acusam a emissora de ser golpista, manipuladora, alienadora, entre tantos outros adjetivos negativos. Isso ocorre porque não só a Globo, mas a mídia em geral consegue persuadir as pessoas, especialmente aquelas com pouca ou nenhuma escolaridade. Creio que o problema está no baixo investimento na educação, pois somente a educação pode emancipar um indivíduo. E se esse indivíduo em questão tiver ac esso irrestrito à educação, obviamente não se deixará persuadir pelo que a mídia deseja impor.

Fonte: Especial para Terra
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