Script = https://s1.trrsf.com/update-1785522911/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

A biblioteca invisível de 'Quem Ama Cuida': como os livros ajudaram a compor personagens da trama

A diretora artística Amora Mautner explica como obras literárias e outras referências culturais ajudam a transformar o texto de Walcyr Carrasco e Cláudia Souto em personagens mais complexos e críveis

31 jul 2026 - 18h08
Compartilhar
Exibir comentários

Todos os personagens possuem um universo invisível de referências que ajudam na construção da personalidade de cada um
Todos os personagens possuem um universo invisível de referências que ajudam na construção da personalidade de cada um
Foto: Globo/Divulgação / Estadão

Antes de aparecerem na tela, os personagens de uma novela costumam ganhar mais do que um nome, uma profissão e uma história. Existe toda uma construção nos bastidores e um exercício de imaginar seus hábitos, gostos musicais, quadros que pendurariam na parede e até os livros que ocupariam suas estantes.

Em Quem Ama Cuida, esse universo invisível faz parte do processo de construção da narrativa e ajuda atores, direção e equipe de arte a dar consistência aos personagens. Mas parte dele tem se tornado visível pela aparição de livros, que têm repercutido nas redes sociais.

"O Chay Suede, por exemplo, imaginava que seu personagem teria um cartaz da [cantora] Sade. Colocamos esse elemento no cenário, assim como os itens que fariam parte da rotina daquele personagem. São detalhes que ajudam a criar camadas. Muitas vezes o público não percebe conscientemente, mas sente."

Segundo a diretora, quando Cláudia Souto passou a dividir a autoria da novela com Walcyr Carrasco, esse trabalho ganhou ainda mais material.

"Quando Cláudia entrou e começou a escrever os capítulos com Walcyr, passei a receber um material ainda mais rico. Meu trabalho, então, é dramatizar e reforçar o que já está no texto. Toda cena e todo elemento em cena precisam ter função dramática."

Ela cita exemplos que aparecem ao longo da novela, como o quadro do Inferno de Dante ou Pilar (Isabel Teixeira) lendo Eu, Cláudio, Imperador, de Robert Graves. "Nunca escolho um livro aleatoriamente. Ele precisa reforçar algo que já existe dramaturgicamente. A novela é uma narrativa longa e, quando o público se apaixona pelos personagens, acompanha qualquer jornada", acredita Amora. "Por isso procuro utilizar livros, quadros, filmes e tantos outros elementos para fortalecer personagens que já são brilhantemente escritos por Walcyr Carrasco e Claudia Souto", completa.

Que livros os personagens de 'Quem Ama Cuida' leriam?

Embora muitos desses títulos nunca sejam mencionados diretamente na trama, Amora diz que costuma imaginar quais leituras fariam sentido para cada personagem.

Arthur, interpretado por Antonio Fagundes, por exemplo, tem uma biblioteca construída a partir de referências muito pessoais da diretora.

"Ela reúne muitos dos livros que marcaram minha própria vida", confessa. "Há referências às bibliotecas do meu avô, dos meus pais, de figuras como Millôr Fernandes e tantos outros leitores apaixonados que conheci."

Já Pilar, segundo ela, se interessaria por obras ligadas ao poder e à estratégia. A personagem passa a viver na casa de Arthur, portanto cercada pelo universo intelectual que existia ao redor dele. "Imagino que ela se interessaria por livros ligados a poder, manipulação e estratégia como As 48 Leis do Poder, Maquiavel ou mesmo Eu, Cláudio, Imperador."

Ingrid (Agatha Moreira), por sua vez, estaria cercada de leituras relacionadas à liberdade feminina, enquanto Adriana dialogaria com autores ligados ao estoicismo, já que compartilha desses valores.

"A personagem, por exemplo, só teria acesso a determinadas leituras a partir de sua convivência com Arthur e sua biblioteca. Tudo precisa ser crível e coerente com a trajetória escrita pelos autores. Livros, fotografia, iluminação, cenografia e atuação são ferramentas que ajudam a dramatizar o universo já existente no texto", explica Amora.

Ainda sobre Adriana, o próprio Walcyr também imagina uma biblioteca para a personagem. "Eu diria que Adriana leu os clássicos, basicamente O Conde de Monte Cristo, o que é óbvio na estrutura da própria personagem." A obra de Alexandre Dumas é, afinal, uma história de vingança.

Além da estante

Esse universo construído pela direção também chega aos atores. Em novelas anteriores, Amora costumava montar uma espécie de "cineclube particular" para cada integrante do elenco.

"Em outras novelas eu costumava montar um kit de filmes para cada ator". Na produção de Quem Ama Cuida, no entanto, ela partiu para o caminho das 75 perguntas que elaborou para cada personagem.

Mautner explica ainda que esse material funciona como um mapa de interpretação. "Primeiro trabalhamos no plano abstrato. Depois isso se concretiza nos ensaios e nos cenários. Eu acredito que não existem apenas cenas; existem personagens vivendo aquelas cenas."

Walcyr também costuma conversar individualmente com os atores antes das gravações. "Nessas ocasiões é comum que se fale sobre livros importantes para o personagem, mas nada é muito técnico; é uma conversa fluida de cocriação", conta o autor.

O papel dos livros

Embora novelas frequentemente despertem interesse por livros que aparecem em cena, tanto os autores quanto a direção descartam qualquer intenção de utilizar essas escolhas como estratégia de marketing.

"Sempre é em função da criação do personagem, nunca por outro motivo", afirma Walcyr. "O livro enriquece, mas não determina."

Amora compartilha da mesma visão: "O livro revela para onde está voltada a atenção daquele personagem, quais ideias o mobilizam. Mas o personagem já está construído pelos autores. O livro é apenas mais uma ferramenta da direção para reforçar traços que já existem."

Ela resume esse princípio dizendo que os livros cumprem, na narrativa, o mesmo papel da fotografia, da iluminação, da cenografia e da marcação de cena: aprofundar visualmente aquilo que o roteiro já contou.

"É claro que a televisão acaba divulgando tudo o que mostra, inclusive livros. Mas não faz sentido inserir uma obra apenas para promover sua leitura. Ela precisa nascer organicamente da dramaturgia", explica.

📊 Fofoca Awards: vote nos seus favoritos
Estadão
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra