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"O emprego se foi, mas os boletos não", diz empresária de BH

Pesquisa indica que mulheres empreendedoras estudam mais e ganham menos do que homens quando abrem o próprio negócio

9 dez 2021 09h00
| atualizado às 11h37
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Silvânia Gonçalves
Silvânia Gonçalves
Foto: Erlaine Grace / ANF

Cada vez mais as mulheres buscam destaque em diversos papéis que atuam na sociedade. No empreendedorismo, não é diferente. De acordo com o levantamento da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), hoje o Brasil é o sétimo país com o maior número de mulheres empreendedoras.

Pesquisa da RME (Rede Mulher Empreendedora) revela que 55% de mulheres brasileiras abriram o próprio negócio nos últimos três anos. Dessas, 26% se tornaram autônomas durante a pandemia.

Apesar dos números apontarem uma grande parcela de mulheres inseridas no mercado empreendedor, ainda falta muito para que elas se tornem dominantes nesse cenário.

Outra pesquisa feita através da GEM mostra que mulheres que empreendem, estudam, em média, 16% a mais que os homens. Enquanto eles dedicam cerca de 8,5 anos para movimentarem o próprio negócio, elas estudam 9,9 anos de suas vidas. Por outro lado, elas ganham 22% a menos que os empreendedores do sexo masculino.

Se já é desafiador para a mulher produzir o sustento de forma independente, para as mulheres moradoras das comunidades, vilas e favelas, a ideia de empreender exige ainda mais esforço, dedicação e coragem.

Luma Persan
Luma Persan
Foto: Erlaine Grace / ANF

Para Luma Persan, de 31 anos, criar uma empresa foi uma decisão de urgência, a qual teve que tomar sozinha no início da pandemia. “Eu me vi sem alternativas, já que o emprego se foi, mas os boletos continuavam a chegar. Não dava mais para aguardar uma resposta para o envio dos currículos”, relata.

Luma decidiu abrir um brechó virtual, mas não entrava dinheiro suficiente para suprir as necessidades. “As entregas que eu faço são de bicicleta, e quando o cliente mora longe eu tenho que pagar a condução por minha conta e, no final, não compensa”, explica.

A empreendedora buscou outras alternativas no mercado para vincular ao bazar. Aproveitou que tinha o nome sem restrição e investiu no mercado de locação de veículos. Começou a comprar carros financiados e alugar para motoristas de aplicativos.

“Pensei em algo que não fosse diretamente uma venda, mas sim uma troca de serviços. Assim eu me ajudo e dou oportunidade para as pessoas da minha comunidade que não conseguem alugar carros em grandes locadoras devido à burocracia. Aproveito e continuo com os anúncios dos produtos do brechó, na mesma rede social, porém com opção para retirarem na minha casa”, explica.

Segundo informações do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), através de uma projeção realizada com dados do IBGE, a soma de trabalhadores que atuam como motoristas de aplicativos ou entregadores, já está em 1,4 milhões no país, mas a proporção de mulheres motoristas ainda é baixa em comparação aos homens. Na Uber, apenas 6% entre os 600 mil motoristas parceiros cadastrados, até 2020, eram mulheres.

Por essa estatística e outros motivos, investir nesse ramo não foi tão simples como Luma esperava. Mesmo prestando um serviço restrito a motoristas da sua comunidade, ela se deparava com frases como: “onde está seu marido”? ou “quem administra a locação?", “você é a proprietária? pensei que fosse um homem!”, conta.

Apesar de perceber um certo machismo, até por parte das mulheres, Luma segue com sua frota e afirma que, com pulso firme e determinação, qualquer negócio pode se tornar lucrativo.

Stephanie Gouvêa, de 26 anos, escolheu investir no mundo da moda, inspirada nas mulheres da família que sempre costuraram em fábricas e em casa. Além de considerar a moda uma forma de arte, Stephanie acredita que a roupa é uma extensão da personalidade. Como artista visual, ela encontrou no empreendedorismo um meio de divulgar seu talento e gerar rendas.

Modelos da Collorbloc
Modelos da Collorbloc
Foto: Divulgação/Collorbloc / ANF

Stephanie criou a própria marca, a Collorbloc, pensando em facilitar o acesso das pessoas das vilas e favelas a vestuários de qualidade, pagando um preço justo. “Sempre achei o preço salgado e nunca comprava, então decidi mesma fazer as roupas com algumas adaptações”, diz. Outra motivação para a abertura da marca foi recrutar mulheres negras e LGBTs. “Faço parte dessa comunidade e sei o quanto é importante e difícil conseguir oportunidades, então, tento fazer isso para a produção também”, afirma.

De acordo com pesquisa da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), o segmento de vestuário apresenta uma recuperação em relação ao ano passado, com um crescimento de 36,6% no primeiro semestre de 2021.

Dados da Abravest (Associação Brasileira do Vestuário) apontam que as micro e pequenas empresas representam 90% do setor de vestuário no Brasil. Só o mercado de roupas infantis cresce em média 6% ao ano, conforme pesquisa Abit.

Para Maria das Graças Torres, de 54 anos, produzir as próprias peças infantis e expor na feira foi a forma que ela encontrou para conciliar o trabalho com a maternidade. Desde 1996, ela atua na feira de arte e artesanato da Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. “No início tive dificuldade para aprender tudo na prática, sem preparo para administrar, mesmo sendo um pequeno negócio”, conta.

Maria pertence a uma família de mulheres que sempre se virou para sobreviver. Iniciou o próprio negócio por não ter formação acadêmica, nem profissão definida. “Não fiz um estudo, nem pesquisa sobre o mercado, foi tudo muito intuitivo”, conta.

Maria das Graças Torres
Maria das Graças Torres
Foto: Arquivo pessoal / ANF

Aos poucos, foi aprendendo mais sobre o mercado e conheceu a economia solidária, nome dado ao conjunto de atividades econômicas, seja de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito organizados sob a forma de autogestão (forma de organização onde a administração da empresa é feita pelos seus participantes, com democracia direta, sem a figura do patrão e com igualdade entre seus membros).

A partir daí, Maria adquiriu um olhar mais profissional sobre o jeito de trabalhar. Atualmente está sem a licença da feira, mas a empresa, Tantinho de Gente, está presente nas redes sociais e as roupas estão sendo comercializadas por meio digital.

Outro setor que cresce diariamente, independente da pandemia, é o mercado de doces e chocolates. O consumo se manteve crescendo em 2020, com cerca de 80% dos brasileiros comprando produtos derivados de chocolates, segundo a Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Amendoim e Balas). Já em 2021, o mercado se fortaleceu, porém foi necessário criar novos produtos para atender a demanda de consumo das novas tendências do ramo.

Sabrina Cardoso
Sabrina Cardoso
Foto: Arquivo pessoal / ANF

Sabrina Cardoso, de 32 anos, proprietária da Delícias da Sá, viu na confeitaria mais que estatísticas. Escolheu investir no mercado de doces por achar mais prático e por poder iniciar o projeto em casa. O maior obstáculo foi a falta de verba para investir.

Sabrina mora na periferia do município de Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte, e teve dificuldades para encontrar produtos com preços acessíveis no local.O acesso ao crédito foi inalcançável, e ela disse que tinha que “vender o almoço para comprar a janta” e assim foi levando, sem investimento. Uma estatística levantada pela RME apontou que 43% das mulheres que participaram da pesquisa, tiveram todos os pedidos de empréstimos negados.

No início ela não tinha a intenção de prosseguir com o negócio. Foi uma solução de emergência que encontrou num momento de crise financeira. “Estava com o marido desempregado e uma bebê. Não pensei em nada, estava num momento extremamente difícil, não enxerguei como um empreendimento e sim como um socorro no momento”, relembra.

Atualmente a empresa tem três anos e nunca foi fechada. A fidelização dos clientes se mantém. Hoje a empreendedora tem o comércio como renda principal e vê a oportunidade de gerar empregos. Para ela, foi fundamental o apoio da família na decisão de se tornar autônoma. Ela conta que teve que renunciar a muitas coisas e aprender a conciliar casa, filhos e o trabalho por conta própria. “Minha dica para se tornar uma empreendedora de sucesso é: não encare como renda extra, encare como um grande negócio”, conclui.

O segmento da beleza é mais um que não para de crescer, independente da rotina do uso de máscaras e das home offices. Só a categoria de salões de beleza movimenta cerca de R$ 100 bilhões por ano, conforme dados da ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene).

A extensionista capilar e designer de sobrancelhas Karla Nascimento, de 37 anos, migrou da área da educação infantil para o empreendedorismo. “Sempre tive paixão pela área da beleza, em especial a de cabelos”, afirma. Karla sempre teve facilidade para lidar com cabelos e foi motivada pelo seu talento e pelos amigos.

Mas, para se tornar referência no ramo da beleza, não basta apenas gostar do que faz. Karla explica que é preciso ter foco, persistência e estratégias para atender a demanda maior, que é o atendimento a domicílio. O profissional precisa ter flexibilidade e disposição para passar por locais desconhecidos e rodovias perigosas. E as mulheres que têm dificuldade de locomoção ou não podem sair por causa dos filhos pequenos, precisam ser atendidas. “Percebi que eu ajudava a melhorar a autoestima desse público”, fala. 

A procura por produtos com preços acessíveis também não foi fácil. Por ter vindo de outro estado, se deparou com uma diferença de valores triplicada, além da dificuldade para encontrar alguns produtos no mercado. Mas nenhum obstáculo faz a empreendedora pensar em desistir. “Em questão de fidelização, aqui é uma terra fértil. Eu amo as transformações e a satisfação que elas proporcionam às pessoas”, diz.

Outra categoria do empreendedorismo que está em alta é a autopromoção. Caracteriza-se pela capacidade de reconhecer o próprio potencial e colocá-lo à disposição da sociedade, a fim de alcançar investidores, patrocínios e ser projetado a uma carreira de sucesso. Foi pensando assim que Silvânia Gonçalves, de 34 anos, criou o projeto Na Rua ou Na Trilha para divulgar seu trabalho como corredora.

Silvânia é jornalista por formação, mas sua grande paixão é o esporte. Hoje ela está cursando a Faculdade de Educação Física e pretende obter mais visibilidade em seu projeto. A corredora perdeu as contas de quantos troféus já ganhou, mas foram no mínimo setenta prêmios.

Ela encara a corrida como um empreendimento e mostra profissionalismo no que faz. Mais que um trabalho, para ela é prazeroso e divertido participar das competições e conhecer novos lugares. "É só alegria fazer o melhor que a gente pode e se divertir. Somos a tropa feminina do futuro. Porque ao contrário do que uns e outros pensam, tem muita mulher brutalizando nas corridas".

O empreendedorismo feminino vai além de negócios que são gerenciados e criados por mulheres. Diz respeito ao protagonismo feminino, à liberdade, à liderança. A mulher é o foco e mostra seu potencial quebrando paradigmas sociais e estigmatizados. A independência é importante não somente na questão financeira, mas também porque essa interfere nas relações perante aos homens e à sociedade.

Onde buscar apoio para empreender na periferia

Empreender parece ser simples para começar, mas manter o negócio ativo e crescer não é uma missão fácil. Para apoiar e incentivar esse movimento, muitas organizações dão suporte a empreendedores periféricos. Ajudam na formação, inserção em network, acesso ao mercado e recursos financeiros para potencializar os resultados dos negócios para os empreendedores e para as comunidades que precisam dos produtos e serviços mais em conta. 

Be.Labs Aceleradora 

A Be.Labsé uma aceleradora de negócios liderados por mulheres e tem como objetivo combater a desigualdade de gênero através da conquista do poder econômico. São oferecidos diversos cursos, treinamentos, palestras e mentorias em versões gratuitas e pagas. As modalidades são online para todo o país.

Durante a pandemia, a aceleradora criou o Programa Calmaria, que proporciona mentoria para quem quer desenvolver, recuperar seu negócio ou dar o próximo passo na carreira.

A participação está aberta às mulheres empreendedoras.

Rede Mulher Empreendedora

O Instituto RME é uma ONG criada em 2017 com foco em causas sociais, políticas públicas e mulheres em situação de vulnerabilidade social. Apoiam e criam projetos e iniciativas capazes de empoderar empreendedoras, garantindo independência financeira e de decisão pessoal através de mentorias, palestras, capacitação, educação e cursos.

A participação está aberta a mulheres empreendedoras.

Aliança Empreendedora

A Aliança Empreendedora foi fundada em 2005 com o objetivo de capacitar e apoiar microempreendedores formais e informais em situação de vulnerabilidade econômica em todo o Brasil. Até o momento dão suporte a 140 mil empreendedores, além de 134 organizações sociais aliadas e 271 projetos cocriados.

São ofertados cursos e capacitações gratuitas para empreendedores, estudos e pesquisas sobre microempreendedorismo brasileiro, além de consultoria para empresas para a produção de novos produtos e serviços de causas sociais, com foco no microempreendedorismo.

A participação se estende a toda a população empreendedora.

Éditodos

A coalizão Éditodos é formada por seis organizações que atuam no desenvolvimento do empreendedorismo negro em diferentes regiões do Brasil: Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Distrito Federal.

Durante a pandemia a coalizão criou um fundo emergencial que capacita e direciona recursos a empreendedores que já participam das redes dessas organizações. Periodicamente são apresentadas palestras sobre assuntos ligados ao empreendedorismo nas redes sociais.

A participação abrange empreendedores que integram algum dos projetos realizados pelas instituições: AfroBusiness, Instituto afrolatinas, Agência Solano Trindade, PretaHub, Fa.Vela e Vale do Dendê.

Centro CAPE

O Instituto Centro de Capacitação e Apoio ao Empreendedor (Centro CAPE) é uma organização sem fins lucrativos que visa dar suporte ao micro e pequeno empreendedor.

Os projetos do CAPE abrangem as áreas de educação empreendedora, de treinamento e capacitação de empreendedores e profissionais das mais diversas áreas, por meio da metodologia Competência Econômica baseada na Formação de Empreendedores (CEFE), da qual é o difusor no Brasil.

Oferece um espaço específico para o apoio e fomento à economia criativa, onde realiza workshops, exposições, oficinas, feiras, apresentações musicais e outros eventos.

Atende ao público de empreendedores iniciantes e profissionais liberais.

Fundação Dom Cabral

A FDC (Fundação Dom Cabral) com sede em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, mobiliza uma grande rede de parceiros, alunos e ex-alunos no movimento do projeto Em:frente.

A ideia do projeto é alcançar uma meta de um milhão de empreendedores populares. Nele contém rede de voluntários, conteúdos relacionados ao empreendedorismo, ferramentas simples e dicas para a manutenção dos negócios.

Empreendedorismo e Tecnologia

A Rede Global de Empreendedorismo lançou a iniciativa de um chat box no Messenger para responder às dúvidas dos novos empreendedores em Belo Horizonte.

Ela foi criada com o objetivo de contribuir para criar um ambiente em que as pessoas sejam motivadas a empreender e encontrar condições favoráveis para seus negócios prosperarem.

Junto com a rede foi lançado o site Empreende BH. Nele, o empreendedor encontra dicas e o passo a passo para empreender, além deopções de cursos, fontes de recursos e orientações para ter sucesso no ramo escolhido.

O diferencial é que toda a consulta é feita através de um robô na plataforma do aplicativo Messenger.

O projeto não tem fins lucrativos e tem o apoio da CDL Jovem, UFMG, Fiemg, Portal Simi, Ibmec, Grupo Bel, Endeavor, Junior Achievement, FounderInstitute, Startcity, SEDECTES, entre outros.

ANF
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