Vítimas de tráfico humano na Ásia são forçadas a realizar fraudes online
Seduzidas por falsas ofertas de trabalho, pessoas traficadas são obrigadas a criar perfis falsos em redes sociais para manipular vítimas
Milhares de pessoas, vindas principalmente do sudeste da Ásia, foram coagidas a participar de esquemas de cyberscamming, isto é, fraudes na internet. De acordo com reportagem da agência de notícias norte-americana ProPublica, as vítimas (que chegam a ser vendidas até mesmo em grupos no Telegram) foram enganadas com falsas propostas de emprego.
Encantadas com salários altos, as pessoas viajaram a países como Camboja, Laos e Mianmar, onde encontram os criminosos, que não as deixam retornar para casa.
Nesses locais, as vítimas são forçadas a usar as redes sociais para tirar proveito financeiro de pessoas de todo o mundo, segundo ativistas de direitos humanos, agentes da lei, equipes de resgate e vítimas que deram entrevista à ProPublica. Caso se negassem a participar das fraudes, as pessoas traficadas eram submetidas a espancamentos, privação de comida e choques elétricos.
Em alguns casos, os criminosos pagam quantias ínfimas de dinheiro a essas pessoas por seus serviços. Eles podem até oferecer a elas a chance de ir embora, mas somente se pagarem altas taxas — que, claro, são impossíveis de serem pagas por pessoas em situação análoga à escravidão.
Atraindo vítimas em todas as redes sociais
Os esquemas funcionam de forma semelhante. As pessoas traficadas criam perfis em diferentes plataformas (incluindo LinkedIn, Tinder, Instagram, WhatsApp e OkCupid), usando fotos de pessoas atraentes. Elas são instruídas a postar imagens de carros luxuosos e comentar sobre hobbies como investimentos e sobre a importância da família, com o objetivo de tentar construir um perfil que pareça ser de alguém real e bem-sucedido. Assim, conquistam a confiança das futuras vítimas online.
Elas devem entrar em contato com a maior quantidade possível de vítimas em potencial. Iniciam relações de amizade ou românticas, manipulando seus contatos para que depositem quantias de dinheiro cada vez maiores em plataformas de investimento que são controladas pelos criminosos.
Quando se negam a fazer mais depósitos, as vítimas das fraudes perdem acesso a todo o dinheiro supostamente investido. Envergonhada ou temerosa, a maioria delas não relata o crime — o que indica que os dados disponíveis hoje são limitados.
“A ideia de combinar dois crimes, fraude e tráfico humano, é um fenômeno muito recente”, disse à ProPublica Matt Friedman, chefe-executivo do Mekong Club, uma instituição sem fins lucrativos de Hong Kong que combate a chamada escravidão moderna.
Os governos da China, Indonésia, Paquistão, Tailândia e Vietnã chegaram a emitir alertas, nos últimos meses, sobre ofertas de emprego com salários altos no Camboja. Autoridades do Taiwan e de Hong Kong até mesmo enviaram funcionários a aeroportos para questionar e alertar pessoas emigrando a trabalho. Ainda assim, segundo a ProPublica, enquanto os governos fazem avisos sobre o Camboja, novas operações criminosas são montadas em outros locais, como Mianmar.