Uma pequena cidade do interior de Minas criou um idioma próprio para despistar patrões e até hoje preserva palavras que parecem outra língua
Criada por trabalhadores das minas de ferro para despistar os patrões, a Guinlagem do Camaco sobrevive há mais de um século e ainda é falada em Itabira
Quem visita Itabira, no interior de Minas Gerais, dificilmente imagina que, além de ser a terra de Carlos Drummond de Andrade, a cidade preserva uma das manifestações linguísticas mais curiosas do Brasil. Conhecida como Guinlagem do Camaco, essa forma de falar nasceu há cerca de um século entre trabalhadores das minas de ferro e continua sendo transmitida entre gerações.
À primeira vista, parece um idioma completamente diferente, mas, na verdade, é um código baseado na inversão dos sons das sílabas das palavras, capaz de tornar qualquer conversa praticamente incompreensível para quem não conhece as regras.
O dialeto começou como uma estratégia de comunicação secreta, mas acabou se tornando parte da identidade cultural da cidade e, em 2023, foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Itabira.
Linguagem foi criada para que os patrões não entendessem
A origem da Guinlagem do Camaco remonta ao início do século XX, quando as minas de ferro de Itabira reuniam centenas de trabalhadores brasileiros sob o comando de engenheiros e administradores estrangeiros, principalmente ingleses.
Segundo pesquisadores, os operários passaram a inverter os sons das palavras para conversar entre si sem que os chefes compreendessem o conteúdo das conversas. O código também servia para organizar greves, discutir condições de trabalho e fazer comentários longe da vigilância dos patrões. Com o tempo, deixou de ser apenas uma ferramenta dos mineiros e passou a circular pelas ruas da cidade.
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