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Tragédia no Nepal e Tibete acende alerta para os riscos de derretimento de geleiras

Cientistas alertam que as mudanças climáticas criam condições propícias a catástrofes como as violentas enxurradas que atingiram a região do Himalaia, entre o Nepal e o Tibete, na China, na quarta-feira (26). As causas exatas do desastre ainda estão sendo determinadas, mas imagens de satélite fornecidas pelo Planet Labs sugerem que a ruptura da parte inferior de uma geleira desencadeou a enchente.

27 ago 2026 - 11h40
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Resumo
Uma avalanche de gelo e rochas no Himalaia provocou inundações que deixaram mais de 360 mortos e cerca de 1,5 mil desaparecidos no Nepal. Especialistas apontam que o aumento das temperaturas e o recuo das geleiras, impulsionados pelas mudanças climáticas, desestabilizam o relevo da região e elevam o risco de desastres como o rompimento de lagos glaciais. O perigo é amplificado pela crescente ocupação humana em vales montanhosos, acelerando a vulnerabilidade local frente ao aquecimento global.

Especialistas indicam que uma gigantesca avalanche de gelo e rochas nas encostas norte de Langtang Lirung, no Nepal, provavelmente levou ao desastre. Uma grande parte da língua glacial se rompeu a uma altitude de cerca de 5,2 mil metros, antes de desabar por mais um quilômetro abaixo, segundo especialistas.

Quase 1,5 mil pessoas estão desaparecidas, entre elas pelo menos 800 estrangeiros, depois que um deslizamento de terra no Himalaia causou inundações. Segundo balanço ainda provisório das autoridades, o número de mortos subiu para 362.

As imagens de satélite mostram que uma grande quantidade de neve pode ter derretido nas 24 horas anteriores ao desastre, disse Dan Shugar, geocientista da Universidade de Calgary, embora os dados meteorológicos locais ainda não tenham confirmado isso. Os especialistas acreditam que o aumento das temperaturas e o derretimento das geleiras provavelmente contribuíram para o desastre, mas não foram a única causa.

"Precisaríamos de uma investigação detalhada dos registros de temperatura e de todos os outros detalhes para confirmar a natureza deste evento ou atribuí-lo às mudanças climáticas. Mas uma coisa que podemos afirmar com certeza é que as mudanças climáticas levaram a um aumento da temperatura, e essa elevação térmica causou alterações na criosfera e nos seus componentes como geleiras, lagos glaciais, o permafrost - e isso leva à probabilidade de ocorrência desse tipo de evento aumentar", explicou à RFI Prashant Baral, glaciologista especialista na criosfera, as regiões da Terra cobertas por gelo.

Inundação do rio Trishuli River, no Nepal, arrasou cidades adjacentes. (26/08/2026)
Inundação do rio Trishuli River, no Nepal, arrasou cidades adjacentes. (26/08/2026)
Foto: RFI

Instabilidade aumentou

Baral salientou que tanto os solos quanto as paisagens degeladas estão se tornando instáveis. O aquecimento pode reduzir o gelo em encostas íngremes e alterar os ciclos de geada e precipitação, o que pode enfraquecer as encostas das montanhas e aumentar o risco de colapso. 

"As geleiras estão recuando, e vemos a formação desses lagos glaciais, que em área e volume estão se expandindo", disse o pesquisador do Centro Internacional pelo Desenvolvimento Integrado das Montanhas (Icimod), baseado no Nepal.

As hipóteses iniciais concentram-se na possibilidade de uma inundação repentina causada pelo rompimento de um lago glacial, conhecida como "GLOF" (sigla em inglês para Glacial Lake Outburst Flood), um evento cuja frequência e risco vêm aumentando com as mudanças climáticas. 

Um GLOF ocorre quando uma barragem natural frágil, composta por detritos e que retém um lago formado pelo degelo de geleiras, rompe-se subitamente, liberando a água represada. 

"A única razão pela qual um grande volume de água poderia ter descido o vale repentinamente é que ela foi liberada de uma só vez", disse Adrian McCallum, glaciologista da Universidade de Sunshine Coast, na Austrália. "A água flui tanto dentro quanto sob as geleiras", indicou ele. 

Gyirong, na fronteira entre o Nepal e o Tibete, foi engolida por enxurrada. (26/08/2026)
Gyirong, na fronteira entre o Nepal e o Tibete, foi engolida por enxurrada. (26/08/2026)
Foto: RFI

O bloco de gelo também pode ter formado, por um breve período, uma barragem natural no rio, retendo a água momentos antes de ceder e liberá-la em uma enxurrada repentina.

O perigo de as cidades 'subirem' nas montanhas

Sensores de temperatura do Icimod, instalados na bacia hidrográfica adjacente ao local onde ocorreu a tragédia, no Vale de Langtang, constatam as variações de temperatura nas últimas décadas. Prashant Baral ressalta que os riscos se tornam ainda maiores na medida em que infraestrutura e cidades "sobem" nas montanhas. 

"Como pudemos ver, quando essas duas coisas estão ocorrendo juntas, vemos que certamente as mudanças climáticas estão a ameaçar as vidas e os meios de subsistência das pessoas na região do Himalaia", adverte o glaciologista, em entrevista por telefone a Lucile Gimberg.

O glaciologista Etienne Berthier, cientista do laboratório de Midi Pyrénées do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França (CNRS), concorda que é "muito cedo para tirar conclusões" - é possível que a geleira "simplesmente tenha caído com o bloco de rochas embaixo dela", na hipótese de um colapso da montanha.

"No entanto, a desestabilização da montanha e o recuo dos glaciares são uma consequência direta das mudanças do clima e, em particular, do derretimento do permafrost, todo o gelo congelado que preenche as fraturas da montanha, que preenche as microfissuras e que, em última análise, contribui para a estabilização das nossas montanhas", afirmou à RFI.

"O permafrost está derretendo sob o efeito do aquecimento global causado pelo homem, e é por isso que temos cada vez mais deslizamentos de terra nas nossas montanhas. Este é também o caso do Mont-Blanc, na Europa, cujo acesso está cada vez mais complicado devido aos deslizamentos de terra no verão."

Povoamento do Himalaia amplifica tragédias

O pesquisador observa, entretanto, que a cadeia de montanhas do Himalaia é mais suscetível a esse tipo de consequência. A região já vivenciou vários desastres semelhantes nos últimos anos, embora em menor escala. Entre eles estão a inundação de 2025 em Gyirong e o esvaziamento repentino de um lago glacial na vila nepalesa de Thame, em 2024, ocorrido um ano após um evento semelhante no estado indiano de Sikkim.

"São os relevos mais fortes da Terra, as maiores diferenças de altura, com os glaciares muito grandes, e também com grandes populações e vales extremamente povoados", frisa, ao lembrar que desestabilizações são verificadas no Alasca, mas em regiões quase desabitadas. 

Inundações, deslizamentos de terra, avalanches e secas estão se tornando mais frequentes em toda a cordilheira de Hindu Kush. A tendência de longo prazo é alarmante. Em 2023, as Nações Unidas relataram que as montanhas do Nepal haviam perdido quase um terço de sua cobertura glacial em pouco mais de 30 anos, devido ao aquecimento global.

A organização também observou que a taxa de derretimento glacial no Nepal acelerou em cerca de 65% em comparação com a década anterior.

Com Reuter e AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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