Pressão estética alimenta mercado de canetas emagrecedoras; risco de uso a longo prazo é desconhecido
Os análogos de GLP-1 revolucionaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, mas seu uso vem sendo deturpado por pacientes que os utilizam sem indicação médica. No Brasil, segundo dados divulgados em fevereiro pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), desde 2018 foram registradas 65 notificações de morte, potencialmente associadas às canetas injetáveis, que aceleram a perda de peso.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A semaglutida, a liraglutida, a dulaglutida e a tirzepatida são moléculas sintéticas que "imitam" o GLP-1, um hormônio intestinal. Elas controlam o apetite, a sensação de saciedade e o nível de glicose no sangue, facilitando o emagrecimento — mesmo sem excesso de peso. A diferença entre essas substâncias, conhecidas pelos nomes comerciais Ozempic, Wegovy e Mounjaro — que atua no GLP-1 e no GIP, outro peptídeo — está na posologia, dosagem, potência de ação e efeitos colaterais.
O uso estético das canetas é um fenômeno que se expande em vários países e vem sendo analisado em estudos internacionais. Uma das pesquisas, publicada recentemente na revista científica Obesity, foi coordenada por Fernanda Scagliusi, que dirige o Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura (GPAC), e Bruno Gualano, do Centro de Medicina do Estilo de Vida (CMEV), das Faculdades de Medicina e de Saúde Pública da USP. O estudo contou com a participação de especialistas do Brasil, Estados Unidos, Dinamarca e Japão, que alertam para a "economia moral da magreza".
"O Brasil é um país em que a pressão estética pela magreza e a gordofobia são muito fortes e violentas. Mesmo uma pessoa com peso considerado clinicamente normal vai sofrer por causa do corpo e sentir necessidade de usar esses medicamentos. Temos insistido nisso: quando uma pessoa usa algo, é porque acredita que tem necessidade", diz Fernanda.
A equipe da pesquisadora trabalha atualmente em outros estudos que analisam a venda das canetas emagrecedoras no mercado desregulamentado. No Paraguai, os medicamentos podem ser comprados sem receita nas farmácias e em camelôs e no Brasil, algumas farmácias de manipulação fabricam e vendem os remédios sem o controle da Anvisa. Até meados do ano passado, também era possível adquirir as moléculas sem receita nas farmácias brasileiras.
Com ou sem prescrição médica, o alto custo dos medicamentos — uma caixa de Mounjaro, por exemplo, pode custar mais de R$ 2,5 mil — incentiva o mercado paralelo. "Estamos fazendo um estudo sobre esteroides e anabolizantes e percebemos que grupos no WhatsApp e no Telegram que vendiam esteroides e anabolizantes também estavam vendendo essas canetas", explica Fernanda. Esses mesmos grupos, diz, vendem remédios psiquiátricos, drogas ilícitas e, em alguns casos, até armas de fogo.
"Essas canetas obtidas fora das vias regulares podem impactar a saúde das pessoas. Às vezes não é a droga em si, o princípio ativo, mas um contaminante, uma impureza, que pode prejudicar a saúde e até levar ao óbito."
Efeitos a longo prazo
Em relatório publicado no ano passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) alerta que mais estudos são necessários para avaliar o uso a longo prazo dos análogos do GLP-1. "É uma medicação relativamente nova e não sabemos ainda quais são os efeitos colaterais do uso crônico. Nesse ponto, nosso grupo tem divergido bastante dos endocrinologistas, que repetem o mesmo discurso da indústria farmacêutica: a obesidade é uma doença crônica, e toda doença crônica exige tratamento para o resto da vida, como diabetes e hipertensão", observa a pesquisadora brasileira.
"Existem outros fatores que influenciam a relação entre peso e desfechos negativos de saúde. Entendemos também que chamar obesidade de doença traz uma carga de pânico e moralização social que não podemos ignorar. Além disso, não temos estudos que mostrem o que acontece quando as pessoas tomam esses medicamentos por 20, 30, 40 ou 50 anos."
Segundo a pesquisadora, estudos da sua equipe também demonstraram que muitos dos efeitos colaterais considerados moderados pelos fabricantes afetam profundamente a rotina dos usuários. "Se a pessoa está o tempo todo com náusea, vomitando ou muito cansada, isso muda sua vida. Ela não consegue trabalhar como antes, ou tem dificuldades sociais. Muitas mulheres que entrevistei relatam que não conseguem mais fazer exercícios físicos."
'Riscos e efeitos colaterais existem'
Segundo a endocrinologista Vanessa Santarosa, especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), os medicamentos são recomendados para pacientes com sobrepeso leve ou moderado e condições metábolicas associadas, como colesterol elevado, triglicerídeos altos ou hipertensão, por exemplo.
Os análogos de GLP-1 também foram aprovados para uso na apneia do sono e a semaglutida foi aprovada para tratar a esteatose hepática, que é o acúmulo de gordura no fígado. "Essas são basicamente as indicações: obesidade, diabetes, sobrepeso com comorbidades, síndrome da apneia do sono e esteatose hepática. Fora desses contextos, o uso é inadequado e potencialmente prejudicial", alerta a especialista.
De acordo com a endocrinologista, o uso estético "é proibido e fora de questão", apesar da pressão de alguns pacientes. "Os médicos devem ser os primeiros a alertar sobre a indicação de uso e lembrar que se trata de um remédio, não de um produto comercial ou estético que possa ser usado sem risco. Nosso papel é informar e conversar sobre os eventuais efeitos colaterais. Diversas vezes não indiquei a medicação por falta de subsídio clínico, técnico ou laboratorial, e informei ao paciente que ele não poderia usar."
Segundo ela, essa é a posição oficial da SBEM. "Esse é o consenso dos especialistas, e faço parte disso. Óbvio que existem profissionais e 'profissionais', como em todas as áreas. É uma falha de formação, agravada pela abertura de universidades sem critérios, formando profissionais com qualidade técnica aquém do necessário."
O problema, ressalta, não se restringe à prescrição. "Talvez haja falha dos próprios profissionais ao deixarem de informar ativamente o paciente ou ao cederem ao uso inadequado. Mas também há questões de comercialização, regulamentação dos órgãos públicos e criminalidade, que fogem ao nosso controle."
A endocrinologista lembra que o uso com acompanhamento traz benefícios a muitos pacientes. "São medicações ótimas, com muitos benefícios. Sempre digo aos pacientes que esses remédios não estão na moda à toa. Para nós, endocrinologistas, foram um divisor de águas", ressalta, alertando também para a ausência de dados sobre uso prolongado.
"Muitas pesquisas estão em andamento para trazer respostas que ainda não temos. Pacientes com indicação de uso contínuo, como os diabéticos, ficam preocupados. Por enquanto, os benefícios superam os riscos. Mas estão surgindo pesquisas e relatos de efeitos adversos cuja relação causal ainda precisa ser confirmada, para sabermos se esses efeitos mais graves podem ser atribuídos ao uso do remédio."