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Mosquito da dengue pode aprender a 'ignorar' repelente, mostra estudo francês

O entomólogo Claudio Lazzari, do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica da França) e o neurocientista Clement Vinauger, da universidade americana Virginia Tech, realizaram uma experiência inédita com fêmeas do mosquito Aedes aegypti, que transmite a dengue. Os insetos passaram a aceitar um repelente químico a base de DEET (N-dimetil-meta-toluamida ou N,N-dietil-3-metilbenzamida), um dos mais comuns e eficazes, desenvolvido nos anos 1940.

30 jun 2026 - 10h40
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Taíssa Stivanin, da RFI em Paris

A pesquisa mostrou que o mosquito da dengue pode se acostumar com o repelente se for alimentado logo antes (imagem ilustrativa).
A pesquisa mostrou que o mosquito da dengue pode se acostumar com o repelente se for alimentado logo antes (imagem ilustrativa).
Foto: AFP - MANJUNATH KIRAN / RFI

Um dos objetivos do estudo, publicado em maio na revista Journal of Experimental Biology, foi entender se os insetos que transmitem doenças são capazes de aprender e memorizar informações. Em diversos experimentos, os cientistas analisaram percevejos, vetores da doença de Chagas, e mosquitos, e observaram que eles podem se adaptar e reduzir sua sensibilidade ao repelente, o que sugere a presença de processos de aprendizagem cognitiva.

A equipe utilizou um protocolo clássico de psicologia experimental para condicionar os animais. Ele estabelece associações, como tocar uma campainha antes de oferecer comida, por exemplo. Esse método, explicam os cientistas, funciona com cães, mas também com abelhas, algumas espécies de moscas e outros bichos.

O problema é que, nesses estudos, os estímulos não têm significado negativo. O som de uma campainha não provoca nenhuma reação específica, apenas indica que é hora da comida. Já no caso dos repelentes, a reação instintiva do mosquito é escapar.

Para contornar esse problema, os pesquisadores ofereceram alimento ao mosquito e, em seguida, apresentaram o repelente. Esse tipo de protocolo é chamado, na psicologia experimental, de condicionamento invertido. Após vários testes, a estratégia deu certo. "Os mosquitos estavam tão estimulados a se alimentar que aceitaram o repelente sem escapar. Para eles, a comida e o cheiro do repelente eram percebidos ao mesmo tempo", explica Claudio Lazzari.

O DEET passou a ser associado a algo positivo, como alimento. "Testamos com sangue, mas também com açúcar, já que os mosquitos têm alimentação dupla: consomem tanto néctar de flores quanto sangue. Nos dois casos, o sangue e o açúcar foram capazes de modificar o comportamento dos mosquitos diante do repelente", detalha o entomólogo.

Durante o experimento, os pesquisadores colocaram uma fêmea de Aedes aegypti em um tubo isolado e ofereceram sangue de amostras disponíveis para a pesquisa. Após exatamente quatro picadas, os cientistas aplicaram o repelente por 10 segundos, com intervalos de 5 minutos.

Segundo Clement Vinauger, o sangue foi colocado atrás de uma membrana que imitava a pele, feita com uma barreira de um material parecido com parafina. Durante a experiência, o mosquito podia picar através da membrana e ingerir o sangue líquido, aquecido em um dispositivo criado para o experimento.

"Depois, controlamos a quantidade de alimento ingerida pelo mosquito cronometrando o tempo, ou seja, deixando-o se alimentar por um período determinado. Como os mosquitos comem, em média, a uma taxa semelhante, conseguimos associar duração e volume", explica o neurocientista.

Mudança de percepção

Cerca de 30 insetos participaram do estudo. De acordo com Claudio Lazzari, as experiências foram repetidas durante meses para validar dados estatísticos, e a conclusão é que, após se alimentarem com o sangue, os mosquitos mudaram sua percepção em relação ao repelente. Os resultados permitiram à equipe entender o que ocorre no cérebro do mosquito, explica o neurocientista Clement Vinauger.

A equipe pôde visualizar a atividade neuronal dos insetos por meio de técnicas de imagem ou utilizando a eletrofisiologia, que consiste em inserir eletrodos diretamente no cérebro do mosquito e registrar a atividade elétrica dos neurônios.

"O que também havíamos observado em nossos estudos com mosquitos é que o centro de integração da informação olfativa, ou seja, a parte do cérebro que recebe as informações das antenas, funciona da seguinte forma: todos os odores que o mosquito detecta são percebidos pelas antenas, e esses sinais convergem para estruturas específicas no cérebro", diz.

"Já nesse primeiro nível de transmissão, ocorre integração e modulação de como os odores são representados, dependendo de terem sido aprendidos ou não, ou de ter havido experiência prévia. Assim, temos uma ideia geral dos circuitos envolvidos nesse tipo de aprendizado."

Esse aprendizado sensorial modifica a maneira como o mosquito percebe o repelente. A descoberta abre novas perspectivas sobre a capacidade de adaptação cognitiva dos insetos, mas é importante continuar usando repelente para se proteger, alertam Claudio Lazzari e Clement Vinauger.

O DEET continua sendo o principal e mais eficaz repelente, especialmente em áreas com risco de doenças como dengue, chikungunya e febre amarela, transmitidas pelo Aedes aegypti. Os resultados do estudo foram obtidos em laboratório e não indicam que mosquitos na natureza estejam desenvolvendo resistência ao produto.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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