Experiências negativas vividas na maternidade podem influenciar depressão pós-parto
Estudo feito por pesquisadoras francesas mostra que o comportamento da equipe médica considerado inadequado pelas pacientes, antes e depois do parto, pode estar relacionado ao aparecimento da doença.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A depressão pós-parto atinge cerca de 2 em cada 10 mulheres na França e 25% no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. Tristeza persistente, dificuldade para criar vínculo com o bebê recém-nascido, falta de apetite, distúrbios do sono, cansaço e problemas de concentração são alguns dos sinais que devem alertar as mães.
Esse risco aumenta em função de fatores ambientais, como gravidez difícil, isolamento ou más condições de vida, mas também está relacionado ao atendimento no hospital durante e após o parto.
É o que mostra um estudo inédito divulgado em novembro, conduzido pelas cientistas francesas Marianne Jacques, do Inserm (Instituto Nacional de Pesquisa Médica), enfermeira obstetra no hospital Erdre e Loire, na região centro-oeste da França, e Camille Le Ray, professora de ginecologia e obstetrícia na maternidade parisiense de Port Royal, no 6º distrito da capital.
As duas pesquisadoras analisaram como experiências negativas vivenciadas nas maternidades francesas influenciaram o aparecimento da depressão pós-parto. A pesquisa, publicada em novembro na revista BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology, também propõe medidas para prevenir o transtorno psíquico nas mães.
Segundo o estudo, cerca de 25% das mães seriam afetadas pelo transtorno. A conclusão é baseada em uma análise de dados recolhidos dois meses após o parto de um grupo de pacientes, que participou de uma pesquisa nacional perinatal, em 2021.
"Essas pesquisas nacionais são realizadas há mais de 30 anos, a cada cinco ou seis anos. Elas incluem, durante uma semana, todas as mulheres que deram à luz e aceitaram participar, em toda a França", diz Marianne. "A última edição é de março de 2021 e contou com a participação de mais de 12 mil mulheres. A novidade é que as participantes responderam a um novo questionário dois meses após o parto".
Nesse questionário, 1.888 mulheres relataram gestos, observações e práticas da equipe médica e hospitalar que, por diferentes razões, geraram desconforto ou mal-estar durante e após o parto.
Outra série de perguntas propostas pelas pesquisadoras oito semanas após o nascimento do bebê, relacionadas exclusivamente à depressão pós-parto, revelou que 17% das mães tinham sintomas da síndrome.
Há mais de dez anos trabalhando em um hospital, a cientista francesa vive na prática as eventuais dificuldades enfrentadas pelas gestantes e suas famílias. "Tentamos manter nossa atividade clínica o máximo possível, já que nossas pesquisas são baseadas nessa experiência. O objetivo, justamente, é poder aplicá-las de forma prática para beneficiar as mulheres e as famílias."
'Senti a dor do corte'
Sophie, 45 anos, teve um parto normal há 11 anos em uma maternidade parisiense. Quando as contrações ficaram muito fortes, recebeu anestesia. "A anestesia só funcionou de um lado, eu senti muita dor. Avisei o anestesista e a equipe, mas o parto continuou", conta.
A francesa Dadi integra a Associação Femmes Africaines de la Plaine (Mulheres Africanas da Plaine), localizada em Saint-Denis, perto de Paris. Ela relatou à repórter Charlie Dupiot, do programa Priorité Santé da RFI, o trauma vivido após uma episiotomia — uma incisão feita na região do períneo, entre a vagina e o ânus, para ampliar o canal de parto e facilitar a saída do bebê.
A anestesia não fez efeito e Dadi sentiu o corte e a sutura. "Três semanas depois, o corte ainda não tinha cicatrizado. Foi traumatizante para mim, eu não podia me sentar, eram dores muito fortes."
Apesar de o estudo não detalhar os problemas que envolvem individualmente as situações que incomodaram as mulheres ouvidas na pesquisa, como foi o caso de Sophie e Dadi, obter essas informações é uma das metas da equipe de pesquisadoras.
"Não sabemos o que está por trás desses depoimentos e não é o objetivo desse tipo de estudo. Mas, para sabermos mais a respeito, estamos organizando outras pesquisas que vão nos ajudar a entender, de maneira mais detalhada, quais são os comportamentos apontados como inapropriados pelas mulheres e citados com mais frequência."
Para isso, a equipe utilizará outra coorte, ou grupo de pacientes que já tiveram depressão diagnosticada. "Vamos solicitar às pacientes que tiveram depressão pós-parto que tentem se lembrar de como foi o parto e o período na maternidade. A ideia é entender melhor a interação com os profissionais de saúde que as atenderam."
A cientista francesa explicou que algumas hipóteses explicam essa relação: certos gestos ou cuidados médicos no hospital podem dar às mulheres, explica, uma sensação de "desumanização, desvalorização e perda de confiança em si mesmas".
Novas pesquisas
"Também temos hipóteses endocrinológicas e hormonais, mas temos poucos dados para corroborá-las. Por isso, temos outros projetos de pesquisa com esse objetivo: tentar entender a fisiopatologia desse fenômeno e ir um pouco mais longe", diz Marianne Jacques.
A relação causa-efeito entre a experiência das mulheres e a depressão após o parto apontada nos estudos epidemiológicos deve ser vista com cautela, lembra Marianne Jacques, mas não pode ser negada.
"Em todo caso, ainda que os cuidados médicos inapropriados não tivessem consequências desfavoráveis, sabemos que isso é uma realidade, que isso acontece, e é necessário adotar estratégias para fazer com que esses gestos ou comportamentos inadequados diminuam."