Do subsolo aos smartphones: a importância estratégica do quartzo de Spruce Pine, nos Apalaches dos EUA
Você está lendo este artigo no seu telefone ou computador, mas sabe por que isso é possível? O quartzo, que se tornou essencial, é agora considerado altamente estratégico pelas principais potências do mundo. Presente na Terra há milhões de anos, sua pureza é hoje cobiçada pelas maiores empresas de chips eletrônicos e semicondutores. A mina de Spruce Pine, nas montanhas Apalaches dos EUA, produz um dos quartzos mais puros do mundo.
Alexis Pignolet, da RFI
Surpreendentemente, o quartzo é um dos minerais mais abundantes da crosta terrestre — a areia, por exemplo, é composta em grande parte por ele. No entanto, um ponto isolado, situado a 800 metros de altitude, transformou-se em uma peça-chave da economia mundial. Ali, o quartzo é negociado por mais de € 20 mil a tonelada. O destino é a mina de Spruce Pine, perdida nas montanhas Apalaches da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.
Hoje, o quartzo tornou-se essencial para inúmeras empresas que dele dependem para fabricar os chamados chips ou semicondutores. Esses minúsculos cérebros eletrônicos são componentes de computadores e telefones responsáveis pelo processamento de informações, permitindo o funcionamento de praticamente todos os aplicativos do cotidiano.
"Estamos falando do desenvolvimento da indústria de componentes e, portanto, da necessidade de materiais de altíssima pureza", explica Laurent Carroué, geógrafo e diretor de pesquisa do Instituto Francês de Geopolítica da Universidade Paris VIII.
É justamente aí que entra a mina de Spruce Pine, aparentemente isolada do resto do mundo. Ela possui uma característica única: produz um dos quartzos mais puros do planeta. Essa pureza resulta de "um fenômeno geológico particular que, por suas configurações técnicas e geológicas específicas, é efetivamente raro", explica Carroué.
Há cerca de 380 milhões de anos, grandes movimentos tectônicos ocorreram na região sem infiltração de água, impedindo a introdução de impurezas metálicas. Por isso, considera-se que o quartzo de Spruce Pine possui pureza de 99,999%.
Essa qualidade excepcional explica por que ele é tão valorizado: o mineral é utilizado no refinamento do polissilício fundido para a produção dos wafers, as finas lâminas de silício usadas na fabricação dos semicondutores.
O quartzo de alta pureza é essencial porque suporta temperaturas extremamente elevadas. Na etapa final da fabricação dos chips, o polissilício é aquecido a cerca de 1.400°C em grandes recipientes feitos desse quartzo especial. Sem esses recipientes, seria impossível produzir os wafers de silício sobre os quais são incorporados os componentes eletrônicos que formam os circuitos integrados.
Ferramenta geopolítica e soberania industrial
Embora seja estratégico para os Estados Unidos, a nacionalização da mina não está em discussão. Atualmente, duas empresas estrangeiras disputam a exploração dos depósitos de Spruce Pine: a belga Sibelco e a franco-norueguesa The Quartz Corp.
Como destaca Laurent Carroué, esse tipo de configuração geológica é, por natureza, "não transferível e não deslocalizável", assim como ocorre com determinadas minas de urânio no Níger, que despertam o interesse das grandes potências há vários anos.
A mina de Spruce Pine ocupa, portanto, uma posição próxima de um monopólio mundial no fornecimento de quartzo de alta pureza. Ainda assim, outros países, como Rússia, China e Brasil, também possuem capacidade de produção, embora a custos muito mais elevados.
Em junho, diversos veículos chineses, entre eles o South China Morning Post, revelaram a descoberta de depósitos no Tibete e em Xinjiang com níveis de pureza próximos aos de Spruce Pine. Dependente do quartzo dos Apalaches, a China pretende investir fortemente para reduzir suas importações.
Os minerais raros, mercado que durante anos foi controlado em cerca de 90% pela China, tornaram-se um dos principais campos de disputa entre Pequim e Washington, levando os Estados Unidos a reativar minas anteriormente abandonadas no oeste norte-americano.
Segundo Laurent Carroué, enquanto um recurso não estiver esgotado, os fatores geográficos apresentam certa "plasticidade", permitindo, no longo prazo, uma redistribuição das funções estratégicas entre diferentes territórios.
Entre riscos e vulnerabilidade
Diante de eventos climáticos cada vez mais intensos e frequentes, a capacidade de reação tornou-se fundamental. Em outubro de 2024, o furacão Helene atingiu duramente a costa leste dos Estados Unidos. Embora os danos no interior do país tenham sido menores, a região dos Apalaches sofreu impactos significativos.
As principais rodovias ficaram intransitáveis devido à queda de árvores e precisaram ser fechadas, interrompendo por algumas semanas a produção em Spruce Pine.
Na ocasião, a Bloomberg classificou a região como os "quatro quilômetros quadrados mais críticos da cadeia global de suprimentos". Embora os mercados não tenham entrado em colapso, uma interrupção prolongada teria provocado inevitavelmente uma alta nos preços.
Um cenário desse tipo provavelmente estimularia a busca por substitutos ou soluções alternativas. Com a crescente demanda da inteligência artificial por chips cada vez mais sofisticados, a Sibelco respondeu investindo mais de US$ 200 milhões em Spruce Pine em 2025, segundo a revista Exponential Industry.
Já a queda da demanda por painéis solares levou a The Quartz Corp a fechar uma de suas unidades nos Apalaches.
A Europa também dispõe de recursos exploráveis, especialmente graças às jazidas existentes na Noruega. No entanto, segundo Laurent Carroué, reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos exigiria aceitar minerais inicialmente menos puros e investir fortemente em infraestrutura de refino.
A longo prazo, a solução poderá escapar às limitações impostas pela geografia: o desenvolvimento do quartzo sintético produzido em laboratório surge como uma alternativa tecnicamente viável dentro de cinco a dez anos. A transição para esse substituto dependerá então menos da riqueza do subsolo e mais de decisões políticas e financeiras de grande escala.
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