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Como a transferência de genes explica a resistência bacteriana?

Diretor de pesquisa no Instituto Pasteur, em Paris, o cientista português Eduardo Rocha estuda a evolução, a diversidade genética e a transferência de genes entre as bactérias. Esses mecanismos moleculares sofisticados são essenciais para compreender e buscar soluções para a resistência aos antibióticos.

5 mai 2026 - 09h45
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Taíssa Stivanin, da RFI em Paris

Segundo o pesquisador, os micróbios essa capacidade a um custo biológico muito baixo, o que contribui para a estabilização da resistência a longo prazo. Essas análises, explica Rocha, são feitas a partir de dados de sequenciamento genético, que permitem o estudo detalhado dos genes presentes nos microrganismos. 

O cientista compara o genoma de uma bactéria típica a um texto complexo, escrito com um alfabeto formado pelas quatro letras correspondentes às bases nitrogenadas que compõem a molécula de DNA: adenina, citosina, guanina e timina. 

"Nosso objetivo é decodificar esse texto e entender quais genes estão presentes no genoma, quais elementos regulam a presença desses genes e a expressão deles. Podemos comparar genomas e verificar como as bactérias evoluem, como evoluíram no passado e tentar prever como vão evoluir no futuro." 

Compreender esse processo ajuda a explicar como elementos genéticos móveis permitem a transferência de genes de resistência. "Nosso foco é a evolução das bactérias por várias razões. Do ponto de vista clínico, algumas causam doenças e muitas são resistentes aos antibióticos. Além disso, muitas vivem em nosso corpo e contribuem para a nossa boa saúde. Tentamos entender como elas se adaptam — e essa adaptação ocorre muito rapidamente." 

Segundo ele, essa evolução acelerada pode ser observada em experiências de laboratório e em análises de amostras clínicas. "Podemos realizar experimentos e constatar que, em poucos dias, bactérias se tornam resistentes aos antibióticos, perdem ou ganham virulência. Como hoje é possível conhecer os genomas com facilidade, conseguimos rastrear as modificações genéticas que levam a esses resultados." 

No laboratório do Instituto Pasteur, a equipe cultiva bactérias em concentrações progressivamente maiores de antibióticos e, em seguida, sequencia o genoma das sobreviventes para entender os mecanismos que levaram à resistência. 

O pesquisador português Eduardo Rocha em entrevista à RFI: a análise dos genomas das bactérias permite entender como surge a resistência aos antibióticos
O pesquisador português Eduardo Rocha em entrevista à RFI: a análise dos genomas das bactérias permite entender como surge a resistência aos antibióticos
Foto: RFI

Genes móveis 

Os cientistas buscam mapear essas alterações no genoma. "As bactérias, em especial, têm a capacidade de trocar genes com outras bactérias, de adquirir genes externos. Há 70 anos, todas as bactérias com as quais convivemos eram sensíveis aos antibióticos. Hoje, existem bactérias resistentes a quase todos os antibióticos em uso no hospital, resultado da aquisição progressiva desses genes, o que permite uma evolução rápida." 

A equipe também analisa amostras de pacientes e de pessoas saudáveis. Em um dos estudos, os pesquisadores acompanharam a flora intestinal de voluntários durante seis meses após um tratamento com antibióticos, para entender as reações e modificações, que variaram de acordo com certos fatores.

"É preciso enxergar o intestino como um ecossistema formado por diferentes bactérias. Cada pessoa terá um ecossistema distinto, influenciado pela genética, pela dieta e pelos hábitos." 

No ano passado, Eduardo Rocha recebeu a medalha de prata do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) por seus trabalhos sobre elementos genéticos móveis. Esses elementos, que estão no centro de sua pesquisa, podem ser descritos como "parasitas" das bactérias, capazes de transportar genes de uma célula a outra, contribuindo para a evolução desses microrganismos. 

O funcionamento dessas transferências gênicas é particularmente relevante quando as bactérias envolvidas são patogênicas e podem evoluir para formas mais virulentas. O pesquisador identificou uma espécie de cadeia hierárquica de relações funcionais entre esses elementos genéticos móveis. "Ao acompanhar a evolução desses elementos e dos genes de resistência, é possível observar, do ponto de vista epidemiológico, como a resistência se dissemina na população e no ambiente hospitalar", conclui. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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