'Quase-galáxia': cientistas identificam estrutura cósmica sem estrelas, uma relíquia do Cosmos
Batizada de Nuvem-9, estrutura composta apenas por hidrogênio pode revelar pistas sobre a formação das primeiras galáxias e a natureza da matéria escura
O universo continua surpreendendo quem o estuda. Nesta semana, astrônomos anunciaram a descoberta de um tipo inédito de objeto cósmico, algo que se assemelha a uma galáxia, mas sem um de seus principais componentes: as estrelas.
A quase-galáxia, localizada a cerca de 14 milhões de anos-luz da Terra, foi identificada como a nona nuvem associada a uma galáxia espiral próxima. Por isso, recebeu o nome de Nuvem-9. Diferentemente das galáxias convencionais, ela é formada apenas por uma névoa de gás hidrogênio, envolta em um grande aglomerado de matéria escura — a substância invisível que preenche o cosmos e molda sua estrutura.
"Não encontramos nada parecido com isso até agora", afirmou Rachael Beaton, astrônoma do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial, durante reunião da Sociedade Astronômica Americana, em Phoenix. "É basicamente uma galáxia que nunca chegou a existir."
A Nuvem-9 é o primeiro exemplo confirmado de um RELHIC, sigla em inglês para Reionization-Limited HI Cloud (Nuvem de Hidrogênio Limitada pela Reionização), pronunciada "relic", ou "relíquia". Esses objetos contêm grandes quantidades de gás, mas nenhuma estrela. Considerados "galáxias fracassadas", são remanescentes do início do universo e podem ajudar os cientistas a entender o que torna possível o nascimento das galáxias.
O estudo dessas estruturas também pode esclarecer a natureza da matéria escura, revelando que tipo de partículas a compõem e de que forma ela influencia a forma e a evolução do universo observável.
A hipótese mais aceita sobre a formação cósmica prevê que halos de matéria escura estão espalhados por todo o espaço. Quando possuem massa suficiente, esses halos atraem gás, que dá origem às estrelas e, eventualmente, a uma galáxia. Mas modelos teóricos também sugerem que halos menores podem acumular gás sem nunca formar estrelas — e, por não emitirem luz, só podem ser detectados pelas ondas de rádio do hidrogênio.
A Nuvem-9 foi observada pela primeira vez em 2023 por pesquisadores chineses, usando o Telescópio Esférico de Abertura de Quinhentos Metros (FAST). Depois, telescópios nos Estados Unidos confirmaram que o objeto realmente parecia não ter estrelas.
Mesmo assim, restavam dúvidas: seria a Nuvem-9 uma galáxia anã escura, com estrelas fracas demais para serem vistas da Terra?
Em 2025, uma equipe liderada por Gagandeep Anand, também do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial, observou o objeto com o Telescópio Espacial Hubble. Os dados indicaram que a Nuvem-9 contém cerca de cinco bilhões de vezes a massa do Sol em matéria escura, envolvendo um milhão de massas solares em gás hidrogênio.
"Está claro que não há uma quantidade significativa de estrelas ali", disse Anand. "Não se trata de uma galáxia anã fraca."
Para Priyamvada Natarajan, astrofísica da Universidade Yale que não participou do estudo, a descoberta é "muito instigante" e pode abrir caminho para testar novos modelos de matéria escura. "A próxima questão é saber quantas dessas relíquias existem em diferentes momentos do universo", afirmou. "Está na hora de começarmos a planejar um telescópio capaz de responder a isso."
Anand acredita que a equipe teve sorte ao encontrar a Nuvem-9, mas está convencido de que outras semelhantes estão por aí. "Este é apenas o primeiro exemplo", disse. "Com certeza existem mais". /NYT