Os surpreendentes tesouros encontrados nas obras de controversa ferrovia na Inglaterra
Achados arqueológicos da linha ferroviária HS2 planejada foram apresentados com exclusividade pela BBC.
Arqueólogos encontraram centenas de milhares de objetos (muitos deles considerados tesouros) durante as obras da controversa linha ferroviária de alta velocidade HS2 no Reino Unido.
Os 450 mil objetos desenterrados até agora, que estão guardados em um armazém secreto e foram exibidos com exclusividade à BBC, incluem uma possível etiqueta de um gladiador romano, um machado de mão que pode ter mais de 40 mil anos e dentaduras de ouro do século 19.
É uma quantidade e uma variedade "sem precedentes" de itens, que devem trazer novos conhecimentos sobre o passado do Reino Unido, afirma o Council for British Archaeology (entidade não governamental de arqueologia que atua no Reino Unido).
Desde 2018, cerca de 1.000 arqueólogos participaram de 60 escavações ao longo do percurso que a HS2 deverá percorrer entre Londres e Birmingham.
Grandes empreendimentos de construção no Reino Unido precisam ter suas áreas avaliadas por arqueólogos como parte do processo de planejamento, para proteger áreas de valor histórico e cultural.
Embora a rota não esteja prevista para ser inaugurada antes de 2033, por causa de atrasos e mudanças no projeto, os arqueólogos afirmam que os trabalhos de campo estão praticamente concluídos.
A localização do armazém é um segredo bem guardado por motivos de segurança. Tudo o que a BBC pode dizer é que fica em Yorkshire, no norte da Inglaterra. No interior, existem prateleiras e mais prateleiras de paletes, carregadas com cerca de 7.300 caixas de artigos históricos destinados a futuras pesquisas.
O futuro de muitos objetos ainda não foi definido, incluindo onde eles serão armazenados, se serão exibidos e a quem eles pertencem.
O espaço abriga peças de grande impacto, como cabeças de estátuas romanas e um pingente de ouro com os "três leões", dos séculos 13 e 14.
No chão de uma das áreas, há um caixão vazio envolto em plástico-bolha, datado de 1799, com outro menor ao lado, embrulhado com fita adesiva, lembretes sóbrios de que esse acervo é um retrato das pessoas que viveram ali um dia.
Alguns dos objetos descobertos já foram apresentados ao público.
Nós selecionamos seis que nunca haviam sido exibidos. É possível ver onde eles foram encontrados no mapa da rota do HS2 abaixo, em seguida, role a página para ver os objetos e ler sobre sua história.
Machado de mão do paleolítico
Especialistas acreditam que um machado tenha mais de 40 mil anos e tenha sido produzido por neandertais ou por uma outra espécie humana ainda mais antiga.
Encontrado na região de Edgcote, em Northamptonshire, o objeto tem uma borda afiada provavelmente projetada para o abate de animais.
Os machados de mão eram segurados na palma da mão, e não eram presos a um cabo de madeira.
"Há algo de tátil nele quando você o segura", disse Sara Machin, responsável pelas descobertas da Access +, grupo de arqueólogos encarregado do projeto. "Mesmo hoje, ele se encaixa perfeitamente na minha mão."
Etiqueta de gladiador romano
Essa pequena peça, feita de osso fino entalhado, traz uma inscrição. Se estivesse completa, segundo especialistas, ela diria: "DOMINE VICTOR VINCAS FELIX", ou "Senhor Victor, que você vença e tenha sorte", em tradução livre.
Descoberta em Northamptonshire, a peça pode ter pertencido a um gladiador romano em atividade ou já aposentado, ou até mesmo ter sido um souvenir de um espectador, afirmou Machin, da Access +, embora não haja evidências da existência de uma arena ou de um circo naquela parte do país.
O objeto foi recuperado de um grande recipiente de cerâmica que continha restos humanos cremados, com um X marcado na tampa.
John Pearce, professor de arqueologia do King's College University (Reino Unido), afirmou que uma ligação com um gladiador é possível, mas acrescentou que, "com análises forenses mais detalhadas do sepultamento, uma história diferente pode vir à tona".
Peso de fuso para fiação anglo-saxão
Acredita-se que esse peso de fuso anglo-saxão decorado, usado para dar peso ao fio durante a fiação, tenha sido feito a partir do osso fêmur de um bovino. Foi desenterrado em terras agrícolas próximas a Bishopstone, em Buckinghamshire.
"É uma evidência muito interessante dos avanços têxteis no período anglo-saxão", disse Willow Major, assistente de pós-escavação.
Segundo ela, a superfície polida indica que a peça foi muito utilizada e teve grande valor para alguém. Major acrescenta que, curiosamente, o desenho de anel e ponto também foram encontrados em ferramentas da Idade do Ferro, um período muito anterior.
Dado medieval
Um pequeno dado polido recuperado em uma vila medieval abandonada em Lower Radbourne, em Warwickshire, lembra os modelos modernos, mas apresenta um formato de numeração diferente.
Suas imperfeições, com um dos lados mais comprido do que os demais, o distinguem dos dados produzidos em massa atualmente.
Pug encontrado em um túmulo
Essa estatueta inteira de um cachorro da raça pug sentado, feita de porcelana branca esmaltada, lisa, com detalhes em preto, foi encontrada no túmulo de uma mulher não identificada em St James' Gardens, em Euston.
Ela teria sido produzida na fábrica de porcelana de Derby entre 1770 e 1800.
Dentaduras de ouro do século 19
"Cada caixa traz uma surpresa", disse Machin, da Access +, ao desembrulhar talvez o item mais inusitado do conjunto, que se acredita ser do século 19: um conjunto de dentaduras inferiores de ouro encontrado na antiga Igreja de St Mary, em Stoke Mandeville.
A peça tem seis dentes e um número gravado na parte interna.
"São objetos, mas todos se relacionam a pessoas", afirmou Machin. "São das pessoas que viveram nessas áreas ao longo de milhares de anos, e podemos começar a escrever as histórias de suas vidas e do que elas têm a nos contar."
Escala 'extraordinária'
"A escala é o que torna tudo isso tão extraordinário", afirmou Neil Redfern, do Council for British Archaeology, ao comparar a linha ferroviária HS2 a outros grandes projetos de desenvolvimento.
"Mas é a extensão do projeto, as paisagens e os lugares pelos quais a HS2 passou que tornam o conjunto de lugares e materiais tão interessante. O potencial de pesquisa desse material é notável."
Ele acredita que os achados podem ajudar as pessoas a compreender mudanças mais amplas na paisagem, no presente e no passado.
Para aprofundar essas histórias, os arqueólogos entraram agora na segunda fase dos trabalhos, que inclui novas verificações de estado de conservação, limpeza e preservação.
Há ainda mais planos para exibir os objetos. Os artefatos do cemitério saxão de Wendover, onde 122 sepultamentos foram desenterrados, devem entrar em exposição pela primeira vez em breve, em uma mostra do Discover Bucks Museum, em Aylesbury.
No entanto, o futuro de outros itens é menos claro.
Um porta-voz da HS2 explicou que, de acordo com a legislação de propriedade inglesa, objetos arqueológicos e históricos encontrados durante as obras pertencem ao governo ou aos proprietários das terras.
"Ocasionalmente, os proprietários podem desejar manter a posse dos objetos; nesse caso, eles serão devolvidos aos seus cuidados", disse o porta-voz.
Charlotte Self, gerente de arquivo do projeto, afirmou que ela e sua equipe estão solicitando, sempre que possível, que os proprietários façam a doação das peças, para que pessoas ao longo do percurso possam apreciá-las.
"Eu adoraria ver a maioria desses itens depositados em museus locais, próximos de onde foram encontrados", disse Self.
Obra controversa
A Historic England, instituição governamental encarregada da preservação do patrimônio histórico da Inglaterra (que faz parte do Reino Unido), elogiou a equipe por revelar "novas e excitantes áreas que abrangem mais de 10 mil anos do nosso passado".
Mas a construção da HS2 dividiu e ainda divide opiniões no país ao alterar a paisagem ao longo da rota, cortando campos e comunidades, além de ver seu custo e seu prazo de entrega se alongarem.
Críticos do projeto, como Greg Smith, representante parlamentar de Mid Buckinghamshire, diz que os custos exorbitantes, os atrasos, as vilas abandonadas e os danos no ambiente natural e histórico mostram que não valia a pena ter seguido adiante com a obra.
"Não deveria ter custado dezenas de bilhões de libras aos contribuintes para construir uma ferrovia que ninguém quer e que causa tanta destruição", disse Smith.
Não se sabe ao certo qual será o custo final (nem o tamanho da ferrovia), mas considerando os valores corrigidos, alguns especialistas estimam que a obra possa custar cerca de R$ 7 bilhões por cada milha (1,6 km) de ferrovia.
Em resposta, os responsáveis pela HS2 afirmaram: "O diretor executivo, Mark Wild, deixou claro que a execução geral do projeto HS2 tem sido inaceitável e está empenhado em pôr fim ao ciclo de aumentos de custos e atrasos do projeto."
E acrescentaram: "A nossa equipe especializada em arqueologia e os nossos contratados escavaram cuidadosamente diversos sítios arqueológicos, demonstrando zelo e respeito durante todo o trabalho."
"Se o HS2 é bom ou ruim, é discutível, mas te digo uma coisa: se construíssem a ferrovia e não fizéssemos o estudo arqueológico, seria muito mais trágico", conclui o historiador Graham Evans, presidente da Northamptonshire Battlefields Society.