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Ciência

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Formigas raras são vendidas na internet e geram preocupação

31 jul 2026 - 14h30
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Apreensões no Quênia revelam mercado lucrativo de insetos exóticos para a Europa e acendem alerta sobre biopirataria. Negócio movimenta milhões e aumenta o risco de introdução de insetos invasores em novos países.Provas pouco comuns vêm sendo apresentadas ultimamente em tribunais pelo Quênia: milhares de formigas dentro de pequenas cápsulas. Desde 2025, apreensões desse tipo foram usadas como prova em diversos processos.

Ano passado, milhares de formigas foram capturadas no aeroporto de Nairóbi, no Quênia
Ano passado, milhares de formigas foram capturadas no aeroporto de Nairóbi, no Quênia
Foto: DW / Deutsche Welle

Funcionários da autoridade de proteção à vida selvagem no país africano as encontraram durante inspeções de bagagem. Em vários casos, os agentes identificaram milhares de exemplares da espécie Messor cephalotes, também conhecida como formiga-colheitadeira-gigante-africana. Esses insetos estão entre as maiores formigas do mundo e são muito procurados por criadores amadores. O valor de mercado de uma rainha, por exemplo, ultrapassa os 200 euros (R$ 1,2 mil).

A exportação de animais silvestres é proibida no Quênia. Devido à elevada ocorrência da caça ilegal no continente, sobretudo de elefantes e rinocerontes, vários países africanos aprovaram leis, em alguns casos severas, contra o tráfico de animais silvestres. No Quênia, a legislação também foi endurecida. Com base nessas normas, em abril passado, um cidadão chinês que tentava exportar formigas foi condenado a um ano de prisão por biopirataria. Diante do aumento do contrabando e dos impactos ecológicos, a pena deveria ter efeito dissuasório, declarou a juíza.

Foi o segundo caso envolvendo formigas em menos de um ano. No ano passado, a autoridade de proteção da vida selvagem interceptou quatro homens que se autodenominavam "gangue das formigas". Entre eles estavam dois belgas de 19 anos que pretendiam contrabandear 5,5 mil rainhas para a Europa. Eles foram condenados a pagar multas no valor de 5 mil euros (R$ 29 mil).

Em casos como esses, o pesquisador de insetos Dino Martins é frequentemente chamado aos aeroportos. "Fiquei chocado", diz ele. "Não apenas pela quantidade impressionante de formigas, mas também porque se tratavam de rainhas". Martins, que no passado dirigiu diferentes institutos de pesquisa no Quênia, é considerado um dos principais especialistas em formigas da África.

Segundo ele, os animais apreendidos eram rainhas jovens retiradas de seus ninhos subterrâneos. Essas rainhas possuem asas para realizar o voo de dispersão e fundar novas colônias. "Quando se recolhem rainhas nesse momento crítico, interrompe-se uma etapa central para o surgimento de novas colônias". O ecossistema do Quênia também é prejudicado, afirma o pesquisador: as formigas transportam sementes de gramíneas, contribuindo para a constante regeneração da cobertura vegetal da savana.

Um novo hobby de nicho

Na Europa, há uma tendência, especialmente entre os jovens, de criar formigas como animais de estimação: em terrários de vidro, onde a rainha gera descendentes e, assim, dá origem a uma nova colônia.

Um dos adeptos desse hobby é Michael Meier. Ele prefere não ser identificado pelo nome verdadeiro. Durante os estudos universitários, Meier procurava um animal de estimação que exigisse poucos cuidados. "No caso das formigas, não faz muita diferença se eu as alimento hoje ou amanhã", diz. No passado, Meier mantinha quase 30 colônias em um quarto preparado especialmente para elas. Hoje, restam apenas quatro. Ele admite que, entre os entusiastas de formigas, os gêneros exóticos são considerados "atraentes" porque não entram em dormência durante o inverno. "Assim, é possível observar os animais o ano inteiro."

Nos sites de inúmeras lojas virtuais, é possível encomendar formigas pelo correio com apenas alguns cliques. "Formigas africanas" é uma das categorias com as quais essas lojas atraem criadores. Entre as espécies ofertadas está também está a formiga-colheitadeira-gigante-africana, que já foi apreendida diversas vezes no aeroporto do Quênia.

Quem pergunta aos comerciantes como os animais chegam à Europa recebe poucas respostas. Mesmo fornecedores que anunciam ter "licenças de importação" não explicam, já que o comércio opera em uma zona cinzenta do ponto de vista jurídico. Segundo a Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites), as formigas não são consideradas uma espécie ameaçada. Por isso, seu comércio não é proibido nem regulamentado em nível internacional. O Quênia, por sua vez, proíbe a exportação de qualquer animal silvestre. Mas, ao contrário do marfim, as formigas podem ser facilmente retiradas do país na bagagem de mão ou enviadas pelo correio.

Alto lucro, baixo risco

De modo geral, o comércio online de animais silvestres vem crescendo significativamente, afirma Russell Gray. Junto com uma equipe internacional, ele investigou a questão para a organização não governamental Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC, na sigla em inglês). "A principal conclusão é que isso deixou de ser um problema marginal escondido em sites obscuros", diz Gray. "Hoje vemos esse comércio ocorrer em plataformas amplamente utilizadas, como o Facebook", complementa.

No ano passado, a equipe de Gray analisou mais de 60 plataformas e encontrou 266 mil anúncios de venda de animais silvestres. O valor anunciado em todos esses posts, somado, chega a cerca de 66 milhões de dólares (R$ 336 milhões). Insetos sequer foram incluídos no levantamento. "Se considerássemos todo o comércio online de animais silvestres, provavelmente chegaríamos a um volume de bilhões de dólares", argumenta Gray.

O biólogo Chris Shepherd, do Centro para Diversidade Biológica, organização sediada nos Estados Unidos que atua mundialmente na defesa da biodiversidade, acompanha a situação com preocupação. Segundo ele, os casos registrados no Quênia demonstram claramente que, em comparação com outras formas de criminalidade, como o tráfico de drogas, o retorno financeiro é elevado, "mas o risco é significativamente menor".

No entanto, assim que espécies raras passam a alcançar preços altos, o crime organizado volta sua atenção para esse mercado. Por isso, Shepherd defende regras mais rigorosas. Em cartas abertas, ele pediu que a Cites passasse a tratar do comércio de formigas. A maior preocupação de Shepherd são as consequências para o meio ambiente.

Conferência sobre formigas

Essas repercussões já vêm chamando a atenção na Europa. Regularmente, colônias inteiras da formiga invasora Tapinoma magnum, originária do Norte da África, provocam interrupções no fornecimento de energia elétrica e internet no sul da Alemanha por se instalarem em caixas de distribuição.

Para discutir formas de enfrentar o problema, representantes de municípios da Áustria, da Suíça e do sul da Alemanha se reuniram, no verão europeu de 2025, em uma conferência sobre formigas. O objetivo era trocar experiências. Em razão das mudanças climáticas, que trazem temperaturas mais altas e menos geadas, essa espécie tem encontrado condições cada vez mais favoráveis também na Europa Central.

Shepherd ressalta que a maioria das formigas chega à Europa por meio da importação de plantas, e não pelo comércio online. Ainda assim, ele considera que esse mercado também representa um risco. Segundo o biólogo, ninguém pode garantir que colônias não venham a ser soltas na natureza em algum momento.

Criadores amadores como Meier conhecem bem esse debate e frequentemente discutem o assunto em fóruns na internet. Meier recomenda que, quando o interesse pela criação diminuir, as colônias sejam repassadas a outros criadores ou eliminadas de forma adequada, em vez de serem libertadas.

Para Shepherd, isso não é suficiente. Para ele, enquanto o comércio internacional de formigas permanecer amplamente sem regulamentação, continuará representando um risco.

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