Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

EUA: dependência de remédios estrangeiros causa preocupação

23 jan 2009 - 09h33
(atualizado às 12h05)
Compartilhar

Em 2004, quando a Bristol-Myers Squibb anunciou que fecharia sua fábrica em East Syracuse, Nova York - a última instalação da companhia nos Estados Unidos a fabricar os principais ingredientes para antibióticos cruciais como penicilina ¿ poucas pessoas se preocuparam com as conseqüências daquilo para a segurança nacional. "O foco na época foi primariamente a perda de empregos em Syracuse", disse Rebecca Goldsmith, porta-voz da companhia.

Entretanto, especialistas e legisladores temem cada vez mais que o país esteja se tornando excessivamente dependente de medicamentos do exterior, e pedem uma lei que exija que certas drogas sejam fabricadas e estocadas nos Estados Unidos.

"A falta de regulamentação sobre a utilização de fornecedores do exterior é um ponto cego que dá abertura a interrupções de oferta, falsificação de medicamentos e até bioterrorismo", disse o senador democrata Sherrod Brown, de Ohio, que conduziu audiências sobre a questão.

Há algumas décadas, a maioria dos remédios nos Estados Unidos era feita no país. Mas como outras operações de manufatura, as fábricas de medicamentos têm se mudado para a Ásia, onde os custos de mão-de-obra, construção, leis regulatórias e ambientais são menores.

Os ingredientes críticos da maioria dos antibióticos são feitos quase exclusivamente na China e na Índia. O mesmo ocorre com dezenas de outros medicamentos importantes, incluindo o antialérgico prednisona; a metformina para diabetes; e a amlodipina para pressão alta.

Das 1.154 fábricas farmacêuticas mencionadas em requisições de drogas genéricas à FDA, agência americana reguladora de medicamentos, em 2007, apenas 13% estavam nos Estados Unidos. 43% estavam na China, e 39% na Índia.

Alguns desses medicamentos são essenciais para salvar vidas e o sistema de saúde nos Estados Unidos depende deles. Metade dos americanos toma um remédio de prescrição todos os dias.

A penicilina, um componente vital a duas classes de antibióticos, conta a história da mudança do mercado farmacêutico. A produção de penicilina em escala industrial foi desenvolvida por um grupo militar de pesquisa americano na Segunda Guerra Mundial e quase todos os grandes fabricantes de medicamentos costumavam produzi-la em fábricas espalhadas pelo país.

Mas nos anos 80, o governo chinês começou a investir grandes quantias em fermentadores de penicilina, "alterando preços ao redor do mundo e pressionando a maioria dos fabricantes ocidentais do mercado", disse Enrico Polastro, consultor de uma farmacêutica belga e especialista em antibióticos.

Parte do motivo dessas fábricas terem deixado os EUA é o fato da FDA inspecionar instalações domésticas com muito mais freqüência que as estrangeiras, encarecendo muito a produção nos Estados Unidos.

"As companhias americanas são muito mais reguladas e estão sob escrutínio muito maior do que produtores estrangeiros, particularmente aqueles vindos de países emergentes. E isso é um total retrocesso", disse Joe Acker, presidente da Synthetic Organic Chemical Manufacturers Association. "Precisamos de um campo para atuação".

O governo Bush gastou mais de US$ 50 bilhões após os ataques de antraz em 2001 para proteger o país do bioterrorismo e das epidemias de gripe; parte desse dinheiro foi destinada ao aumento da capacidade de produção doméstica de vacinas contra a gripe.

Mesmo assim, oficiais disseram que no caso de uma epidemia, os Estados Unidos não poderiam contar com as vacinas fabricadas em grande parte na Europa devido aos possíveis bloqueios de fronteira e à escassez de oferta. E a situação é similar para antibióticos como a penicilina; pesquisadores descobriram que durante a epidemia de gripe de 1918, a maioria das vítimas morreu de infecções bacterianas, não virais.

Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças possuem um estoque de remédios com antibióticos suficientes para tratar 40 milhões de pessoas. Se for preciso mais, no entanto, a nação não terá fábricas para produzi-los. Um fermentador de penicilina levaria dois anos para ser desenvolvido a partir do zero, segundo Polastro.

O doutor Yusuf K. Hamied, presidente da Cipla, um dos maiores fornecedores de ingredientes farmacêuticos do mundo, diz que sua companhia e outras têm se tornado cada vez mais dependentes de fornecedores chineses. "Se amanhã a China deixar de fornecer ingredientes farmacêuticos, a indústria farmacêutica global entrará em colapso", ele disse.

Como os fabricantes de remédios vêem suas próprias cadeias de fornecedores como segredos de negócio, pode ser difícil ou impossível descobrir a verdadeira fonte dos ingredientes de uma droga. A FDA tem uma lista pública de fornecedores de medicamentos, mas ela não está atualizada nem é totalmente confiável, porque os fabricantes não são obrigados a divulgar informações de fornecedores.

Um banco de dados federal lista quase três mil fábricas de medicamentos no exterior que exportam para os Estados Unidos; a lista da FDA tem 6.800 fábricas. Ninguém sabe qual está correta.

Rótulos de remédios costumam alegar que as pílulas são fabricadas nos Estados Unidos, mas as fábricas listadas são geralmente os locais onde o pó de medicamento produzido no exterior é transformado em pílula e embalado.

"As empresas farmacêuticas não gostam de revelar suas fontes", por medo de que seus competidores roubem seus fornecedores, disse Polastro.

A posição da China como fornecedora predominante de medicamentos é o resultado de uma política governamental, disse Guy Villax, chefe-executivo da Hovione, fabricante de ingredientes de medicamentos com fábricas em Portugal e na China.

O governo local em Xangai prometeu pagar aos fabricantes de remédios cerca de US$ 15 mil para qualquer aprovação de droga da FDA e cerca de US$ 5 mil para qualquer aprovação de reguladores europeus, segundo um documento fornecido por Villax.

"Isso mostra que existe um plano do governo para transformar a China em líder da indústria farmacêutica", Villax disse.

A dependência crescente de fabricantes de medicamentos da China ficou clara com a crise de heparina. Há um ano, Baxter International e APP Pharmaceuticals dividiam o mercado doméstico de heparina, um anticoagulante necessário para cirurgias e diálises.

Quando os reguladores da FDA descobriram que o produto da Baxter havia sido contaminado por fornecedores chineses, a agência proibiu o produto da Baxter e o mercado passou a depender quase exclusivamente do medicamento da APP. Mas a APP também conseguia seu produto da China.

Então, por enquanto, gostando ou não, a China tem supremacia. Como Polastro disse, "se a China se zangar com o presidente Obama, isso poderá ser um grande problema".

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra