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'El Niño de proporções gigantescas': o alerta da ONU para fenômeno que põe planeta em 'águas desconhecidas'

Organização Meteorológica Mundial divulgou dados mais recentes sobre o fenômeno natural indicando que este El Niño pode ser o mais forte em mais de 70 anos e durar pelo menos até fevereiro de 2027.

3 set 2026 - 10h47
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Resumo
A ONU alertou que o atual El Niño pode ser o mais forte em mais de 70 anos, agravando o aquecimento global e gerando eventos extremos no planeta até 2027. O fenômeno altera o clima mundial, provocando secas e queimadas na Ásia e no norte da América do Sul, além de tufões e chuvas torrenciais na China, no leste da África e nos Estados Unidos. No Brasil, o quadro prevê calor generalizado, com risco de enchentes no Sul e tempo seco favorável a incêndios florestais nas regiões Norte e Nordeste.
O El Niño provocou enchentes e deslizamentos no sul do Brasil em 2024
O El Niño provocou enchentes e deslizamentos no sul do Brasil em 2024
Foto: Florian Plaucheur/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

O mundo entrou em uma "zona de perigo de eventos climáticos extremos" à medida que os efeitos do El Niño começam a ser sentidos globalmente, alertou António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma agência da ONU, divulgou os dados mais recentes sobre o fenômeno natural indicando que este El Niño pode ser o mais forte em mais de 70 anos e durar pelo menos até fevereiro de 2027.

O El Niño altera os padrões climáticos em diferentes partes do mundo, provocando secas em algumas regiões e tufões mais intensos e enchentes em outras. São esperadas, por exemplo, chuvas acima da média em partes do leste da África, do sul do Brasil e do sul dos Estados Unidos, aumentando o risco de enchentes.

Meteorologistas também afirmam que o El Niño elevará as temperaturas em alguns lugares, somando-se ao aumento da temperatura global provocado pelas mudanças climáticas causas pela atividade humana.

"O El Niño está ganhando proporções gigantescas diante dos nossos olhos. A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta está entrando em águas desconhecidas, e essas águas estão ficando mais quentes", disse Guterres, da ONU.

A BBC conversou com governos e cientistas sobre as medidas adotadas em diferentes partes do mundo para reduzir o risco de mortes, deslocamentos de populações e danos ambientais. Sistemas de alerta precoce foram reforçados, assim como o envio preventivo de assistência médica, mas a intensidade deste episódio preocupa especialmente devido aos riscos para grupos mais vulneráveis.

A OMM, agência da ONU, afirmou ter realizado uma "grande mobilização" para fazer com que suas previsões sobre possíveis eventos climáticos extremos associados ao El Niño cheguem ao maior número possível de comunidades.

"O El Niño tem potencial para causar um enorme impacto em comunidades e economias de todo o mundo", alertou Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.

O El Niño é um fenômeno natural que se desenvolve no oceano Pacífico e está associado a uma mudança nos padrões dos ventos. Essa alteração permite que águas quentes avancem para leste e liberem calor na atmosfera.

A temperatura do mar nas regiões central e leste do Pacífico tropical subiu acentuadamente nos últimos meses — um sinal claro de que o El Niño está se intensificando.

Na principal região do Pacífico usada para acompanhar o fenômeno, a temperatura da superfície do mar ficou mais de 2°C acima da média nas últimas semanas, nível que já colocaria este episódio na categoria de "muito forte".

E a expectativa é que ultrapasse até mesmo esse patamar. As previsões indicam que, na média mensal, a temperatura da superfície do mar pode chegar perto de 4°C acima da média.

Isso faria deste o El Niño mais forte desde pelo menos 1950 — e possivelmente com grande folga em relação aos anteriores.

Gráfico de linha com o título “El Niño deve ser muito forte, segundo previsão” e o subtítulo “Temperatura da superfície do mar e previsão para o Pacífico tropical, em comparação com a média mensal de 1991 a 2020”. A linha sobe a partir de janeiro de 2026 e chega a +2 °C em julho. A partir de setembro, uma linha tracejada vermelha representa a previsão e indica que a temperatura pode chegar a 4 °C acima da média em novembro/dezembro
Gráfico de linha com o título “El Niño deve ser muito forte, segundo previsão” e o subtítulo “Temperatura da superfície do mar e previsão para o Pacífico tropical, em comparação com a média mensal de 1991 a 2020”. A linha sobe a partir de janeiro de 2026 e chega a +2 °C em julho. A partir de setembro, uma linha tracejada vermelha representa a previsão e indica que a temperatura pode chegar a 4 °C acima da média em novembro/dezembro
Foto: BBC News Brasil

Abaixo da superfície do Pacífico, as temperaturas são ainda mais excepcionais: em alguns locais, estão mais de 8°C acima da média.

Temperaturas do mar acima do normal também são esperadas em outras partes do mundo, entre elas o oceano Índico, o Atlântico tropical e regiões próximas à costa da Austrália.

Por causa da rica vida marinha da Austrália, as alterações na temperatura dos oceanos são motivo de especial preocupação no país.

Nos últimos anos, a Austrália tem sido atingida por ondas de calor marinhas, impulsionadas pelas mudanças climáticas.

O El Niño é um fenômeno natural, mas tende a provocar o tipo de calor extremo que também contribui para esses desastres, disse à BBC Alistair Hobday, pesquisador-chefe da agência científica da Austrália.

Neste ano, as previsões de ondas de calor marinhas indicam que a Grande Barreira de Corais será poupada das condições mais severas, dando aos corais mais tempo para se recuperar.

"[Mas] o sul da Austrália vem sofrendo impactos severos", disse Hobday.

Na última vez em que uma onda de calor marinha atingiu o sul da Austrália e a Tasmânia, pinguins ficaram sem alimento, houve mortandade de peixes, proliferação de algas que reduziu os níveis de oxigênio na água e aumento na presença de águas-vivas.

A Austrália adotou recentemente sistemas de alerta antecipado para eventos extremos no mar. Com isso, é possível, por exemplo, organizar apoio financeiro ao setor pesqueiro, transferir espécies essenciais para áreas mais seguras e reforçar o monitoramento dos corais.

Mas este episódio caminha para ser sem precedentes — e Hobday admite estar bastante preocupado.

Dois mapas mostram a temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico tropical. O mapa de dezembro de 2025 mostra temperaturas abaixo do normal, representadas em azul, indicando a presença de La Niña. O mapa de julho de 2026 mostra temperaturas muito acima do normal, representadas em vermelho, indicando a presença de El Niño
Dois mapas mostram a temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico tropical. O mapa de dezembro de 2025 mostra temperaturas abaixo do normal, representadas em azul, indicando a presença de La Niña. O mapa de julho de 2026 mostra temperaturas muito acima do normal, representadas em vermelho, indicando a presença de El Niño
Foto: BBC News Brasil

Menos chuva aumenta risco de seca e afeta comércio

Embora os efeitos sobre o clima global devam continuar a ser sentidos ao longo de 2027, a OMM prevê mudanças significativas nos padrões de chuva nos próximos meses.

A previsão é de condições mais secas que o normal em grandes áreas do Sudeste Asiático, da América Central e do norte da América do Sul, aumentando o risco de secas e incêndios florestais.

Na quinta-feira, o número de embarcações que passam pelo Canal do Panamá será reduzido em mais de 10% diante da previsão de menos chuvas.

Cerca de 14 mil navios usam a hidrovia artificial todos os anos. Além de ser uma rota fundamental para o comércio mundial, o canal é uma importante fonte de receita para o Panamá, com cerca de US$ 3 bilhões (cerca de R$ 15,3 bilhões) por ano.

A Indonésia tenta conter incêndios florestais que já queimaram mais de 107 mil hectares em todo o país durante esta estação seca. Assim como outras regiões do Sudeste Asiático, o país enfrenta uma temporada de seca mais prolongada neste ano.

Um morador de Kalimantan Central disse à BBC News Indonésia que convive com os incêndios florestais "há mais de um mês".

"A fumaça ficou bastante densa. Quando saímos de casa, nossos olhos começam a arder. O cheiro da fumaça também está muito forte", disse Darwin Romy.

As autoridades afirmaram que estão usando aviões para realizar a semeadura de nuvens e tentar provocar chuvas que ajudem a apagar os incêndios. O governo prometeu destinar recursos ao combate ao fogo e prendeu dezenas de pessoas sob a acusação de usar incêndios para limpar terrenos.

Países do sul da África, como Botsuana, enfrentaram uma seca severa durante o último episódio de El Niño
Países do sul da África, como Botsuana, enfrentaram uma seca severa durante o último episódio de El Niño
Foto: Monirul Bhuiyan/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Tufões mais fortes e risco de deslizamentos

Mapa dos efeitos típicos dos episódios de El Niño nos padrões de precipitação de cada região. As principais tendências são condições mais secas em muitas regiões equatoriais, incluindo o norte da América do Sul, a África central, o Sudeste Asiático e a Austrália, representadas em marrom. O sul dos Estados Unidos geralmente fica mais úmido do que o normal, representado em verde
Mapa dos efeitos típicos dos episódios de El Niño nos padrões de precipitação de cada região. As principais tendências são condições mais secas em muitas regiões equatoriais, incluindo o norte da América do Sul, a África central, o Sudeste Asiático e a Austrália, representadas em marrom. O sul dos Estados Unidos geralmente fica mais úmido do que o normal, representado em verde
Foto: BBC News Brasil

A milhares de quilômetros dali, a China espera que sete tufões atinjam seu território somente neste ano, algo que especialistas do país associam aos efeitos de um El Niño de intensidade excepcional.

Só em julho, a China foi atingida por três tufões — Bavi, Noul e Maysak —, que deixaram dezenas de mortos.

Em agosto, mais de 1 milhão de pessoas tiveram que deixar suas casas com a chegada do tufão Dolphin, que trouxe chuvas intensas e ventos fortes.

Da mesma forma, são esperadas chuvas acima da média em partes do leste da África, do sul do Brasil e do sul dos Estados Unidos, aumentando o risco de enchentes.

"Já estamos vendo transtornos e devastação provocados por secas e enchentes, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensificar", disse Saulo, da OMM.

Tudo isso ocorre em um planeta que já passa por um processo de aquecimento de longo prazo provocado pela atividade humana, o que pode tornar os impactos ainda mais intensos. Alguns cientistas acreditam que as mudanças climáticas possam inclusive estar tornando os episódios de El Niño mais fortes, mas ainda não há certeza sobre isso.

O Peru é particularmente vulnerável ao El Niño porque seu litoral fica às margens do Pacífico oriental.

Partes do país, assim como do Equador e do Brasil, já registraram aumento das chuvas em episódios anteriores, provocando enchentes repentinas e deslizamentos, principalmente em áreas urbanas onde a água tem mais dificuldade para escoar.

Miguel Aréstegui, responsável pela área de resiliência climática da Practical Action, organização que ajuda países a se preparar para eventos climáticos extremos, afirmou que "estamos bastante preocupados, mas essa preocupação precisa se traduzir em preparação, e não em alarme".

Segundo Aréstegui, a Practical Action trabalha há alguns anos com organizações parceiras para ampliar o acesso da população a sistemas de alerta precoce, inclusive com a divulgação de informações sobre o nível dos rios, riscos de enchentes e previsões meteorológicas.

No fim do mês passado, os EUA anunciaram o envio do navio USNS Comfort à costa peruana para fornecer assistência médica adicional e equipamentos técnicos quando o El Niño atingir seu pico.

Aréstegui ressaltou, no entanto, que o El Niño "não chega em um vácuo". Segundo ele, há problemas estruturais mais amplos que agravam os efeitos desses fenômenos e levam muito mais tempo para serem solucionados, como "moradias em áreas expostas, sistemas frágeis de água e saneamento e um sistema de saúde precário".

El Niño no Brasil

Meteorologistas ouvidos pela BBC News Brasil indicam que o El Niño deve continuar influenciando o clima brasileiro e ajudar a moldar um cenário de eventos extremos pelo país.

A expectativa é de temperaturas acima da média em praticamente todo o país, mas com efeitos diferentes de uma região para outra.

No Sul, o fenômeno aumenta a probabilidade de chuvas intensas e temporais, com risco de ventos fortes, granizo e alagamentos. No Sudeste e no Centro-Oeste, a previsão é de calor acima do normal e baixa umidade do ar. Já no Norte e no Nordeste, a tendência é de menos chuva, favorecendo o avanço das queimadas.

*Reportagem adicional de Pedro Martins

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