El Niño alimenta raro trio de furacões no Pacífico
Um raro trio de furacões simultâneos no Pacífico — Marie, Karina e Lowell, este último de categoria 5 — é impulsionado pelo aquecimento das águas decorrente de um El Niño historicamente forte. Cientistas e agências meteorológicas alertam que o fenômeno tem grande probabilidade de ser o mais intenso já registrado, com previsão de durar até fevereiro e capacidade de provocar eventos climáticos extremos devastadores em várias partes do planeta.
El Niño historicamente forte favorece formação de tempestades, apontam cientistas. Agência climática da ONU prevê que fenômeno persistirá até fevereiro, com impactos devastadores.Um trio de furacões avança pelo Oceano Pacífico nesta quinta-feira (03/09), num evento raro atribuído por cientistas às águas aquecidas por um El Niño historicamente forte.
A tempestade tropical Marie ganhou força e se transformou em furacão no fim da quarta-feira, na costa da Baixa Califórnia, no México. Ela alinhou-se atrás dos poderosos furacões Karina e Lowell, que seguiam rumo ao oeste pelo Pacífico, afastando-se do continente americano.
"O aquecimento provocado pelo El Niño cria as condições para essas tempestades, que são alimentadas em grande parte por águas quentes. Quando o Pacífico tropical está mais quente do que o normal, observamos um aumento no número de tempestades intensas", explicou Julia Cole, cientista do clima da Universidade de Michigan, à agência de notícias AFP.
Águas quentes fornecem energia para tempestades, e os efeitos do El Niño sobre a atmosfera reduzem o cisalhamento vertical dos ventos sobre o Pacífico - quando o vento muda de intensidade ou direção à medida que ganha ou perde altitude. Isso cria condições favoráveis para a intensificação dos furacões.
"O sistema climático aqueceu significativamente nos últimos 20 anos", disse Benjamin Kirtman, cientista atmosférico da Universidade de Miami, à AFP.
Segundo ele, a temperatura da superfície do mar, que já está mais quente que a média, beira níveis recordes. "Não há outra forma de dizer: as condições [para formação de tempestades] estão extremamente favoráveis neste momento", afirmou.
Uma situação semelhante ocorreu em 2015, outro ano de El Niño intenso, quando os furacões Kilo, Ignacio, Jimena e a depressão tropical 14E - estágio inicial de um ciclone tropical - atravessaram o Pacífico simultaneamente.
Furacão superforte
O Karina foi classificado na categoria 4 da escala Saffir-Simpson. Já o Lowell evoluiu na quarta-feira para a categoria 5, a mais forte e destrutiva, quando estava a centenas de quilômetros ao sul do Havaí.
Enquanto o Karina deve enfraquecer nos próximos dias, o Lowell "deve permanecer um grande furacão" enquanto avança para oeste, segundo o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC, na sigla em inglês).
"As ondulações provocadas por Lowell provavelmente causarão condições de maré e correntes de retorno com risco de morte em partes das ilhas do Havaí nos próximos dias", afirmou o NHC, acrescentando que suas previsões de trajetória e intensidade de longo prazo eram "mais incertas do que o habitual".
O Havaí ainda se recupera dos impactos do furacão Lala, que passou próximo à parte sul da Ilha Grande no mês passado, trazendo ventos destrutivos e graves enchentes repentinas.
A leste de Lowell e Karina estava Marie, que se encontrava a cerca de 600 quilômetros a sudoeste da ponta sul da Baixa Califórnia e deveria ganhar mais força até sexta-feira, segundo a agência americana.
Chances cada vez maiores de um El Niño sem precedentes
O El Niño deste ano tem 69% de chance de se tornar o mais forte já registrado, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), e já provoca eventos climáticos extremos em várias partes do mundo, embora o pico não seja esperado antes do período entre outubro e dezembro.
A previsão de um El Niño "muito forte" também foi confirmada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) nesta quinta-feira. Segundo a agência climática das Nações Unidas, é praticamente certo que o fenômeno persistirá até fevereiro. Isso porque o calor acumulado nos oceanos é liberado mais lentamente para a atmosfera, elevando as temperaturas globais no ano seguinte.
O ano mais quente já registrado foi 2024, após o último El Niño.
"Esse El Niño excepcional tem potencial para causar um golpe severo em comunidades e economias de todo o mundo", disse a chefe da OMM, Celeste Saulo. "Já estamos observando interrupções e devastação causadas por secas e enchentes, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifique."
O que é o El Niño
O El Niño é a fase de aquecimento de um ciclo natural no Pacífico tropical que ocorre entre a cada dois a sete anos. O fenômeno geralmente dura entre nove e 12 meses. Ele se instala quando os ventos alísios, que sopram de leste para oeste, enfraquecem, permitindo que a água quente que normalmente se acumula na porção oeste do Pacífico retorne para leste e suba à superfície.
Isso provoca mudanças globais nos padrões de vento, pressão atmosférica e precipitação, gerando condições mais quentes e secas em algumas áreas e mais frias e úmidas em outras. Esses efeitos são potencializados pelas mudanças climáticas, e incluem secas em partes da Amazônia, da Indonésia e da Austrália, interrupções nas monções da Índia e alterações nos regimes de chuva em toda a faixa tropical.
As condições climáticas alternam entre El Niño e seu oposto, La Niña, com períodos neutros entre ambos.
Embora o El Niño não seja causado pelas mudanças climáticas, cientistas esperam que ele intensifique ainda mais o aquecimento de um planeta já afetado pela queima de combustíveis fósseis, além de aumentar a frequência de eventos climáticos extremos.
"A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta está navegando em águas desconhecidas, e essas águas estão esquentando. As temperaturas da superfície do mar estão aumentando, as temperaturas continuam subindo e o mundo está entrando na zona de perigo dos eventos climáticos extremos", alertou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. "A corrida agora é entre o aumento dos riscos e nosso compromisso de agir pelo clima e proteger as pessoas. Precisamos vencer essa corrida."
ra/cn (AFP, AP)
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