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Ciência

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Aquecimento global vai superar limite de 1,5 °C, diz ONU

2 set 2026 - 07h11
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Resumo
Segundo relatório da ONU, o aquecimento global superará o limite de 1,5 °C nos próximos anos devido ao fracasso no corte de emissões. Diante disso, a nova estratégia foca em conter o pico dessa elevação e encurtar o tempo acima da meta, buscando retornar a níveis seguros até o fim do século. O cenário agrava riscos de eventos extremos e exige adaptação urgente, redução drástica no uso de combustíveis fósseis e tecnologias para remover dióxido de carbono da atmosfera.

Relatório do Pnuma reconhece fracasso global para reduzir emissões que mudam o clima do planeta. Nova estratégia passa a ser limitar ao máximo a ultrapassagem da meta e tentar retornar a patamar inferior o quanto antes.O aumento das temperaturas globais deverá ultrapassar o limite crucial de 1,5 °C nos próximos anos, afirmou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) nesta quarta-feira (02/09), num relatório inédito. Esse limite visava conter as mudanças climáticas e reduzir seus impactos.

Esse novo cenário resultará em eventos climáticos ainda mais extremos e intensificará a pressão sobre os ecossistemas, as geleiras e as cidades costeiras de baixa altitude. "A humanidade está avançando rapidamente além do limite necessário para evitar uma catástrofe climática", afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

"É um choque de realidade. Temos de aprender a conviver com um mundo mais quente", disse o cientista do clima Richard Betts, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, e coautor do relatório. "Mas ainda há muito que podemos fazer para limitar o aquecimento."

Embora os fatores desencadeantes das recentes e fatais inundações no Nepal, causadas pelo desprendimento de uma geleira no Himalaia, sejam complexos, Betts afirmou: "Infelizmente, esperamos ver mais eventos desse tipo, e é exatamente por isso que precisamos limitar o pico do aquecimento".

No relatório, o Pnuma alerta que as medidas para limitar o aquecimento global devem ser acompanhadas de políticas de adaptação para reduzir os impactos da crise climática.

Nova estratégia

O Pnuma afirma que é possível reduzir novamente o aumento da temperatura para abaixo de 1,5 °C, mas isso seria altamente incerto e exigiria cortes rápidos nas emissões, além de medidas para remover o dióxido de carbono já presente na atmosfera.

Segundo o estudo do Pnuma, limitar ao máximo a ultrapassagem do limite de 1,5 °C e voltar o mais rapidamente possível a uma temperatura inferior a esse patamar é, atualmente, a melhor estratégia.

Por essa nova estratégia, após as temperaturas globais ultrapassarem o limite de 1,5 °C, elas deverão seguir uma trajetória de aquecimento crescente até atingirem um pico e, em seguida, esfriarem gradualmente para níveis abaixo dessa marca - idealmente até o fim do século. Tanto o relatório quanto os especialistas denominam esse fenômeno de "ultrapassagem" (overshoot).

O mais importante passa a ser, primeiramente, limitar o novo pico de temperatura e, em seguida, reduzir o tempo de permanência acima de 1,5 °C, afirmou Andersen. No entanto, é provável que o mundo permaneça nessa fase de overshoot por "muitas e muitas décadas", disse Betts.

O Acordo de Paris busca limitar o aumento da temperatura da Terra a menos de 2 °C e, idealmente, a 1,5 °C. "Vamos ser muito claros: a meta de 1,5 °C continua sendo o objetivo. Mas agora precisamos abordá-la de uma maneira diferente, chegando a ela a partir de um patamar mais elevado", afirmou a diretora-executiva do Pnuma, Inger Andersen.

Possíveis cenários

Como a ultrapassagem do limite de 1,5 °C é agora extremamente provável, os países precisam concentrar esforços para limitar o período durante o qual as temperaturas permanecerão acima desse patamar, afirmou o Pnuma. "Cada ano de atraso e cada fração de grau acima de 1,5 °C elevam os riscos e tornam a recuperação mais difícil, com possibilidade de perdas irreversíveis mesmo que as temperaturas diminuam posteriormente", acrescentou a agência.

Esse cenário inclui fenômenos climáticos extremos, destruição de ecossistemas, submersão dos chamados Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEID) e de cidades costeiras de baixa altitude, além de graves consequências para a saúde humana, a segurança alimentar, o abastecimento de água e a natureza.

Também aumenta significativamente o risco de se ultrapassarem pontos de inflexão irreversíveis, como a perda parcial das camadas de gelo da Antártida Ocidental e da Groenlândia, ou a degradação da Floresta Amazônica.

Possíveis cenários

Após o Acordo de Paris sobre o clima, as Nações Unidas encarregaram seu braço de ciência climática de estudar diferentes limites de aquecimento. A meta de 1,5 °C acima das temperaturas de meados do século 19 tornou-se amplamente aceita depois que cientistas constataram impactos drásticos num cenário de 2 °C, mas não num de 1,5 °C.

O mundo está atualmente num cenário de aquecimento de 1,4 °C em relação aos níveis pré-industriais, segundo cálculos de alguns cientistas. Essa medição baseia-se numa média de 20 anos, e não nas temperaturas de um único ano.

Embora especialistas já afirmassem que não havia mais como limitar o aquecimento a 1,5 °C, autoridades da ONU sustentaram por muito tempo que a janela para essa meta ainda estava aberta. O relatório divulgado na quarta-feira finalmente admitiu que o mundo ultrapassará o limite de 1,5 °C "nos próximos anos".

No cenário mais otimista do documento, o aquecimento atingiria um pico de 1,8 °C em meados deste século caso todos os compromissos nacionais para conter o aquecimento global atualmente existentes fossem de fato implementados. As atuais políticas governamentais devem elevar as temperaturas a 2,6 °C acima dos níveis pré-industriais até 2100.

Retirar carbono da atmosfera

Após um período de aquecimento acima do limite, retornar a um patamar inferior envolveria encerrar o uso de combustíveis fósseis e recorrer a medidas de remoção de dióxido de carbono da atmosfera (CDR, na sigla em inglês).

Para reduzir os níveis o dióxido de carbono, emitido pelas indústrias e pela queima de combustíveis fósseis, seria necessário usar os métodos convencionais, como o reflorestamento e a restauração de ecossistemas, bem como métodos inovadores, como a captura direta de carbono da atmosfera e seu armazenamento.

No entanto, o relatório ressalta que essas medidas de CDR não substituem a necessidade de cortes profundos nos atuais níveis de emissões.

as/cn (Reuters, AP, Efe)

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