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Ciência

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Como os seres humanos serão no futuro?

Os cientistas afirmam que os seres humanos ainda estão evoluindo. Mas, com as novas tecnologias, como a edição genética, nossa aparência futura pode se alterar de formas inesperadas.

2 ago 2026 - 18h52
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Imagem gerada por computador de uma mulher com longos cabelos escuros e parte do rosto destacada em caixas 3D que se protuberam da imagem
Imagem gerada por computador de uma mulher com longos cabelos escuros e parte do rosto destacada em caixas 3D que se protuberam da imagem
Foto: Andriy Onufriyenko/Jackyenjoyphotography via Getty Images / BBC News Brasil

Os seres humanos ainda estão evoluindo?

Poderá ainda haver no futuro versões de nós que sejam mais baixas ou mais altas, que tenham características diferentes ou até que sejam geneticamente projetadas conforme certas especificações?

À medida que a civilização se desenvolveu, a medicina moderna, as condições de higiene e o fácil acesso a alimentos reduziram muitas das pressões geradas pela seleção natural que formaram a nossa espécie, como as doenças, a fome e condições ambientais desfavoráveis.

Mas, para o antropólogo e geneticista evolutivo Jason Hodgson, da Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, a evolução "sem dúvida" continua até hoje.

Podemos afirmar isso porque certos genes estão se tornando mais comuns em algumas populações. Mas este fenômeno acontece ao longo de muitas gerações e, por isso, "ninguém irá presenciar mudanças evolutivas ao longo de uma única vida".

Variações humanas

A paleontóloga Briana Pobiner, do Museu de História Natural do Instituto Smithsoniano, nos Estados Unidos, afirma que a alimentação desempenhou papel importante na nossa evolução recente.

"Cerca de um terço das pessoas do planeta hoje em dia podem digerir leite na idade adulta", explica ela. Mas, entre 5 mil e 10 mil anos atrás, quase ninguém conseguia fazer esta digestão.

"É uma mudança evolutiva extremamente rápida."

Esta evolução surgiu quando os seres humanos começaram a criar animais produtores de leite.

Durante as épocas de fome, as pessoas que, por acaso, conseguiam digerir o leite (que é rico em gorduras e proteínas) apresentavam maior probabilidade de sobreviver e transmitir estes genes, que "se espalharam com muita rapidez", segundo Pobiner.

E outros fatores ambientais também influenciaram a evolução humana, muito tempo atrás.

Pesquisas indicam que os seres humanos evoluíram para criar diversos tons de pele em regiões com diferentes tipos de clima, a fim de produzir vitamina D em quantidade suficiente para suas necessidades
Pesquisas indicam que os seres humanos evoluíram para criar diversos tons de pele em regiões com diferentes tipos de clima, a fim de produzir vitamina D em quantidade suficiente para suas necessidades
Foto: Sabrina Bracher via Getty Images / BBC News Brasil

Quando a nossa espécie migrou da África para diferentes partes do mundo, milhares de anos atrás, nossos antepassados encontraram uma série de climas diferentes e desenvolveram novas adaptações físicas.

A pele mais clara, por exemplo, evoluiu em lugares onde havia menos luz ultravioleta, para ajudar a sintetizar a vitamina D.

As variações locais se desenvolveram "a partir de pessoas que se movimentavam para longe umas das outras", explica Hodgson.

"Agora, todos nós nos reunimos novamente, de diversas formas: pela migração, pela globalização e assim por diante."

A globalização indica que iremos possivelmente observar reduções das variações biológicas. Mas nem tudo é necessariamente tão simples.

Hodgson pesquisa o chamado acasalamento associativo, o que, segundo ele, ocorre "quando os organismos escolhem preferencialmente parceiros mais similares a eles próprios".

Hodgson acredita que, se o acasalamento associativo for interrompido, a globalização poderá gerar menos variações biológicas entre os seres humanos
Hodgson acredita que, se o acasalamento associativo for interrompido, a globalização poderá gerar menos variações biológicas entre os seres humanos
Foto: imaginima via Getty Images / BBC News Brasil

Hodgson explica que o acasalamento associativo pode "sobrecarregar" eventuais seleções naturais que já estejam acontecendo, ajudando a promover certas características em uma dada população.

Os pesquisadores observaram que "provavelmente, quanto mais alto você for, mais alto será o seu cônjuge", por exemplo.

"A altura, o peso e a estrutura facial são tipos de características que se demonstraram associativas em alguns grupos, mas não em outros", segundo ele, o que "em última análise, influencia a frequência dos genes".

Parte deste fenômeno ocorre por razões sociais e culturais, como pessoas que se casam dentro do seu grupo étnico, por exemplo. E estes fatores podem estar se alterando em algumas populações.

"Muitas mudanças acontecem e alteram a evolução humana todo o tempo", explica Hodgson.

'Em mãos humanas'

Mas existem algumas decisões humanas que não alteram a nossa evolução.

Por exemplo, "se você frequentar a academia, se exercitar e ganhar músculos, isso não significa necessariamente que você irá transmitir genes que geram músculos grandes para os seus filhos", explica Pobiner.

De procedimentos ortodônticos até cosméticos, podemos, agora, alterar muitas características ao longo da vida, com base em preferências sociais, não em seleção natural.

Em 2024, foram realizados cerca de 38 milhões de procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos em todo o mundo, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês). Este número representa um aumento de 40% desde 2020.

A cirurgia das pálpebras passou a ser o procedimento cirúrgico estético mais popular em 2024, segundo uma pesquisa global realizada pelo ISAPS
A cirurgia das pálpebras passou a ser o procedimento cirúrgico estético mais popular em 2024, segundo uma pesquisa global realizada pelo ISAPS
Foto: GMint via Getty Images / BBC News Brasil

Com esta capacidade cada vez maior de remodelar a nossa aparência, "você não se parece necessariamente com o que os seus genes dizem que você deveria se parecer", explica Thomas Mailund, ex-professor de bioinformática da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

No futuro, talvez não sejam apenas ajustes superficiais na nossa aparência. Os cientistas estão usando uma técnica chamada Crispr para editar genes humanos.

Ela funciona essencialmente como um par guiado de tesouras moleculares. Uma parte encontra o DNA alvo e a outra o edita.

Esta tecnologia está sendo aprimorada e já começou a ser usada para tratar uma quantidade limitada de condições genéticas, como certos distúrbios sanguíneos.

Se esta técnica avançar o bastante para se tornar disponível para o público em geral, teoricamente, talvez seja possível, algum dia, alterar ainda mais características humanas em nível genético — não gradualmente, ao longo de várias gerações, mas deliberadamente, de uma só vez.

E, se fizermos este procedimento em células de linhagem germinativa (que se transformam em esperma e óvulos), as gerações futuras poderão até herdar eventuais edições genéticas.

Mas estamos muito longe de poder fazer isso de forma segura e com resultados garantidos. E a técnica levanta questões éticas em relação à geração de "bebês sob encomenda" e à estigmatização das incapacidades, entre muitas outras.

A tecnologia Crispr é aprovada em algumas partes do mundo para o tratamento de transtornos sanguíneos, como anemia falciforme, mas os seus custos ainda são muito altos
A tecnologia Crispr é aprovada em algumas partes do mundo para o tratamento de transtornos sanguíneos, como anemia falciforme, mas os seus custos ainda são muito altos
Foto: Just_Super via Getty Images / BBC News Brasil

"É aceito de forma praticamente universal hoje em dia que não é algo que faremos em seres humanos, seria totalmente antiético", segundo Hodgson.

Mas ele especula o que isso poderá mudar no futuro.

"[Em] 5 mil anos... provavelmente, será o contrário, acho eu."

"Chegará um tempo em que deixará de ser antiético editar o genoma, até o ponto em que será antiético não fazê-lo, pois poderemos eliminar características como doenças hereditárias", explica ele.

Se a tecnologia se tornar amplamente disponível, ela poderá até oferecer aos pais a opção de escolher a aparência dos seus filhos, editando os genes para selecionar características desejáveis.

"Acho que o futuro da nossa evolução, em um sentido mais amplo, realmente será passar a ficar em mãos humanas, mas estamos muito longe de chegar a este ponto", segundo Hodgson.

Com tantos pontos ainda a serem esclarecidos sobre esta tecnologia, "espero não ver nada disso enquanto eu viver", destaca ele.

Nova espécie?

Para Mailund, é impossível prever a aparência dos seres humanos no futuro, sem saber quais serão as alterações do nosso ambiente.

Se pensarmos em um futuro muito distante, poderemos até nos tornar uma nova espécie.

Um milhão de anos atrás, espécies humanas como o Homo erectus andavam pelo planeta. A nossa espécie, Homo sapiens, só apareceu cerca de 300 mil anos atrás.

"Por isso, daqui a um milhão de anos, nossos descendentes serão tão diferentes de nós... quanto o Homo erectus dos humanos atuais", explica Mailund.

O Homo erectus foi o primeiro dos nossos ancestrais a ter proporções corporais similares aos seres humanos. A espécie existiu até pelo menos 250 mil anos atrás
O Homo erectus foi o primeiro dos nossos ancestrais a ter proporções corporais similares aos seres humanos. A espécie existiu até pelo menos 250 mil anos atrás
Foto: 3quarks/Stocktrek Images via Getty Images / BBC News Brasil

Mas ele destaca que, mesmo depois de tanto tempo, as diferenças entre as espécies poderão ser menos óbvias do que pensamos.

"Não tenho certeza se reconheceríamos alguém como sendo drasticamente diferente de nós, se fôssemos Homo erectus", explica ele.

É até possível que a nossa espécie se divida em duas, por exemplo, se alguns de nós nos estabelecermos em novos ambientes, como no espaço.

"Se você viver na Lua, a gravidade é baixa. Em Marte, também. Precisaremos nos adaptar a isso", afirma Mailund.

Para realmente observarmos o desenvolvimento de uma nova espécie, estas populações precisarão ficar totalmente isoladas da Terra por muitas gerações.

E se não deixarmos a evolução ocorrer ao acaso?

Com o potencial de mudar os nossos genes com a tecnologia, Mailund acredita que "a questão real é 'o que iremos escolher?', não 'o que a biologia fará conosco?'"

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