Casal constrói casa ecológica no Rio de Janeiro
Mariana Canedo
Direto do Rio de Janeiro
Em Jacarepaguá, zona Oeste do Rio de Janeiro, região para onde está direcionado o crescimento da cidade, existe um lugar que desafia a lei da selva urbana. Com uma vista privilegiada para a Bacia de Jacarepaguá, a brasileira Evelyn e o americano Steve Torrence procuram viver em plena lua-de-mel com a natureza, usando a tecnologia em nome da qualidade de vida.
Steve é músico. Formado pela Universidade da Florida, especialista em programas Macintosh e representante da Apple desde 1993, casou-se com a carioca quando ela morava nos Estados Unidos. Casaram-se em 2002 e, em 2003, resolveram vir para o Brasil para ficar. Foi quando compraram o terreno numa área agrícola que, segundo eles, estava totalmente improdutiva ha 20 anos. Hoje grande parte do terreno possui plantação de legumes, árvores frutíferas e animais.
"O Sertão de Jacarepaguá é uma ilha Federal dentro do Rio de Janeiro. A área já abasteceu as feiras do bairro com legumes, verduras e frutas. Alguns sítios foram divididos e vendidos e outros foram ficando desativados. A área de terra que compramos tem registro pago no INCRA desde 1984. Transferi o registro para o meu nome em 2005", conta Evelyn, completando que sua avó materna era agricultora no bairro desde 1946.
"Confio no meu direito a agricultura familiar, faço as coisas corretamente e vivo tranqüila", afirma ela, que se diz autodidata e já escreveu dois livros (A consciência plena e A alquimia do êxito).
A Estrada do Sertão começa no final de uma rua de um dos sub-bairros de Jacarepaguá e segue até o topo da montanha, uma das que estão atrás da avenida da antiga Vila do Pan. A casa do casal é feita de pedra "cortada a mão" e outros materiais naturais, como a grama, que cobre o telhado da casa. O bambu do tipo mossó sustenta as estruturas e decora o ambiente.
A água utilizada em todo o terreno vem de uma nascente no topo da montanha e chega em tubos. Segundo eles, a gravidade é utilizada para fazer com que circule pelo terreno. A piscina da casa também utiliza água doce sem agentes químicos.
"Basicamente nos alimentamos do que plantamos ou usamos produtos naturais e orgânicos. Evitamos produzir lixo e, quando recebemos visitas, separamos o material. Os recicláveis, damos para alguém da comunidade do Sertão vender. O lixo orgânico ou os bichos comem ou vira adubo. Nossa fossa também é orgânica. São filtros e eliminação de gases até o resultado final ser inofensivo a natureza", continua.
Mesmo um pouco tímido e avesso às entrevistas, Steve parece se sentir à vontade no Brasil e é categórico ao dizer que quer viver permanentemente no país. Seu visto é de residente, pois é legalmente casado com Evelyn. "Gosto de ser engenheiro e cientista da montanha", diverte-se ele contando que montou toda a parte elétrica e hidráulica do terreno.
Como o aquecimento da água é obtido através da exposição dos tubos ao sol, às vezes é preciso estar pronto para um banho de água fria. "Questão de hábito", segundo o casal.
Apesar de ainda utilizar energia convencional, o casal mostra que estão substituindo o sistema por LED (Light Emmiting Diode). As LED¿s são lâmpadas de estado sólido com baixíssimo consumo de energia, Cabos e fios não são aparentes, mas sim subterrâneos.
Desde que se mudaram para o terreno, Steve e Evelyn contam com a ajuda de agricultores locais para fazer o plantio de árvores frutíferas e legumes e desde o início, contam, também colocam a mão na massa.
Sobre a alimentação, que segundo Evelyn sempre foi uma preocupação para o casal, que se envolveu, inclusive, em assuntos polêmicos sobre o tema, como a possibilidade de se alimentar de luz, há cerca de oito anos atrás, pouco depois de se conhecerem, ela explica: "Consumimos basicamente o que plantamos aqui e geralmente optamos pelos sucos e frutas. Ainda compramos café industrializado também, pois adoramos, mas já temos plantados mil pés de café. Sair para comer fora é uma raridade, mas quando fazemos optamos pela culinária japonesa. Adoramos peixe e criamos truta em tanques".
O casal não tem televisão em casa, tampouco DVD. Os filmes que querem assistir, baixam da internet. Existe também um sistema online de segurança com câmeras e de irrigação para o que é plantado.
Os dois automóveis que ficam na montanha são um fusca de 1966 e uma Toyota 1977. Entretanto, o fusca ainda é movido a gasolina e a Toyota a diesel. "Conhecemos algumas tecnologias alternativas para combustível, mas a aplicação ainda é cara. Estamos aguardando o momento mais oportuno. Por enquanto, optamos por sair pouco de casa e praticamente não usar os carros, apenas em caso de necessidade", justifica Evelyn.
"Buscamos adequar nossas atividades ao estilo de vida pelo qual optamos. O Steve atende alguns clientes e continua representando a Apple no Brasil, mas daqui de cima. Eu cuido da montanha e procuro recriar a natureza. Fazemos o que podemos para ajudar a natureza a funcionar melhor com a tecnologia que trouxemos para cá", prossegue ela.
Evelyn encerra a entrevista dando algumas dicas para quem quer viver melhor nas grandes cidades. "As pessoas deveriam assistir menos televisão e consumir menos produtos tóxicos e nocivos a natureza. Devem se preocupar mais com o bem-estar e cuidar melhor do corpo, consumindo alimentos naturais e que não prejudicam a saúde. As pessoas na cidade vivem numa correria e num stress tão grandes que se esquecem da Terra em que vivem. Deixam isso sempre em último plano", lamenta.