Boom ferroviário nos EUA ainda é fica bem atrás de carros e aviões
À medida que os preços dos combustíveis sobem e as passagens aéreas ficam mais caras, os americanos estão redescobrindo os trens. Entretanto, sistema é projetado para transportar mais cargas e menos pessoas.Historicamente negligenciadas, as viagens de trem vivem um momento de destaque nos EUA. O transporte ferroviário de passageiros nos Estados Unidos está passando por um período de crescimento. O número de passageiros bateu recordes nos últimos dois anos. Com os preços do combustível de aviação e da gasolina ainda muito acima dos níveis anteriores à guerra no Irã, ainda mais viajantes podem recorrer aos trens para evitar passagens aéreas caras e gastos elevados nos postos de combustível durante a temporada de férias de verão.
No entanto, quem não conhece a rede ferroviária do país pode se decepcionar. Muitas cidades não possuem boas conexões ferroviárias ou serviços de alta velocidade semelhantes aos encontrados em países europeus e do Leste Asiático.
E existe um paradoxo: os Estados Unidos possuem mais ferrovias do que qualquer outro país do mundo. Então, onde está o problema?
Trens de carga x trens de passageiros
Entre meados e o final do século 19, os trens tiveram uma era de ouro nos Estados Unidos. Milhares de quilômetros de trilhos foram construídos para conectar as costas leste e oeste e transportar tanto pessoas quanto mercadorias de um lado ao outro do país. Mas esse cenário não durou.
Em meados do século 20, os EUA passaram a priorizar investimentos federais em rodovias e aeroportos em vez das ferrovias, tornando as viagens de carro e avião muito mais eficientes do que as viagens ferroviárias de passageiros.
Assim, diferentemente de muitos países europeus, que há muito tempo consideram os trens de passageiros um bem público essencial, os Estados Unidos priorizaram trens de carga, que são mais lucrativos. Esse legado permanece até hoje, com grande parte da infraestrutura ferroviária do país projetada para transportar cargas pesadas, e não passageiros em alta velocidade.
A rota mais popular da empresa ferroviária Amtrak é um exemplo disso. Conhecida como Corredor Nordeste (Northeast Corridor), ela conecta cidades entre Boston e Washington, levando cerca de sete horas para percorrer os 735 quilômetros do trajeto completo.
Em comparação, os trens europeus conseguem percorrer uma rota ligeiramente mais longa, entre as cidades italianas de Nápoles e Milão, em menos de cinco horas.
Allan Zarembski, diretor do programa de engenharia e segurança ferroviária da Universidade de Delaware, afirma que parte do motivo pelo qual o Corredor Nordeste não comporta trens de alta velocidade é que os trilhos seguem as curvas naturais do terreno. E alterar isso seria extremamente complexo.
"Endireitar os trilhos é um projeto muito caro", afirmou. "Eu teria que adquirir terrenos. Esses terrenos pertencem a alguém e, muitas vezes, essa pessoa não quer vendê-los. Estamos falando da região mais densamente povoada dos Estados Unidos."
"Trem para lugar nenhum"
Embora o Corredor Nordeste não seja atualmente capaz de suportar trens de alta velocidade, a Califórnia esperava dar um exemplo positivo.
Em 2008, o estado lançou uma iniciativa para ligar Los Angeles e San Francisco por meio de um trem-bala. Vendido como uma grande melhoria em relação ao atual trajeto não direto, que leva cerca de 12 horas, o projeto previa a construção de novos trilhos que permitiriam viagens entre as duas cidades em menos de três horas.
Originalmente, o estado afirmava que a linha de aproximadamente 1.287 quilômetros estaria concluída até 2020.
Mas o projeto praticamente não saiu do papel, levando alguns críticos a apelidá-lo de "o trem para lugar nenhum da Califórnia".
O que deu errado?
Inicialmente, o estado destinou 9,95 bilhões de dólares (R$ 51,6 bilhões) para um projeto estimado em 33 bilhões de dólares (R$ 171 bilhões. No entanto, os custos de desenvolvimento foram gravemente subestimados e hoje são projetados em mais de 100 bilhões de dólares (R$ 519 bilhões).
Zarembski acredita que os responsáveis pelo projeto sabiam que as estimativas iniciais eram irrealistas. "Acho que eles reduziram artificialmente os números por razões políticas", disse. "Sabiam que nunca conseguiriam aprovar o valor real no processo legislativo."
O projeto também enfrentou resistência de comunidades locais, que não desejam que a ferrovia atravesse seus bairros.
Enquanto o estado continua buscando investimentos, atualmente está construindo apenas um trecho menor da rota, previsto para ser inaugurado no início da década de 2030.
Quanto ao trajeto completo, a Autoridade Ferroviária de Alta Velocidade da Califórnia apresentou, no ano passado, um plano que prevê conectar San Francisco ao norte da Califórnia até 2038 - quase duas décadas depois da previsão original.
Os benefícios de boas conexões
A expansão dos trens de alta velocidade não beneficiaria apenas os passageiros, mas também o clima.
Segundo a Amtrak, seus trens elétricos geram até 72% menos emissões do que aviões e até 83% menos emissões do que automóveis. No entanto, transformar os Estados Unidos em um país onde os trens de passageiros sejam mais rápidos e eficientes é algo extremamente caro.
Além disso, diferentemente de governos anteriores que investiram pesadamente na Amtrak, o governo Trump buscou reduzir significativamente o financiamento federal para infraestrutura ferroviária de passageiros, propondo cortes de 82% no orçamento do ano fiscal de 2027.
A Amtrak afirma que precisaria de mais de 100 bilhões de dólares e de mais de 15 anos para concluir todas as melhorias planejadas apenas no Corredor Nordeste. Essas obras incluiriam a modernização dos sistemas de sinalização, a reconstrução de túneis e pontes antigos e a introdução de novas frotas de trens, entre outras melhorias de infraestrutura.
Por outro lado, Alon Levy, pesquisador de transporte e uso do solo do Instituto Marron da Universidade de Nova York, acredita que as atualizações necessárias poderiam ser realizadas por um valor significativamente menor.
Levy foi um dos principais autores de um relatório que concluiu que seria possível construir uma linha de alta velocidade no Corredor Nordeste por cerca de 17 bilhões de dólares, além dos recursos já comprometidos. "O Corredor Nordeste é uma das poucas linhas cujos padrões já são relativamente elevados", afirmou.
Por isso, em vez de uma reconstrução completa do sistema, ele defende a adoção de padrões técnicos e operacionais comuns na Europa e na Ásia, bem como a implementação de tecnologias ferroviárias que já foram testadas e aprovadas em outros países.
Segundo ele, o maior problema dos Estados Unidos nem sempre é a falta de recursos, mas a dificuldade em adotar inovações desenvolvidas no exterior. "Existe uma mentalidade americana segundo a qual, se você não foi o primeiro a fazer algo, é muito difícil aprender a ser o segundo ou o terceiro", disse. "Se algo é inventado no Japão, ele pode chegar à Europa. Mas é muito difícil que chegue aos Estados Unidos, mesmo quando eles sabem que estão atrás."
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