O serviço de inteligência da Polícia Militar de Minas Gerais sabia desde o último domingo que manifestantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) marchariam rumo à fazenda Córrego da Ponte, da família do presidente Fernando Henrique Cardoso, na madrugada de terça-feira. Somente três horas após o MST desmontar o acampamento, hoje, é que a PM mineira chegou na região da fazenda, que fica a 170 quilômetros de Brasília.
O administrador da Córrego da Ponte, Wander Gontijo, disse que a fazenda recebeu um alerta da PM de Buritis ainda no domingo, avisando que os sem-terra realizariam protesto na fazenda. Gontijo afirmou que somente na segunda-feira é que o serviço de inteligência Presidência da República avisou que os protestos ocorreriam. O acampamento do MST em frente à fazenda foi feito na terça-feira, às 2 horas.
Gontijo disse não entender porque a PM deixou de enviar tropas para a fazenda enquanto perduraram as manifestações. Na noite de quarta-feira, a Córrego da Ponte foi avisada pela mesma PM de Buritis que os soldados seriam enviados para o local. Hoje pela manhã, três dias após a instalação do acampamento, Wander não escondeu sua insatisfação com a lentidão da polícia. "Parece que a PM de Minas está vindo de jegue", ironizou.
Vigia à distância - Ao mesmo tempo em que se recusou a enviar as tropas para a fazenda durante as manifestações, o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, pediu que a PM se inteirasse de tudo que estava ocorrendo para enviar relatórios ao governo. Nos últimos três dias, um helicóptero da PM mineira fez vários vôos sobre a Córrego da Ponte. Da janela do helicóptero era possível ver os oficiais acenando para os sem-terra.
A única vez em que o helicóptero da PM desceu na região foi hoje, às 11h40, a cinco quilômetros da sede da Córrego da Ponte, mas fora da área da fazenda. Os comandantes da PM mineira ainda não sabiam que os sem-terra tinham decidido desmontar o acampamento por volta de 11 horas.
O sub-comandante da PM mineira, coronel José Antoninho, ficou surpreso ao saber que o protesto tinha acabado e revelou que nada sabia sobre isto. O coronel se recusou a fazer comentários sobre a decisão do governo em não enviar as tropas para a fazenda. Segundo ele, qualquer informação tem de ser obtida junto ao próprio governo de Minas.
Chegada - Cerca de 50 soldados da PM mineira chegaram hoje à região da fazenda Córrego da Ponte. Um ônibus, quatro viaturas e uma ambulância ficaram estacionados a 5 quilômetros da fazenda, em frente à empresa Ceval. Os oficiais se recusaram a prestar informações sobre a operação que desenvolveriam.
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