São Tomé das Letras, no sul de Minas Gerais, é considerada a cidade mais mística do Brasil, unindo turismo esotérico, natureza exuberante, lendas, formações geológicas únicas e uma rica cultura local que atrai milhares de visitantes todos os meses.
Quem já ouviu falar em São Tomé das Letras, cidade na Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, pode ter escutado que por lá tem aparições de alienígenas, discos voadores, fadas, duendes e bruxas, mas nem só disso é feita a história desse lugar. As formações rochosas de quartzo e quartzito carregam uma energia diferente, que pode ser sentida pelas pessoas e até atrair o sobrenatural.
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O município de sete mil habitantes é pacato, a não ser pelas centenas de turistas que desembarcam de ônibus lotados aos finais de semana, vindos de toda parte do Brasil e até do mundo para experimentar um pouco do que a cidade mais mística do Brasil oferece.
É o turismo uma das principais atividades econômicas que movimentam São Tomé das Letras, com cerca de 19 mil leitos de hotelaria para receber os visitantes, segundo a prefeitura.
Além do turismo, a extração da pedra São Tomé é outra atividade econômica que sustenta o município. Trata-se de um quartzito: pedra natural durável, antiderrapante e antitérmica, comumente usada em revestimentos e pisos, especialmente ao redor de piscinas, por não reter calor.
É extraído na região e fica fácil reconhecer ao chegar na cidade, já que a pedra é formada por várias camadas visíveis, como se fosse um “sanduíche", em tons de branco, bege, amarelo e rosa. Devido à resistência, é usada em várias construções, casas e até igrejas.
O quartzito São Tomé ainda reveste o piso de toda a cidade, que não é asfaltada, dando um charme rústico único às caminhadas dos turistas.
O que são ‘As Letras’ de São Tomé?
São Tomé das Letras recebeu este nome devido a uma lenda, que combina a aparição da figura do apóstolo de Jesus Cristo com a presença de inscrições rupestres em uma gruta no meio da cidade.
A história é que um homem escravizado fugiu de seu senhor e, com medo de ser castigado, entrou em uma gruta na cidade para rezar. Ele se deparou com um homem velho usando vestes brancas, que disse que o protegeria do castigo se ele entregasse uma carta ao seu senhor.
Obediente, o homem não só não foi castigado, como impressionou o seu senhor, que o libertou sob a condição de conhecer o misterioso de vestes brancas. Ao voltarem à gruta, o velho não estava lá, mas uma imagem de São Tomé foi encontrada. Para a fé católica, foi São Tomé quem apareceu para o homem escravizado, para que ele pudesse ser libertado.
Na gruta da história, há inscrições rupestres indígenas, que, atualmente, são pouco visíveis, já que ficam expostas ao tempo. No entanto, foram essas as “letras” que deram o nome à cidade.
A imagem de São Tomé que apareceu para o homem escravizado foi roubada em um Sábado de Aleluia, que antecede o domingo de Páscoa, em 1991. Desde então, o governo local faz campanhas com recompensas em dinheiro para quem tiver informações ou souber o paradeiro da imagem do santo.
Ao lado da gruta está a Paróquia de São Tomé, centralizada na Praça Barão de Alfenas, cujo entorno tem barracas com vendedores ambulantes que comercializam bibelôs feitos com a pedra local, bijuterias de pedras semipreciosas e mais. Há até um Babalorixá que joga búzios, bem na porta da igreja.
A natureza em simbiose com a cidade
Quando em São Tomé das Letras, não é preciso ir muito longe para se chegar a lugares onde a natureza impera. Na cidade, existem pedras, grutas e mirantes, permitindo um contato direto com a flora, que mistura a Mata Atlântica com o Cerrado, a fauna e até elementos geológicos. A Pedra da Bruxa exige uma escalada leve para chegar ao topo, e a vista impressiona.
Próximo dela, há uma construção de pedras locais que foi chamada de pirâmide, mas trata-se de uma casa inabitada em meio a um parque preservado, onde milhares de pessoas escalam o telhado para ter uma vista privilegiada do pôr-do-sol todos os dias – com direito a aplausos. Por receber muitos turistas, o local é rodeado de vendedores, que oferecem desde “cogumelos mágicos” --que são alucinógenos-- até artesanato com cordas e miçangas.
Com fama de cidade livre e alternativa, São Tomé das Letras também enfrenta desafios com o uso de drogas recreativas, especialmente em locais turísticos e festas. A prefeitura realiza ações de conscientização e fiscalização com auxílio do Ministério Público, buscando atuar conforme a lei e mantendo a segurança para os visitantes.
Sinais místicos
Em Sobradinho de Minas, um distrito com 700 habitantes, ficam as grutas, como a do Labirinto e a Gruta de Sobradinho, que recebem milhares de visitantes todos os meses. As cachoeiras ficam no distrito rural, como a Véu de Noiva, uma das principais atrações da região.
É dentro das grutas que é possível ter dimensão do real escuro, a privação dos sentidos e como é depender apenas da audição para se guiar, pelo som da água e do vento entre as pedras. Assim, é fácil entender por que tantas pessoas juram sentir algo diferente quando estão ali.
Rodrigo Abrão é o empresário responsável pelo parque onde está localizada a cachoeira Véu de Noiva (que pertence ao estado). No local, ele construiu um complexo que oferece restaurante e atividades aos visitantes, além de promover festas, sempre respeitando o entorno e preservando a natureza. Além disso, Rodrigo faz questão de devolver para a cidade tudo que pode, por meio de ações sociais e até patrocinando atletas.
“A Véu de Noiva é uma das cachoeiras mais fortes de São Tomé, e Deus não iria dar isso na mão de qualquer pessoa. Eu já vi as luzes voando. Como eu tenho o observatório, a gente está de olho. Eu vim para cá em 1996. Aquele dia foi muito bom para mim, e São Tomé me quis de volta, aí eu comprei os terrenos, o turismo da cidade deu um certo salto. Agora, eu moro aqui, e a parte magnética da cidade me atraiu, para eu largar tudo na cidade e viver no meio do mato, um novo projeto".
São Tomé das Letras dá sinais, segundo o empresário, através de déjà vu ou lembranças: “Cada um, em sua expansão, vai sentir a energia da montanha, da árvore, da floresta, do silêncio, nos animais. São Tomé vai mostrar, é individual para cada um o chamado certo e a energia", continua.
Por lá, a linha que separa o real do imaginário é tênue. A cidade combina natureza exuberante, formações geológicas únicas, folclore e espiritualidade, criando uma aura que fascina e intriga quem passa por lá.
Cada pedra, cada gruta e cada pôr do sol parecem reforçar a ideia de que São Tomé é, de fato, um portal – não apenas para o sobrenatural, mas também para um modo de vida mais conectado com a Terra, o mistério e a fé.
*A repórter viajou para São Tomé das Letras e Itamonte a convite da Secretaria de Cultura e Turismo (Secult) do Estado de Minas Gerais.