'Tiktokização' da saúde: especialista alerta para riscos de pílulas mágicas

Automedicação mata 20 mil pessoas por ano no Brasil. Especialista explica como as redes sociais colocam sua saúde em risco. Saiba como se proteger.

5 mai 2026 - 19h57

O Brasil é o 7º maior consumidor de medicamentos do mundo — e mais de 90% da população admite se automedicar. Esse hábito, alimentado cada vez mais pelas redes sociais, coloca a saúde de milhões de pessoas em risco.

Foto: Reprodução/Shutterstock
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Foto: Saúde em Dia

Parte desse comportamento tem um nome: a chamada "tiktokização" da saúde. O fenômeno transforma influenciadores digitais em substitutos do médico, promovendo remédios e suplementos sem qualquer base científica.

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Quando as redes sociais viram consultório

A psiquiatra Dra. Cláudia Ketter, professora da Afya Educação Médica São Paulo, explica que esse movimento tem raízes psicológicas profundas. Segundo ela, algoritmos e conteúdos repetidos criam o chamado "efeito de verdade ilusória".

"As falsas relações com influenciadores criam um vínculo de confiança não recíproco, porém psicologicamente potente", afirma a especialista. Esse vínculo oferece respostas rápidas e simples — muito mais atraentes do que uma consulta médica demorada.

O resultado é uma busca crescente por soluções fora do consultório. Uma pesquisa da Afya, em parceria com a healthtech Conexa, revelou que 49% dos pacientes já usam inteligência artificial para tratar questões de saúde.

O que está por trás da busca por alívio imediato

A Dra. Cláudia aponta que há um fator cultural importante nesse cenário. "Há evidências de baixa tolerância ao sofrimento e maior busca por alívio imediato, reforçada pela tecnologia digital, que oferece gratificação instantânea, muito dopaminérgica", observa.

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Emoções comuns do cotidiano, como tristeza, ansiedade e frustração, estão sendo tratadas como doenças. Com isso, cresce o uso equivocado de ansiolíticos, antidepressivos e misturas de fármacos com produtos naturais.

Esses casos, antes dominados por analgésicos, já aparecem com frequência nas emergências brasileiras. É uma mudança de perfil que preocupa especialistas em saúde pública.

Os riscos que vão além do remédio errado

A automedicação mata cerca de 20 mil pessoas por ano no Brasil. Além disso, está associada a um aumento de 18% nas internações por intoxicação, segundo dados levantados por pesquisadores da área.

Sem acompanhamento médico, os problemas se multiplicam. Veja os principais riscos.

  • Doenças mascaradas por medicamentos tomados sem diagnóstico.

  • Interações perigosas entre remédios e suplementos naturais.

  • Tratamentos iniciados de forma errada, agravando o quadro clínico.

  • Dependência de substâncias usadas sem indicação profissional.

  • Atraso no diagnóstico correto de condições sérias.

Cada um desses pontos representa um risco real e evitável. A diferença está em buscar orientação qualificada antes de qualquer decisão.

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Como cuidar da saúde com mais responsabilidade

A Dra. Cláudia defende uma abordagem mais humanizada e criteriosa. Para ela, "o medicamento é uma ferramenta, não uma solução universal para a vida".

Algumas atitudes fazem diferença no dia a dia.

  • Consulte um médico antes de iniciar qualquer medicamento ou suplemento

  • Desconfie de conteúdos de saúde que prometem resultados rápidos nas redes

  • Não use remédios por indicação de influenciadores, mesmo que pareçam confiáveis

  • Informe seu médico sobre todos os produtos que consome, incluindo naturais

  • Valorize o acompanhamento contínuo, não apenas consultas pontuais

Cuidar da saúde exige tempo, escuta e profissional habilitado. Nenhum algoritmo substitui isso.

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