O teste de genotipagem molecular do papilomavírus humano (HPV), indicado no rastreio do câncer de colo do útero, identificou quase seis vezes mais casos de risco do que o exame citológico tradicional, o papanicolau.
O achado é um dos resultados do projeto TENDA+, iniciativa brasileira que será apresentada nesta sexta-feira, 20, no Eurogin 2026, um dos principais congressos internacionais sobre o HPV, realizado em Viena, na Áustria.
O estudo analisou 753 amostras cervicais coletadas em mulheres entre 20 e 69 anos em cidades-satélites do Distrito Federal. Todas foram submetidas simultaneamente ao exame de papanicolau e à análise molecular para detecção do HPV.
O teste de genotipagem identificou infecção por HPV de alto risco em 16,6% das participantes, enquanto o papanicolau identificou em 2,92%.
Ao todo, a infecção por HPV foi detectada em 125 participantes. Os tipos virais mais frequentes foram o HPV-16, que apresenta maior risco de câncer, HPV-68, HPV-66, HPV-58, HPV-39 e HPV-52.
A maior incidência foi observada foi entre pessoas de 40 a 60 anos, faixa etária que não é contemplada pela política de vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS), principal método de prevenção à doença.
No Brasil, a vacina contra o HPV está disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Jovens de até 19 anos que ainda não se vacinaram também podem receber os imunizantes, assim como vítimas de violência sexual de 15 a 45 anos, pessoas vivendo com HIV, pacientes transplantados e outros grupos específicos definidos pelo Ministério da Saúde.
O exame de DNA-HPV
Segundo Marco Zonta, líder do estudo e doutor em infectologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os resultados reforçam a confiabilidade no teste. O exame é capaz de identificar 14 genótipos do HPV e detectar a presença do vírus no organismo antes mesmo do surgimento de lesões ou em estágios iniciais do câncer, inclusive em mulheres assintomáticas.
A sensibilidade do teste, de acordo com o biomédico, chega a 99% no diagnóstico, enquanto a do papanicolau varia entre 50% e 60%. Além disso, como o câncer de colo do útero tem progressão lenta (cerca de 10 anos), a alta sensibilidade do teste permite ampliar com segurança o intervalo entre os exames para até cinco anos.
"O teste tem maior sensibilidade porque identifica diretamente o DNA do vírus", afirma o biomédico, que compara a tecnologia à utilizada nos exames de covid-19, que detectam o RNA do vírus SARS-CoV-2.
O exame de papanicolau é um procedimento mais simples. Ele consiste na coleta de células do colo do útero para análise laboratorial, com o objetivo de detectar alterações precoces (mas já existentes) que podem indicar a presença de câncer cervical.
Segundo Zonta, a maior sensibilidade do teste não diminui a importância histórica do papanicolau. O que ocorre é uma mudança no paradigma do rastreamento do câncer de colo do útero, já que agora é possível identificar o vírus antes mesmo do surgimento de alterações celulares.
"Com isso, o papanicolau deixa de ser um exame de rastreio para virar um método de confirmação de lesão para HPV de alto risco oncogênico", destaca.
De acordo com Glauco Baiocchi Neto, líder do Centro de Referência em Tumores Ginecológicos do A.C. Camargo Cancer Center e que não participou da pesquisa, assim como ocorre no papanicolau, o teste de DNA-HPV exige a realização de um exame ginecológico e a coleta da secreção do colo do útero.
A diferença está no destino do material: em vez de ser colocado em uma lâmina, ele é armazenado em um tubo com um líquido conservante e encaminhado ao laboratório para a análise do DNA do vírus. No caso do teste molecular, a análise é feita por uma máquina — o resultado não depende de um patologista interpretar o material coletado.
O exame de DNA-HPV passou a ser oferecido pelo SUS em agosto de 2025 e vai substituir gradualmente o papanicolau na rede pública. Segundo Zonta, ele tende a ser mais caro do que o papanicolau, mas, no longo prazo, é mais econômico por detectar a presença do vírus antes do surgimento de lesões, o que reduz o volume de atendimentos por câncer de colo do útero.
"O investimento pode parecer mais caro no início, mas em 5 anos se torna de 3 a 4 quatro vezes mais barato do que manter a estrutura atual de atendimento e tratamento da doença", pontua.
Autocoleta
Um destaque do novo exame é a possibilidade de autocoleta, método que já é utilizado no Reino Unido, de acordo com Zonta.
Segundo Neto, a autocoleta demanda um kit e orientação específica para que a mulher realize o processo da forma correta. É necessário realizar um esfregaço de células da região vaginal e armazenar o material coletado em um recipiente com um líquido específico para, então, enviar ao laboratório para processamento.
No Brasil, alguns laboratórios com atendimento domiciliar oferecem a possibilidade da autocoleta. Nesses casos, o exame custa a partir de R$ 300.
Para mulheres com dificuldade de acesso a serviços de saúde ou resistência a exames ginecológicos, a autocoleta é uma opção. Mulheres que deixam de realizar exames regulares por razões pessoais ou culturais também podem se beneficiar da modalidade.