Perder peso antes de engravidar não garante o sucesso reprodutivo de forma universal, exigindo uma análise individualizada. Embora a obesidade possa afetar a ovulação, a qualidade dos óvulos e os resultados da FIV, o emagrecimento beneficia principalmente mulheres com anovulação, sem comprovação de ganho para as que já ovulam. Adiar a gestação para perder peso requer cautela devido à idade e à reserva ovariana, além de cuidados com remédios como a semaglutida e a avaliação do parceiro.
O sobrepeso e a obesidade podem levantar dúvidas para quem deseja engravidar. Uma das principais é se perder peso antes de tentar uma gestação ou iniciar uma fertilização in vitro (FIV) aumenta as chances de ter um bebê.
Segundo a Dra. Michele Panzan, médica de Reprodução Humana da Huntington, a resposta depende das condições de saúde e do histórico de cada paciente.
A avaliação precisa considerar a idade, o funcionamento dos ovários, o metabolismo e as possíveis causas de infertilidade. Por isso, não existe uma recomendação única de emagrecimento que sirva para todas as mulheres antes da gravidez.
O tema ganha destaque com o Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, celebrado em 11 de outubro. Segundo dados do Vigitel 2006-2024, do Ministério da Saúde, 25,7% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal tinham obesidade em 2024. Entre as mulheres, o índice chegou a 26,7%.
Como a obesidade pode afetar a fertilidade?
A obesidade pode estar associada a alterações na ovulação e na resposta aos medicamentos usados para estimulá-la. Também pode interferir na qualidade dos oócitos, células que dão origem aos óvulos maduros, e no funcionamento do endométrio, tecido que reveste o interior do útero.
Além disso, a condição está associada a menores taxas de nascimento após a fertilização in vitro e a um risco maior de complicações durante a gestação. Isso não significa, porém, que toda mulher com obesidade terá dificuldade para engravidar.
"Quando uma paciente chega ao consultório preocupada com o peso e com a possibilidade de engravidar, precisamos olhar para o quadro completo. Avaliamos a idade, o funcionamento dos ovários e a saúde metabólica, sempre considerando o histórico reprodutivo daquela mulher. É a partir desse conjunto que conseguimos discutir qual caminho faz sentido para ela", explica a Dra. Michele Panzan.
Emagrecer antes da gravidez aumenta as chances de ter um bebê?
A resposta depende das características de cada paciente. Segundo a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM, na sigla em inglês), intervenções para perda de peso podem aumentar as chances de concepção espontânea em mulheres com obesidade que apresentam anovulação. Essa condição ocorre quando a ovulação não acontece.
Por outro lado, os estudos não demonstraram aumento da taxa de nascidos vivos após intervenções para perda de peso em mulheres que já ovulam. Isso também se aplica a pacientes submetidas à fertilização in vitro. Portanto, emagrecer antes do tratamento não garante melhores resultados reprodutivos.
"É importante evitar a ideia de que existe um peso ideal que toda mulher precisa atingir antes de tentar engravidar. Em alguns casos, perder peso pode ajudar a restabelecer a ovulação e melhorar parâmetros metabólicos. Em outros, esperar meses para atingir uma determinada meta pode ter pouco benefício reprodutivo, especialmente quando a idade já é um fator importante", afirma a médica.
A idade feminina tem forte relação com as chances de gravidez e nascimento após tratamentos de reprodução assistida. Por isso, a decisão de adiar uma tentativa para emagrecer também precisa levar em conta a reserva ovariana e o diagnóstico de infertilidade.
Antes da fertilização in vitro, a ASRM recomenda uma avaliação individualizada. Entre os fatores considerados estão:
- Índice de massa corporal (IMC): ajuda a avaliar o peso em relação à altura, mas não deve ser analisado isoladamente.
- Condições de saúde associadas: doenças e alterações metabólicas podem influenciar os riscos e o planejamento da gestação.
- Segurança dos procedimentos: a equipe médica precisa avaliar as condições clínicas da paciente antes do tratamento.
A decisão deve considerar os possíveis benefícios da perda de peso sem ignorar o tempo disponível para buscar a gestação.
Saúde metabólica também merece atenção
O preparo para uma gravidez vai além do número indicado pela balança. A avaliação médica pode incluir exames de glicemia, pressão arterial e função da tireoide, conforme as necessidades da paciente. Outros aspectos do metabolismo também podem ser investigados.
Sono, alimentação e atividade física fazem parte desse cuidado. O objetivo é identificar condições que possam interferir na saúde reprodutiva e aumentar os riscos durante uma futura gestação.
"Às vezes, a paciente chega muito concentrada no número da balança e encontramos outros pontos que merecem atenção, como resistência à insulina, pressão alta ou alterações hormonais. Por isso, avaliamos a saúde de forma mais ampla. Quando existe indicação para perda de peso, ela deve ter um objetivo clínico claro e fazer parte desse cuidado", afirma a Dra. Michele.
A investigação também deve incluir a saúde masculina quando o casal enfrenta dificuldades para engravidar. A obesidade em homens pode estar associada a alterações hormonais e na qualidade dos espermatozoides.
"Quando um casal procura ajuda porque a gravidez não aconteceu, é importante que a investigação inclua os dois. A saúde metabólica masculina também pode interferir na fertilidade, por isso precisamos considerar esses fatores durante a avaliação", acrescenta a médica.
Medicamentos para emagrecer exigem planejamento
O uso de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, indicados para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, também precisa entrar na conversa sobre planejamento reprodutivo. É o caso da semaglutida, que exige atenção de quem pretende engravidar.
De acordo com a bula aprovada pela agência reguladora dos Estados Unidos (FDA), a semaglutida deve ser suspensa pelo menos dois meses antes de uma gravidez planejada. A orientação considera o tempo necessário para a eliminação do medicamento do organismo.
Quem utiliza esse tipo de tratamento deve conversar com o médico antes de suspender ou manter a medicação. O planejamento precisa considerar o momento da interrupção, o controle das condições metabólicas e as estratégias para manutenção do peso durante essa transição.