Nem sempre a explicação para níveis baixos de vitamina D está no pouco tempo de exposição solar. Embora o sol siga sendo a principal fonte da substância, pesquisas recentes apontam que, em muitos casos, o problema pode estar dentro do próprio organismo, especialmente no funcionamento do intestino e do fígado.
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A nutricionista Paula Crispim, do Ânima Centro Hospitalar, em Anápolis (GO), explica que a própria produção da vitamina no organismo envolve uma série de variáveis. "É perfeitamente possível apresentar deficiência mesmo com exposição solar frequente. A síntese da vitamina D é um processo biológico complexo que depende de vários fatores além da simples presença do sol".
A vitamina D é lipossolúvel, ou seja, depende da absorção de gordura para ser aproveitada pelo corpo. Por isso, doenças que afetam o sistema digestivo podem comprometer diretamente esse processo. "Se a gordura não é absorvida, a vitamina D 'passa direto' pelo trato digestivo". Ela também apontou para os riscos de um intestino inflamado. "Um intestino inflamado tem suas vilosidades (pequenas dobras que absorvem nutrientes) danificadas, reduzindo a área de contato disponível para a absorção da vitamina".
Isso ajuda a explicar por que pessoas com doenças como síndrome do intestino inflamado, doença celíaca ou doença de Crohn frequentemente apresentam níveis baixos de vitamina D, mesmo quando mantêm uma rotina considerada adequada de exposição ao sol.
Segundo a especialista, há sinais que podem indicar quando o problema não está no sol. "Diferenciar a falta de sol da má absorção apenas por sintomas é difícil, mas existem pistas clínicas: Fezes que boiam, têm aspecto gorduroso ou odor muito forte podem indicar que o organismo não está absorvendo gorduras (e, consequentemente, nem a vitamina D); deficiências combinadas ou histórico de cirurgias".
O fígado também desempenha um papel importante nesse processo. É nele que ocorre uma das etapas fundamentais de ativação da vitamina D, conhecida como 25-hidroxilação. Pesquisas publicadas em periódicos como o Oxford Academic apontam que doenças hepáticas crônicas estão frequentemente associadas à deficiência da vitamina, justamente por prejudicarem essa conversão essencial.
Na prática, isso significa que o corpo pode até produzir vitamina D a partir da luz solar, mas não conseguir transformá-la em sua forma ativa.
A visão é compartilhada pelo nutrólogo Joaquim Menezes, criador do Instituto Evollution. "A deficiência de vitamina D, de fato, vai muito além da baixa exposição solar, embora esse ainda seja um fator central. Hoje sabemos que se trata de uma condição multifatorial, que pode envolver desde questões metabólicas até hábitos de vida e condições clínicas específicas".
Diante desse conjunto de fatores, o diagnóstico exige olhar mais amplo, conforme o nutrólogo. "Por isso, a avaliação individual é fundamental. Nem sempre a solução será apenas 'tomar mais sol'. Em muitos casos, é necessário ajustar hábitos, investigar possíveis causas associadas e, quando indicado, recorrer à suplementação de forma segura e personalizada".