A menopausa costuma vir acompanhada de ondas de calor e mudanças de humor. Mas, para muitas mulheres, o que mais incomoda é a "pane" na cabeça.
Dificuldade de concentração, esquecimentos e sensação de cérebro lento são queixas comuns. É a famosa "névoa mental" da menopausa, que impacta trabalho, relações e autoestima.
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a olhar para a creatina além da musculação. Estudos sugerem que o suplemento pode ajudar justamente na energia do cérebro e na cognição nessa fase da vida.
O que muda no cérebro durante a menopausa
A menopausa marca a queda importante dos hormônios ovarianos, em especial o estrogênio.
Esse hormônio não atua só no útero e nos ossos. Também influencia o cérebro.
Quando o estrogênio cai, a forma como o cérebro produz e usa energia fica menos eficiente.
Isso ajuda a explicar sintomas como lapsos de memória, perda de foco e fadiga mental.
Segundo o médico Luiz Augusto Júnior, que atua na saúde da mulher 40+ e é fundador do Instituto Amare, "o cérebro feminino passa por mudanças profundas na menopausa, e parte disso envolve o impacto da queda hormonal sobre a produção de energia neuronal".
Ele ressalta que a creatina "não é uma solução mágica, mas pode ser uma ferramenta adicional para melhorar a clareza mental e reduzir a sensação de névoa cognitiva quando usada de forma adequada".
Por que falar de creatina nessa fase?
A creatina é uma substância produzida pelo próprio organismo e também obtida na alimentação.
Ela funciona como uma espécie de "bateria extra" de energia dentro das células.
Revisões científicas apontam que mulheres tendem a ter estoques naturais de creatina mais baixos que os homens. A diferença pode chegar a 70%-80% nos níveis endógenos, segundo artigo disponível na base da National Library of Medicine.
Isso significa que, em fases de maior demanda de energia, como a menopausa, o cérebro pode "sentir" ainda mais. Daí o interesse em estudar se a suplementação de creatina ajuda a compensar parte desse déficit fisiológico.
O que dizem os estudos sobre creatina e menopausa
Um dos trabalhos mais comentados é o estudo CONCRET-MENOPA.
Ele foi publicado no Journal of the American Nutrition Association e avaliou 36 mulheres na peri e pós-menopausa por oito semanas.
As participantes foram divididas em grupos que receberam diferentes doses de creatina hidroclorada ou placebo. Os pesquisadores mediram tempo de reação, fadiga mental, humor e até níveis de creatina no cérebro.
De forma geral, quem usou creatina teve melhora no tempo de reação, menos fadiga mental e melhor capacidade de concentração. Também foi observado aumento da creatina em áreas frontais do cérebro, ligadas à tomada de decisão e atenção.
Resultados ainda são promissores, não definitivos
Apesar dos achados, trata-se de um estudo pequeno, com número reduzido de participantes e duração curta. Os próprios autores classificam os dados como iniciais e pedem mais pesquisas, com amostras maiores e seguimento mais longo.
Outros trabalhos com mulheres na transição da menopausa indicam benefícios da creatina para força muscular, composição corporal e bem-estar. Parte deles aponta melhora de sintomas como fadiga, desempenho físico e até alguns aspectos do humor.
Ainda assim, não existe consenso definitivo sobre a extensão dos efeitos na cognição. A ciência avança, mas é cedo para tratar a creatina como "cura" para problemas de memória ou concentração na menopausa.
Como a creatina pode agir no cérebro
A principal hipótese é energética. Com a queda do estrogênio, o cérebro produz energia com menos eficiência, o que favorece cansaço mental.
A creatina atua como reserva rápida de energia, ajudando a regenerar ATP, a "moeda energética" das células. Isso parece estabilizar o funcionamento neuronal em situações de esforço cognitivo, sono ruim, estresse e multitarefas.
Revisões sobre creatina e saúde cerebral apontam possível apoio à memória, velocidade de processamento e atenção, inclusive em adultos mais velhos. Mas os autores lembram: os estudos ainda são poucos e heterogêneos, especialmente em mulheres na pós-menopausa.
Creatina, humor e qualidade de vida na menopausa
Além da cognição, algumas pesquisas investigam o impacto da creatina em sintomas emocionais dessa fase. Alterações de humor, irritabilidade e sensação de esgotamento são queixas comuns durante a menopausa.
Em análises com mulheres no climatério, a suplementação mostrou tendência a reduzir intensidade de oscilações de humor e cansaço. Os resultados ainda não permitem afirmações categóricas, mas apontam um possível benefício adicional.
Isso reforça a visão de que a creatina pode ser uma peça de um quebra-cabeça maior.
Ela não substitui hábitos saudáveis, mas pode somar com sono adequado, alimentação equilibrada, atividade física e manejo do estresse.
Quando considerar falar sobre creatina com o médico
O Dr. Luiz Augusto Júnior reforça que a suplementação não substitui o acompanhamento clínico.
No consultório, a creatina entra como parte de um conjunto maior, que inclui sono, saúde intestinal, treino de força, manejo do estresse e, quando indicado, reposição hormonal.
"A forma mais estudada é a creatina monohidratada, mas a dose ideal varia conforme peso, rotina, alimentação, sono e condições metabólicas", explica o médico.
Por isso, ele enfatiza que não existe receita única nem dose padrão para todas as mulheres.
Diretrizes de segurança descrevem a creatina como um dos suplementos mais estudados e, em geral, bem tolerados em doses habituais.
Mesmo assim, profissionais recomendam avaliação prévia, especialmente em casos de doenças renais, uso de muitos medicamentos ou histórico de problemas metabólicos.
Checklist antes de falar em creatina na menopausa
Antes de cogitar o suplemento, vale revisar alguns pontos práticos:
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Você faz acompanhamento regular com ginecologista ou clínico?
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Seus exames de sangue e função renal estão atualizados?
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A alimentação diária inclui proteínas de qualidade e água suficiente?
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Há espaço para melhorar sono, atividade física e manejo do estresse?
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Você usa outros suplementos ou medicamentos que possam interagir?
Chegar ao consultório com essas respostas facilita a conversa.
O profissional consegue avaliar se a creatina faz sentido para o seu contexto ou se há prioridades anteriores.
Perguntas para levar à consulta
Na hora de conversar com o médico ou nutricionista, algumas perguntas podem ajudar:
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A creatina é adequada para minha idade e meu histórico de saúde?
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Ela pode interferir em algum remédio que uso hoje?
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Quais seriam os objetivos principais com o suplemento no meu caso?
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Quanto tempo levaria para avaliar se está ajudando?
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Que sinais indicariam que devo interromper o uso?
Esse roteiro não substitui a orientação profissional.
Mas ajuda a tornar a consulta mais objetiva e centrada nas suas queixas reais, como memória, foco ou cansaço.