Dor de dente ou sinusite? O erro do cérebro ao interpretar a dor facial

A dor de dente que surge "do nada", principalmente na região dos molares superiores, muitas vezes não tem origem em uma cárie ou em um problema direto na boca. Veja situações em que o cérebro 'erra' ao interpretar a dor facial.

29 abr 2026 - 08h33

A dor de dente que surge "do nada", principalmente na região dos molares superiores, muitas vezes não tem origem em uma cárie ou em um problema direto na boca. Em diversos casos, a causa está na inflamação dos seios da face, em especial do seio maxilar. Quando isso acontece, o sintoma é conhecido como dor referida, fenômeno em que o cérebro interpreta um estímulo doloroso em um local diferente daquele onde a inflamação realmente está.

Essa situação costuma gerar dúvidas e certa apreensão. Afinal, a pessoa sente um incômodo intenso em um ou mais dentes, procura explicações na rotina alimentar ou na escovação, mas não encontra motivos claros. Assim, o entendimento da relação entre sinusite e dor de dente ajuda a diferenciar um problema respiratório de um quadro odontológico. Dessa forma, evita-se tratamentos desnecessários e a avaliação é direcionada ao profissional adequado, seja dentista ou otorrinolaringologista.

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A dor referida é um fenômeno em que o cérebro interpreta um estímulo doloroso em um local diferente daquele onde a inflamação realmente está – depositphotos.com / royalty
A dor referida é um fenômeno em que o cérebro interpreta um estímulo doloroso em um local diferente daquele onde a inflamação realmente está – depositphotos.com / royalty
Foto: Giro 10

Sinusite e dor de dente: qual é a ligação anatômica?

A explicação para a conexão entre sinusite e dor de dente está na anatomia da face. O seio maxilar é uma cavidade aérea que está dentro do osso maxilar, logo acima das raízes dos dentes molares e pré-molares superiores. Em algumas pessoas, essa proximidade é tão grande que as raízes parecem tocar o assoalho do seio maxilar em exames de imagem, como a radiografia panorâmica ou a tomografia computadorizada.

Quando ocorre uma sinusite maxilar, o revestimento interno dessa cavidade (a mucosa) fica inflamado e espesso. Assim, essa inflamação gera aumento de pressão interna, acúmulo de secreção e sensibilidade local. Como as terminações nervosas que levam as informações de dor dos seios da face e dos dentes superiores passam por ramos do mesmo nervo — o nervo trigêmeo —, o cérebro pode "confundir" a origem do estímulo. Portanto, um processo inflamatório respiratório é interpretado como se fosse um problema dentário.

Como a dor referida faz o cérebro "acreditar" que o problema é dentário?

A chamada dor referida é um fenômeno bem descrito na neurologia e na odontologia. Ela acontece quando fibras nervosas de diferentes regiões do corpo convergem para os mesmos núcleos no sistema nervoso central. No caso da face, diversos estímulos sensitivos dos seios paranasais, da gengiva e dos dentes chegam a áreas próximas no tronco encefálico e no cérebro. Portanto, o resultado é uma percepção imprecisa do local real da inflamação.

Na sinusite maxilar, a pressão dentro do seio inflamado estimula terminações nervosas na mucosa e no osso ao redor. Como essas vias compartilham trajetos com as fibras que trazem sensações dos molares superiores, sente-se a dor como um incômodo profundo na raiz do dente, mesmo que o tecido dentário esteja íntegro. Em muitos relatos clínicos, a pessoa descreve a sensação como um "dente alto" ou um "peso" sobre a arcada superior, especialmente quando se abaixa a cabeça ou caminha.

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Outro aspecto importante é que a dor sinusal costuma se intensificar em movimentos que alteram a pressão na face, como tossir, espirrar ou deitar de lado. Isso ajuda a diferenciar de uma dor causada por cárie ou por inflamação da polpa dentária, que tende a piorar com estímulos térmicos, como bebidas muito quentes ou geladas, e com pressão direta no dente afetado, por exemplo durante a mastigação.

Como saber se a dor é da sinusite ou de um dente estragado?

Algumas características ajudam a suspeitar que a dor de dente está relacionada à sinusite e não a uma lesão direta na estrutura dentária. Em vez de tentar chegar a um diagnóstico sozinho, a observação de certos sinais pode orientar a procura pelo tipo de atendimento mais adequado. De forma geral, a dor de origem sinusal costuma vir acompanhada de outras manifestações respiratórias.

Entre os indícios de que o problema pode ser respiratório, destacam-se:

  • Dor em mais de um dente superior ao mesmo tempo, geralmente de forma difusa;
  • Sensação de peso ou pressão na face, especialmente na região das bochechas e ao redor do nariz;
  • Congestão nasal, secreção amarelada ou esverdeada e dificuldade para respirar pelo nariz;
  • Piora do incômodo ao abaixar a cabeça, subir escadas ou realizar movimentos bruscos;
  • Histórico recente de gripe, resfriado ou crise alérgica.

Já a dor com maior chance de estar ligada a cárie, trinca ou inflamação da polpa tende a apresentar outros padrões:

  1. Localização bem definida em um único dente;
  2. Desconforto desencadeado por alimentos ou bebidas frias, quentes ou muito doces;
  3. Persistência da dor mesmo após o fim do contato com o estímulo;
  4. Presença de manchas, cavidades visíveis ou fratura na coroa dentária;
  5. Sensibilidade ao morder apenas em um ponto específico da arcada.

Quando procurar dentista, otorrino ou ambos?

Na prática, a diferença entre sinusite e problema dentário pode ser sutil, e é comum que o primeiro profissional procurado seja o dentista, justamente pela intensidade da dor na região dos molares. Em consultório, uma avaliação clínica associada a exames de imagem simples, como radiografias, muitas vezes mostra dentes sem alterações evidentes, sugerindo origem não odontológica para o sintoma.

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Nesses casos, o encaminhamento a um otorrinolaringologista é frequente, para investigar a presença de sinusite aguda ou crônica. Em algumas situações, a tomografia dos seios da face evidencia espessamento de mucosa, acúmulo de secreção ou alterações anatômicas que favorecem a inflamação, como desvio de septo ou conchas nasais aumentadas. A partir disso, o tratamento costuma envolver medicamentos para reduzir a inflamação, controlar infecções bacterianas quando presentes e melhorar a ventilação nasal.

Também existe o cenário inverso, em que um foco de infecção em um dente superior pode contribuir para um quadro de sinusite odontogênica, quando bactérias da raiz atingem o seio maxilar. Por isso, a integração entre odontologia e otorrinolaringologia é considerada essencial em casos de dor persistente, secreção unilateral com mau cheiro ou sinusites de repetição sem causa aparente.

Compressas mornas na face, feitas com cuidado, às vezes aliviam a sensação de pressão nos seios maxilares – depositphotos.com / eddiephotograph
Foto: Giro 10

Cuidados práticos para lidar com a dor e evitar confusões

Algumas medidas simples podem ajudar a lidar com a dor de dente relacionada à sinusite enquanto a avaliação profissional é organizada. Manter boa hidratação, usar soluções salinas nasais orientadas por especialista e evitar automedicação com antibióticos são atitudes que reduzem riscos e favorecem uma recuperação adequada. Compressas mornas na face, feitas com cuidado, às vezes aliviam a sensação de pressão nos seios maxilares.

Na rotina diária, atenção à higiene bucal, consultas regulares ao dentista e acompanhamento de alergias respiratórias e rinites com o médico contribuem para diminuir tanto crises de sinusite quanto problemas dentários reais. Quando a dor se manifesta de forma diferente do habitual, associada a nariz entupido, mal-estar e sensação de rosto pesado, considerar a possibilidade de origem sinusal é um passo importante para compreender o próprio corpo, reduzir a ansiedade e buscar atendimento direcionado.

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