'Congelei tecido dos meus ovários aos 17 anos por causa de um câncer. Agora, aos 44, sou mãe'

As amostras de tecido ovariano retiradas de Kassandra Bacon foram reimplantadas com sucesso 23 anos depois, permitindo que ela desse à luz seu filho aos 44 anos.

12 out 2026 - 19h30
Resumo
Após congelar tecido ovariano na adolescência para se submeter a um tratamento contra o câncer, Kassandra Bacon deu à luz seu primeiro filho aos 44 anos. O procedimento pioneiro de reimplante ocorreu após mais de duas décadas de preservação do material genético, viabilizado em Israel. Livre da doença e após enfrentar menopausa precoce e fertilização in vitro, ela realizou o sonho da maternidade, tornando o bebê um marco inédito associado ao tempo de congelamento do tecido.
Kassandra Bacon (à direita) deu à luz seu primeiro filho, Landon, em setembro de 2026, aos 44 anos. Ela comemora a chegada do bebê ao lado da mãe (à esquerda)
Kassandra Bacon (à direita) deu à luz seu primeiro filho, Landon, em setembro de 2026, aos 44 anos. Ela comemora a chegada do bebê ao lado da mãe (à esquerda)
Foto: Sara Matthews / BBC News Brasil

Quando Kassandra Bacon foi diagnosticada com linfoma de Hodgkin — um tipo raro de câncer que afeta o sistema linfático —, aos 17 anos, um tratamento de quimioterapia foi suficiente inicialmente. Mas, um ano depois, o câncer voltou, só que de forma mais grave.

Os médicos disseram a Bacon que ela precisaria começar imediatamente um tratamento agressivo de quimioterapia.

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"Não é algo que você quer viver quando está tendo aulas de direção e em plena época de provas finais do ensino médio. Foi difícil", disse ela ao Newshour, programa do Serviço Mundial da BBC.

Apesar de ainda ser adolescente, Bacon já pensava nos efeitos do tratamento a longo prazo e em como poderia preservar sua fertilidade.

Como não havia tempo para esperar pelo ciclo menstrual — necessário para o congelamento de óvulos —, Bacon decidiu realizar um procedimento alternativo, ainda experimental na época: o congelamento de tecido ovariano.

Vinte e três anos depois de as amostras de tecido dos ovários de Bacon terem sido congeladas, elas foram reimplantadas nela, hoje com 44 anos. No mês passado, ela deu à luz seu primeiro filho, um menino chamado Landon.

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Acredita-se que Landon seja o primeiro bebê nascido a partir de tecido ovariano reimplantado, depois de ter ficado congelado por mais de 20 anos.

Bacon recorreu ao congelamento de tecido ovariano na esperança de que, um dia, pudesse ter um bebê
Foto: Kassandra Bacon / BBC News Brasil

Bacon diz que sempre quis ser mãe. E ficou desesperada diante da possibilidade de não poder ter um filho biológico.

"Não sei por quê, mas simplesmente não me conformava com a ideia de que não havia nada a fazer para me dar esperança caso as coisas acontecessem como acabaram acontecendo e eu não conseguisse engravidar naturalmente", diz.

O congelamento de óvulos é um procedimento cada vez mais comum entre mulheres que não podem engravidar naturalmente. No entanto, o processo exige semanas de injeções hormonais antes que os óvulos possam ser retirados — um tempo que, segundo os médicos, Bacon não tinha.

Depois de convencê-los de que deveria passar por uma cirurgia para retirar parte do tecido dos ovários antes de iniciar o tratamento, Bacon encontrou Sara Matthews, uma das poucas cirurgiãs no Reino Unido — seu país de origem — capacitadas para realizar esse procedimento especializado.

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Matthews retirou quatro amostras de tecido dos ovários de Bacon, mas não havia garantia de que, um dia, isso poderia resultar no nascimento de um bebê.

'Única esperança'

O tratamento que salvou a vida de Bacon, que incluiu um transplante de medula óssea e quimioterapia, foi bem-sucedido, e ela voltou a ficar livre do câncer.

Mas, como os médicos suspeitavam, a agressividade do tratamento havia causado danos significativos aos ovários. Aos 33 anos, Bacon entrou na menopausa precoce.

Pronta para ter filhos, ela começou uma busca que durou uma década para encontrar um médico que pudesse reimplantar em seu corpo o tecido ovariano saudável que havia sido congelado.

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A cirurgia para retirar o tecido dos ovários de Bacon foi realizada antes de o Reino Unido regulamentar esse procedimento. Por isso, ela não tinha a documentação necessária para que o tecido pudesse ser reimplantado 20 anos depois.

Matthews a acompanhou durante todo o processo e a ajudou a encontrar uma clínica em Israel disposta a realizar o procedimento.

O tecido foi levado ao Centro Médico Sheba, na cidade de Ramat Gan. Mas o procedimento tão aguardado por Bacon foi adiado depois que combatentes do Hamas atacaram Israel em 7 de outubro de 2023, desencadeando uma ofensiva israelense de grande escala na Faixa de Gaza.

Em entrevista ao Serviço Mundial da BBC, Bacon contou que pensou: "Será que minha única esperança vai ser destruída?"

Em maio de 2024, um cessar-fogo temporário permitiu que ela viajasse para fazer o procedimento com segurança. Poucas horas depois de embarcar no voo de volta ao Reino Unido, o cessar-fogo foi encerrado.

"Parece coisa de novela", diz ela.

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Como funciona um transplante de tecido ovariano?

Nesse tipo de transplante, um cirurgião retira fragmentos de tecido dos ovários. As amostras são armazenadas e congeladas em laboratório até que a paciente esteja pronta para ter filhos.

O reimplante do tecido é semelhante a um enxerto de pele. Ao ser colocado novamente sobre os ovários remanescentes ou próximo a eles, o tecido descongelado deve se reconectar aos vasos sanguíneos ao redor, permitindo que os ovários voltem a liberar um óvulo por mês.

Segundo um estudo de 2024, o ciclo reprodutivo da mulher é restabelecido em até 94% dos casos. Já outro estudo, de 2022, aponta que cerca de 28% dos transplantes de tecido ovariano resultaram no nascimento de um bebê.

Estima-se que mais de 200 bebês tenham nascido em todo o mundo após transplantes de tecido ovariano.

Bacon diz ser grata à sua versão mais jovem por ter pensado tão à frente
Foto: Kassandra Bacon / BBC News Brasil

'Tenho que agradecer a mim mesma'

Poucos meses após o transplante, em 2024, Bacon voltou a menstruar. Depois de tentar engravidar naturalmente com seu parceiro, sem sucesso, os médicos recomendaram que o casal recorresse à fertilização in vitro.

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Os dois passaram por três ciclos de tratamento até que, finalmente, no dia de Natal de 2025, Bacon segurou nas mãos um teste de gravidez positivo.

"Meu corpo, que era muito fértil aos 19 anos, me devolveu a vida aos 43", diz ela.

Landon nasceu em setembro deste ano, e Bacon está há 25 anos livre do câncer.

A médica Sara Matthews finalmente pôde conhecer o pequeno Landon, duas décadas depois de realizar a primeira cirurgia de Bacon
Foto: Sara Matthews / BBC News Brasil

Desde que compartilhou sua história, Bacon diz ter recebido inúmeras mensagens de mulheres que se sentiram inspiradas por ela.

Segundo Matthews, hoje em dia, as conversas sobre opções para preservar a fertilidade têm recebido mais atenção no atendimento a jovens pacientes com câncer, já que o prognóstico dos cânceres infantis melhorou significativamente.

"Queremos que essas crianças cheguem à vida adulta e tenham uma vida adulta normal. E uma parte importante disso é a possibilidade de formar uma família", diz ela.

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Assim como outras pessoas que ouvem sua história, Bacon se surpreende com a persistência que demonstrou tão jovem.

"Até hoje, tento me colocar no lugar de quem eu era aos 18 anos e pensar: 'Como consegui ser tão persistente? Como consegui ter tanta determinação?'. Acho que essa é uma daquelas coisas que preciso olhar para trás e agradecer a mim mesma."

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