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Por que pessoas bem-sucedidas acreditam que não são boas o suficiente?

Entenda o que é o fenômeno da impostora, como ele surgiu, por que tantas pessoas duvidam das próprias conquistas e de que forma é possível lidar com essa insegurança

16 jul 2026 - 16h07

Você já conquistou algo importante e, em vez de sentir orgulho, pensou que foi apenas sorte? Ou teve a sensação de que, a qualquer momento, alguém descobriria que você "não é tão competente assim"? Esse é um dos principais sinais do chamado fenômeno da impostora, popularmente conhecido como síndrome da impostora.

Você sente que não merece ser bem
Você sente que não merece ser bem
Foto: sucedida? Conheça o fenômeno da impostora, sua origem, os principais sinais e estratégias para lidar - Reprodução: Canva/simonapilollatnf / Bons Fluidos

Embora o termo tenha se tornado muito popular nos últimos anos, essa experiência emocional não é nova. Ela acompanha a trajetória de muitas pessoas altamente competentes, especialmente mulheres, que convivem com a sensação constante de não merecer o próprio sucesso.

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Como surgiu o termo?

O conceito foi apresentado em 1978 pelas psicólogas norte-americanas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, no artigo The Impostor Phenomenon in High Achieving Women: Dynamics and Therapeutic Intervention. As pesquisadoras estudaram 150 mulheres com elevado desempenho acadêmico e profissional e observaram um padrão surpreendente: apesar das inúmeras conquistas, elas acreditavam que não eram realmente inteligentes ou capazes. Em vez de reconhecerem seu mérito, atribuíam o sucesso à sorte, ao acaso, ao excesso de esforço ou até mesmo à capacidade de enganar os outros.

Curiosamente, Clance e Imes utilizaram a expressão "fenômeno do impostor", e não "síndrome". O termo "síndrome" acabou sendo popularizado pela mídia, embora essa experiência não seja reconhecida como um transtorno mental pelos principais manuais diagnósticos, como o DSM ou a CID. Atualmente, muitos pesquisadores preferem manter a denominação original, justamente por se tratar de um conjunto de experiências emocionais e cognitivas, e não de uma doença.

Muito antes de Clance e Imes: Freud e o medo do triunfo

Décadas antes de o fenômeno receber esse nome, Sigmund Freud já havia descrito uma experiência psicológica muito semelhante. Em seu texto "Os que fracassam ao triunfar" (Those Wrecked by Success), publicado em 1916, Freud observou que algumas pessoas desenvolviam intenso sofrimento justamente quando estavam prestes a alcançar aquilo que desejavam. Em vez de viverem a realização com satisfação, sentiam culpa, ansiedade ou criavam obstáculos inconscientes que impediam o próprio sucesso.

Esse conceito ficou conhecido como medo do triunfo. Para Freud, em alguns casos, o sucesso pode despertar conflitos inconscientes relacionados à culpa, às expectativas familiares, às proibições internalizadas ou ao medo das mudanças que uma conquista representa.

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Embora Freud e as pesquisadoras norte-americanas trabalhassem em contextos históricos diferentes, ambos descrevem um fenômeno semelhante: pessoas que têm competência, mas encontram dificuldade para reconhecer seu próprio valor.

Por que isso acontece?

A síndrome da impostora não surge por um único motivo. Diversos fatores podem contribuir para seu desenvolvimento. A forma como a pessoa foi criada exerce influência importante. Crianças que cresceram sob cobranças excessivas, comparações constantes ou elogios condicionados apenas ao desempenho podem aprender que seu valor depende exclusivamente dos resultados.

Também há influência de fatores sociais e culturais. Durante muito tempo, mulheres precisaram provar continuamente sua competência em espaços acadêmicos e profissionais tradicionalmente ocupados por homens. Esse contexto ajuda a explicar por que o fenômeno foi inicialmente identificado em mulheres de alto desempenho, embora pesquisas posteriores tenham demonstrado que homens também vivenciam essa experiência. 

Além disso, ambientes altamente competitivos, mudanças de carreira, promoções e novos desafios costumam intensificar esses sentimentos.

Os sinais mais comuns

Entre as características frequentemente observadas estão:

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  • Dificuldade em reconhecer as próprias conquistas;
  • Atribuição do sucesso à sorte ou ao acaso;
  • Medo constante de ser "descoberta" como uma fraude;
  • Comparação constante com outras pessoas;
  • Necessidade de trabalhar muito mais do que o necessário para sentir que merece ocupar determinado espaço;
  • Dificuldade em receber elogios.

É comum que, mesmo diante de evidências concretas de competência, a pessoa encontre explicações externas para justificar seus resultados.

É possível superar?

Talvez seja mais adequado dizer que é possível aprender a lidar com essa experiência emocional. As próprias Pauline Clance e Suzanne Imes observaram que o objetivo não era eliminar completamente esses pensamentos, mas reduzir seu impacto sobre a vida da pessoa. Em muitos casos, a sensação de insuficiência pode reaparecer diante de novos desafios. A diferença está na maneira como ela é interpretada.

Reconhecer os padrões de pensamento é um primeiro passo importante. Também ajuda construir uma percepção mais realista sobre as próprias capacidades, registrar conquistas, aceitar elogios sem imediatamente invalidá-los e compreender que errar faz parte do desenvolvimento humano.

O acompanhamento psicológico também pode favorecer a identificação das crenças que sustentam esse funcionamento e promover formas mais saudáveis de lidar com o medo, a autocrítica e a insegurança.

Uma insegurança que também pode impulsionar crescimento

Apesar de causar sofrimento quando intensa, alguma dose de insegurança não é necessariamente prejudicial. Ela pode favorecer humildade, curiosidade, disposição para aprender e abertura ao aprimoramento. O problema surge quando a dúvida deixa de estimular o crescimento e passa a impedir a pessoa de reconhecer sua competência, aceitar desafios ou desfrutar das próprias conquistas.

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Entre acreditar que sabe tudo e acreditar que não sabe nada, existe um caminho mais saudável: reconhecer que ninguém é perfeito, que sempre há espaço para aprender e que competência não significa ausência de dúvidas.

Talvez o maior desafio da síndrome da impostora não seja convencer alguém de que ela é capaz, mas ajudá-la a enxergar aquilo que suas próprias conquistas já demonstram há muito tempo.

Sobre a autora

Blenda Oliveira é Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e Psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É autora do livro Fazendo as pazes com a ansiedade, publicado pela Editora Nacional, que foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2023. A especialista também palestra sobre saúde mental e autoconhecimento e vem se dedicando ao tema do envelhecimento.

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