As pessoas costumam relacionar a expressão "ganhar a vida" ao trabalho e ao sustento. Para o filósofo Mario Sergio Cortella, porém, a frase também pode levar a uma pergunta sobre a maneira como cada um aproveita a própria existência.
Em uma de suas reflexões, ele parte justamente desse duplo sentido para questionar o que fazemos com o tempo que temos. "Como é que você ganha a vida? Qual que é o seu jeito de ganhar a vida?", provocou.
Quando o trabalho ganha outro significado
Cortella observou que algumas pessoas encontram no próprio trabalho uma forma de contribuir com a vida ao redor e, assim, "ganhá-la". Nesse caso, a atividade profissional ultrapassa a questão financeira e passa a carregar um significado pessoal.
"Há pessoas que ganham a vida cuidando de vida. Há pessoas que ganham a vida encantando a vida. E essas ganham a vida nos dois sentidos de modo muito mais denso", afirmou em um de suas palestras.
Isso, contudo, não significa abandonar a busca por estabilidade ou considerar o dinheiro algo negativo. O filósofo reconhece que sustentar-se e construir patrimônio fazem parte das necessidades humanas. "Não é ilegítimo se agregado à ideia de ganhar a vida", ponderou.
O risco de deixar a vida passar, segundo Cortella
A segunda interpretação da expressão leva a reflexão para outro ponto. Cortella questionou o que pode acontecer quando a rotina deixa pouco espaço para aquilo que realmente importa.
"Como é que você faz para que a sua vida não seja perdida? Isto é, para que ela não seja demolida, erodida por aquilo que é a pequenez, a tolice, a redução", questionou.
Nesse sentido, a reflexão ultrapassa a carreira. Isso porque envolve a forma como cada pessoa organiza suas prioridades e decide onde coloca sua energia. A proposta é observar se a rotina tem espaço para experiências, relações e atividades que ajudam a dar sentido à trajetória pessoal.
Propósito também faz parte da escolha
Para o filósofo encontrar significado na própria trajetória passa por uma decisão consciente. Ter um propósito ajuda a estabelecer uma direção para o trabalho e para outros aspectos da vida.
Cortella resume essa ideia ao falar sobre quem consegue aproveitar a própria existência sem deixá-la simplesmente escorrer pela rotina: "Uma pessoa que ganha a vida, ou seja, que não a perde, não a desperdiça, não faz com que ela se esvaia, é uma pessoa marcada por uma grande decisão."
A provocação, portanto, vai além da remuneração. De que maneira você tem usado sua vida para que ela tenha significado para você?