Dupla jornada: 75% das empreendedoras já pararam negócios para cuidar da casa

A mulher empreende, sustenta a família e cuida de todos. Mas quem cuida dela?

6 nov 2026 - 15h04
Resumo
Pesquisa do Instituto Rede Mulher Empreendedora revela que 80,7% das empreendedoras já pararam negócios para cuidar da família e 75% não têm apoio, o que afeta o avanço das empresas de 61,7% delas. Diante do recorde de 10,4 milhões de empresárias no Brasil, a especialista Tacyra Valois alerta que a sobrecarga da dupla jornada é uma questão de saúde pública e urbana. Para ela, a autonomia feminina exige políticas integradas de mobilidade, saúde e creches, dividindo a responsabilidade do cuidado.

Pesquisa revela que 75% das empreendedoras entrevistadas não contam com apoio nas tarefas de cuidado. Tacyra Valois, especialista em saúde coletiva e pesquisadora de saúde urbana, analisa como a sobrecarga e a organização das cidades afetam a saúde das mulheres

O Brasil celebra o crescimento do empreendedorismo feminino, mas ainda conhece pouco sobre o preço que muitas mulheres pagam para manter seus negócios funcionando. Elas atendem clientes, administram contas, buscam novos contratos e, ao fim do expediente, continuam responsáveis pelos cuidados da casa e da família. Para muitas, a jornada não termina. Apenas muda de função.

Foto: Revista Malu

Uma pesquisa nacional divulgada em agosto de 2026 pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) revela que 80,7% das empreendedoras entrevistadas já precisaram interromper as atividades de seus negócios para realizar tarefas de cuidado. Entre as participantes, 75% afirmam não contar com apoio nessas responsabilidades, enquanto 61,7% relatam que essa sobrecarga compromete o desenvolvimento de suas empresas. O levantamento reuniu 1.176 respostas válidas de mulheres das cinco regiões do Brasil.

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O problema, porém, não se resume à produtividade. Quando trabalhar é indispensável para pagar as contas e cuidar de outras pessoas é uma responsabilidade da qual não se pode abrir mão, descansar, procurar atendimento médico ou simplesmente adoecer pode se tornar um desafio. E essas dificuldades também dependem de onde a mulher vive, dos serviços disponíveis em sua cidade e das condições que encontra para conciliar trabalho e cuidado.

É essa contradição que Tacyra Valois, especialista em saúde coletiva e gestão de sistemas, com atuação em políticas públicas e governança, propõe colocar no centro das discussões do Mês do Empreendedorismo Feminino, celebrado em novembro. Pesquisadora de governança municipal e saúde urbana na Université de Bordeaux, ela defende que ninguém pode analisar a autonomia econômica das mulheres separadamente das condições sociais e da organização das cidades.

"Estamos ensinando as mulheres a abrir empresas, buscar crédito e conquistar independência financeira. Mas estamos criando condições para que elas possam adoecer, descansar e cuidar da própria saúde sem colocar em risco o sustento da família? Uma sociedade que depende do trabalho dessas mulheres, mas não oferece suporte para que elas sejam cuidadas, está transferindo para o indivíduo uma responsabilidade que também é coletiva."

Por que essa também é uma questão de saúde pública?

A discussão ganha outra dimensão quando se observa o tamanho do empreendedorismo feminino no Brasil. Segundo levantamento divulgado pelo Sebrae em abril de 2026, o país alcançou 10,4 milhões de mulheres donas de negócios no fim de 2025, o maior número da série histórica.

Para Tacyra, o crescimento econômico precisa ser acompanhado por uma reflexão sobre as condições que permitem às mulheres sustentar seus negócios sem comprometer a própria saúde. É nesse ponto que sua pesquisa sobre governança municipal e saúde urbana amplia o debate: a organização das cidades também interfere na autonomia feminina.

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Uma empreendedora que mora longe dos serviços de saúde, enfrenta deslocamentos demorados, não encontra vagas em creches ou não dispõe de uma rede de apoio tem menos condições de conciliar trabalho, responsabilidades familiares e cuidado pessoal. Essas dificuldades não decorrem apenas de escolhas individuais, mas também da maneira como os serviços e as políticas públicas estão organizados no território.

A saúde das empreendedoras, portanto, não depende apenas de consultas e tratamentos. Também é influenciada pelo acesso ao transporte, à atenção primária, aos serviços de cuidado, pela segurança econômica e pela capacidade das instituições públicas de coordenar suas ações.

"A autonomia econômica das mulheres não depende apenas de oportunidades para empreender. Depende também de como as cidades estão organizadas, das condições de trabalho e da capacidade das instituições públicas de coordenar suas políticas. Uma cidade que oferece oportunidades de negócios, mas não garante condições para que as mulheres trabalhem, cuidem de outras pessoas e preservem a própria saúde, ainda não oferece uma autonomia completa."

O que precisa mudar?

A sobrecarga feminina não é um problema que se resolve apenas com recomendações para dormir melhor, praticar exercícios ou organizar a agenda. Embora essas medidas possam contribuir para o bem-estar, elas não substituem condições concretas para que o cuidado aconteça.

Para Tacyra, o desafio também está em fazer com que políticas de saúde, mobilidade, assistência social, educação e desenvolvimento econômico funcionem de maneira articulada. Uma cidade pode oferecer oportunidades para empreender, mas, se não garantir acesso aos serviços essenciais, pode acabar limitando a autonomia das mesmas mulheres que buscam incentivar.

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Ampliar o acesso a creches e serviços de apoio a pessoas dependentes, fortalecer a atenção primária à saúde, melhorar as condições de deslocamento e facilitar o acesso à proteção previdenciária são medidas que podem reduzir parte dessa pressão.

Há também uma dimensão econômica: segundo a pesquisa do IRME, apenas 10% das entrevistadas conseguem gerar sobra financeira para poupar ou reinvestir depois de cobrir as despesas básicas. Para quem vive com pouca margem financeira, uma interrupção inesperada do trabalho pode representar um problema imediato.

"Não basta dizer a uma empreendedora que ela precisa priorizar a saúde se, na prática, ela não tem com quem deixar o filho, não consegue interromper o atendimento aos clientes e depende daquela renda para manter a casa. O desafio das políticas públicas é transformar o cuidado em uma possibilidade real, não em mais uma obrigação que a mulher precisa cumprir sozinha."

Revista Malu
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