Cúrcuma: do modismo ao alerta - o que precisamos entender

Amplamente valorizada por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, a cúrcuma conquistou espaço na alimentação e nos suplementos. O recente alerta da Anvisa reacende uma discussão importante: como utilizar compostos naturais com segurança sem transformar informação em medo

17 mar 2026 - 20h06

Não é de hoje que a cúrcuma está entre os meus antioxidantes preferidos. Há muitos anos essa raiz faz parte da minha rotina, seja na alimentação, no tradicional shot matinal preparado com gengibre, limão e própolis, ou mesmo em formulações manipuladas em cápsulas quando indicadas dentro de uma estratégia de cuidado com a saúde.

Cúrcuma: benefícios, uso correto e alerta da Anvisa sobre suplementos de curcumina; entenda como consumir com segurança e equilíbrio
Cúrcuma: benefícios, uso correto e alerta da Anvisa sobre suplementos de curcumina; entenda como consumir com segurança e equilíbrio
Foto: Reprodução: Canva/egal / Bons Fluidos

Essa raiz milenar, amplamente utilizada na culinária e em diferentes sistemas de medicina tradicional - especialmente na medicina ayurvédica e na medicina tradicional chinesa - conquistou espaço ao longo da história não apenas como tempero, mas também como um recurso associado ao cuidado com a saúde e à imunidade.

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Seu principal composto ativo, a curcumina, é conhecido por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. São justamente essas características que ajudam a explicar o crescente interesse científico em torno da substância nas últimas décadas. Diversos estudos investigam o potencial da curcumina em processos relacionados à inflamação, ao estresse oxidativo e ao equilíbrio metabólico, fatores presentes em muitas condições crônicas da vida moderna.

Inclusive, já escrevi anteriormente sobre ela aqui na minha coluna da revista Bons Fluidos, em um artigo no qual discuto os potenciais dessa raiz e por que ela passou a ser considerada por muitos um verdadeiro "superalimento". Deixo aqui o link para leitura.

Quando utilizada de forma adequada, a cúrcuma pode oferecer benefícios importantes para a saúde. A curcumina apresenta uma ação antioxidante relevante, contribuindo para combater o estresse oxidativo - processo associado ao envelhecimento celular e ao desenvolvimento de diversas doenças. Além disso, sua ação anti-inflamatória tem sido investigada em diferentes contextos clínicos, especialmente nas chamadas inflamações crônicas de baixo grau, hoje reconhecidas como um fator relacionado a vários desequilíbrios do organismo.

Há também estudos que exploram o papel da curcumina no cuidado com as articulações, no suporte ao metabolismo e na proteção de estruturas celulares importantes. Esses aspectos ajudam a explicar por que a cúrcuma passou a ser vista como uma aliada em estratégias de promoção da saúde e qualidade de vida.

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Com o aumento desse interesse, a curcumina passou a ser utilizada não apenas na alimentação, mas também em suplementos e formulações concentradas. Em farmácias de manipulação, por exemplo, é possível encontrar cápsulas contendo extratos padronizados de curcumina, que apresentam concentrações muito maiores da substância ativa do que aquelas encontradas na raiz utilizada na culinária.

Em alguns casos, essas formulações são associadas a substâncias que aumentam a absorção da curcumina no organismo, como a piperina, derivada da pimenta-preta. Esse tipo de combinação é utilizada justamente para potencializar a biodisponibilidade da substância, já que a curcumina, quando consumida isoladamente, possui uma absorção naturalmente limitada.

Esse cenário reflete um fenômeno mais amplo que temos observado nos últimos anos: o crescimento expressivo do mercado de nutracêuticos e suplementos alimentares, impulsionado pelo interesse crescente das pessoas em buscar alternativas naturais para promover saúde e bem-estar.

No entanto, junto com essa popularização surge também um desafio importante: o uso indiscriminado de substâncias biologicamente ativas sem orientação adequada.

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Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta relacionado a relatos de lesões hepáticas associadas ao uso de medicamentos e suplementos contendo extratos concentrados de cúrcuma (curcumina). A medida foi baseada em notificações de farmacovigilância e nutrivigilância que apontaram possíveis casos de inflamação hepática em pessoas que faziam uso desses produtos.

É importante esclarecer que a Anvisa não proibiu a cúrcuma nem os suplementos de curcumina. O que ocorreu foi a emissão de um alerta de segurança, a recomendação de atualização de informações em bulas e rótulos e o monitoramento mais atento desses produtos no mercado.

A agência também orientou profissionais de saúde e consumidores a ficarem atentos a possíveis sinais de comprometimento hepático, como náusea persistente, fadiga intensa, dor abdominal, urina escura e coloração amarelada da pele ou dos olhos. Esses sintomas, quando associados ao uso de suplementos, devem ser avaliados por um profissional de saúde.

Outro ponto importante é que a Anvisa não estabeleceu até o momento uma dose máxima oficial para curcumina em suplementos. O alerta está relacionado principalmente ao uso de extratos concentrados, sobretudo quando consumidos em doses elevadas ou sem acompanhamento profissional.

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Em termos de referência internacional, alguns organismos científicos utilizam parâmetros de segurança baseados em avaliações toxicológicas. O Comitê Conjunto FAO/OMS de Especialistas em Aditivos Alimentares estabelece uma ingestão diária aceitável de até 3 mg de curcumina por quilograma de peso corporal. Para um adulto de aproximadamente 70 kg, isso corresponderia a cerca de 210 mg de curcumina por dia como referência de segurança alimentar.

É importante lembrar que esse valor representa um parâmetro conservador de segurança, e não necessariamente uma dose terapêutica utilizada em estudos clínicos. O ponto central da discussão está, na verdade, na forma de uso e na concentração das formulações. A cúrcuma presente na culinária fornece quantidades relativamente pequenas de curcumina. Já os suplementos podem oferecer doses muito mais elevadas da substância ativa, o que exige uma avaliação cuidadosa do contexto individual de cada pessoa.

Outro aspecto importante é a percepção, bastante difundida na sociedade, de que tudo o que é natural é automaticamente seguro. Essa ideia precisa ser analisada com cautela. Substâncias naturais também possuem atividade biológica e, portanto, podem produzir efeitos no organismo - positivos ou adversos - dependendo da dose, do tempo de uso e das condições de saúde de quem as utiliza.

Algumas pessoas merecem atenção especial: indivíduos com doenças hepáticas pré-existentes, pessoas que utilizam medicamentos de uso contínuo ou aqueles que fazem uso simultâneo de diversos suplementos. Por isso, alertas como o recente comunicado da Anvisa devem ser entendidos como um convite ao uso responsável e informado, e não como um motivo para medo ou afastamento dos compostos naturais.

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Ao longo da história, a humanidade sempre recorreu à natureza em busca de cuidado. Muito antes do surgimento da medicina moderna, plantas, raízes e extratos já eram utilizados para aliviar dores, tratar inflamações e promover equilíbrio no organismo.

Por isso, confesso que fico um pouco receoso quando um produto natural passa a ser apresentado apenas pelo prisma do perigo. Esse tipo de narrativa pode acabar afastando as pessoas de recursos que, quando utilizados com conhecimento e orientação adequada, são extremamente valiosos.

A cúrcuma é um bom exemplo disso. Trata-se de uma raiz com longa tradição de uso, amplamente estudada e que continua sendo uma aliada importante dentro de uma abordagem equilibrada de saúde.

O verdadeiro desafio não é temer os compostos naturais, mas aprender a utilizá-los com conhecimento, responsabilidade e respeito ao organismo. A natureza nunca foi o problema. O desafio sempre foi o conhecimento com que escolhemos utilizá-la.

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