Nem sempre é fácil escolher um único caminho quando a curiosidade parece apontar para muitos ao mesmo tempo. Para a carioca Gabriela Frajtag, de apenas 20 anos, essa multiplicidade virou potência. Recém-formada pela Ilum, instituição de ensino superior ligada ao CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), ela foi a única brasileira reconhecida em um concurso internacional voltado a um dos campos mais instigantes da ciência contemporânea: a biologia quântica.
A conquista chama atenção não apenas pela pouca idade da pesquisadora, mas também pela natureza do tema que a levou até lá. O concurso, promovido pela Foundational Questions Institute (FQxI) em parceria com o Paradox Science Institute e com apoio do IDOR Ciência Pioneira, convidava participantes a refletirem justamente sobre a conexão entre física quântica e biologia - uma área ainda em consolidação, mas que tem despertado crescente interesse entre cientistas do mundo todo.
Uma ciência que nasce do encontro entre diferentes saberes
No ensaio premiado, intitulado The Quantum of Biology: History and Future, Gabriela organiza a trajetória histórica da biologia quântica e discute os caminhos que esse campo pode seguir nos próximos anos. A proposta do texto é tornar mais compreensível um tema complexo, mostrando como fenômenos microscópicos da física podem, possivelmente, influenciar processos vitais.
A biologia quântica investiga se certos mecanismos presentes nos seres vivos conseguem aproveitar efeitos típicos do mundo quântico - mesmo em um ambiente que, à primeira vista, pareceria desfavorável a isso. Afinal, dentro de uma célula, há calor, movimento, vibrações e inúmeras reações químicas acontecendo ao mesmo tempo. Em tese, tudo isso deveria atrapalhar a manutenção desses estados delicados.
É justamente aí que mora a pergunta central da área: será que alguns organismos conseguem preservar, ainda que por instantes, esses efeitos quânticos para tornar reações mais eficientes ou ampliar sua percepção do ambiente?
O que acontece no invisível também pode transformar a vida
No universo quântico, partículas como elétrons podem assumir comportamentos pouco intuitivos. Em vez de agir como esperaríamos no mundo macroscópico, elas podem, por exemplo, atravessar barreiras energéticas ou permanecer em estados extremamente sensíveis ao que acontece ao redor.
Esses estados, porém, são frágeis. O contato com o ambiente tende a desorganizá-los rapidamente, em um processo conhecido como perda de coerência. Quando isso acontece, o sistema deixa de exibir comportamento quântico e passa a seguir a lógica da física clássica.
Como os seres vivos são ambientes intensos e cheios de "ruído", compreender se esses fenômenos conseguem sobreviver ali por tempo suficiente é um dos grandes desafios da biologia quântica.
Aves, fotossíntese e o mistério da natureza
Entre os exemplos mais fascinantes estudados pela área está a orientação de aves migratórias. Algumas espécies parecem ser capazes de perceber o campo magnético da Terra - um sinal extremamente sutil. Uma das hipóteses mais aceitas envolve uma proteína chamada criptocromo, presente na retina.
Segundo essa teoria, quando essa proteína absorve luz azul, forma um par de elétrons em um estado característico da física quântica. A dinâmica desses elétrons mudaria de acordo com o campo magnético ao redor, provocando alterações químicas que, ao fim da cadeia, ajudariam a ave a se orientar. Na prática, seria como se ela pudesse "enxergar" o magnetismo do planeta.
Outro caso bastante debatido aparece na fotossíntese. Experimentos sugerem que a energia luminosa pode circular de maneira muito eficiente dentro das células, possivelmente explorando múltiplos caminhos ao mesmo tempo antes de seguir o mais vantajoso. Há ainda hipóteses relacionadas ao olfato e a reações químicas celulares aceleradas por tunelamento quântico.
Curiosidade sem fronteiras
O interesse de Gabriela por esse universo surgiu de forma bastante natural. Desde cedo, ela demonstrava entusiasmo por várias áreas do conhecimento. Participou de olimpíadas de biologia, química, física, matemática, linguística e neurociência, o que tornava difícil imaginar uma formação limitada a apenas uma disciplina.
Foi justamente por isso que encontrou na Ilum um espaço ideal para sua trajetória. A proposta interdisciplinar da instituição permitiu que ela transitasse entre diferentes campos e fortalecesse uma visão mais integrada da ciência.
"Eu já tinha percebido um pouco que a ciência como a gente divide - matemática, física, química - não existem. Na verdade, é tudo o estudo do mundo e é tudo integrado", explicou, em entrevista à Superinteressante. Essa forma de pensar parece ter sido decisiva para seu mergulho na biologia quântica - uma área que, por definição, depende do diálogo entre saberes.
O ensaio premiado e os próximos passos
O interesse pelo tema também foi alimentado por leituras e por uma experiência marcante em uma escola de biologia quântica realizada em Paraty, no Rio de Janeiro. O encontro reuniu pesquisadores brasileiros e estrangeiros e ajudou Gabriela a se aproximar ainda mais do assunto.
Depois do evento, ela soube do concurso internacional por meio de um grupo criado entre os participantes. Mesmo sem já atuar diretamente com pesquisa na área, decidiu transformar sua curiosidade e seu gosto pela história da ciência em um ensaio. "Eu pensei: vou juntar esse tema que eu já estudei com algo que eu gosto muito, que é contar a história da ciência". A escolha deu certo. Seu texto se destacou entre os trabalhos selecionados e rendeu à jovem cientista uma premiação de US$ 3 mil, cerca de R$ 16 mil.
Uma trajetória que está só começando
Apesar do reconhecimento, Gabriela encara o prêmio com serenidade. Para ela, a conquista é parte de um percurso que ainda está em construção. Agora, ela se prepara para iniciar o mestrado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, onde pretende estudar moléculas capazes de inibir uma enzima relacionada ao câncer.
A longo prazo, o plano é seguir na pesquisa acadêmica, avançando por etapas que incluem mestrado, doutorado, pós-doutorado e, futuramente, a criação do próprio laboratório. "Mestrado, doutorado, pós-doutorado e, eventualmente, ter meu próprio laboratório", afirma. Mesmo assim, ela reconhece que ainda está descobrindo qual tema quer abraçar de forma mais definitiva. "Eu quero entender muitas coisas", diz. "Mas eventualmente tem que escolher uma para focar aquilo que você vai usar a maior parte do seu tempo para estudar."
Ciência também é curiosidade, contexto e encantamento
Parte do que torna a trajetória de Gabriela tão inspiradora é justamente sua relação afetiva com o conhecimento. Mais do que acumular informações, ela demonstra interesse em compreender como as descobertas surgem, quem são as pessoas por trás delas e o que motivou cada investigação.
"Eu aprendo muito melhor quando estou aprendendo as coisas contextualizadas. Eu quero saber quem descobriu, os nomes e o porquê". Esse olhar já a levou, inclusive, a uma experiência que parecia improvável até pouco tempo atrás: um estágio no Instituto Weizmann, em Israel, no laboratório de Ada Yonath, vencedora do Nobel de Química.
"Eu fiz um trabalho sobre mulheres no Nobel quando era criança. Falei dela. E, depois, pude trabalhar no laboratório dela. Foi muito legal". Ao reunir curiosidade, profundidade e abertura para o desconhecido, Gabriela Frajtag se torna símbolo de uma nova geração de cientistas brasileiras: jovens, inquietas e prontas para mostrar que a ciência mais interessante talvez seja justamente aquela que não cabe em uma única caixa.