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Câncer de colo de útero: por que essa doença ainda não foi banida?

Entre 2026 e 2028, o Brasil deverá registrar mais de 50 mil novos casos da doença.

24 mar 2026 - 20h30

A eliminação já foi desvendada pela ciência, porém esse câncer continua vitimando mulheres. Entenda!

É possível prevenir, detectar e tratar o câncer de colo de útero nos estágios iniciais. Mesmo assim, essa doença persiste: mais de sete mil mulheres morrem a cada ano por conta desse tipo de câncer. Mas por que isso acontece? Para os especialistas, a ocorrência do câncer de colo de útero evidencia as desigualdades na área da saúde que afetam países de renda média como o Brasil.

A dor pélvica é um dos sintomas do câncer de colo de útero, assim como o sangramento vaginal irregular
A dor pélvica é um dos sintomas do câncer de colo de útero, assim como o sangramento vaginal irregular
Foto: FreePik / Revista Malu

Segundo estimativas recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026-2028, o Brasil deverá registrar mais de 19 mil novos casos anuais de câncer de colo do útero. "Mais de 7 mil mulheres morrem a cada ano por uma doença que, em grande parte, poderia ser evitada", afirma o oncologista, mastologista e cirurgião oncologista Wesley Pereira Andrade. "Entre mulheres jovens, muitas vezes em plena fase produtiva e reprodutiva, o impacto é ainda mais devastador".

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Câncer e HPV

Em aproximadamente 99% dos casos, o câncer do colo do útero está associado à infecção persistente pelo Papilomavírus Humano (HPV), especialmente os subtipos 16 e 18. Trata-se de um vírus de transmissão comum, frequentemente adquirido logo após o início da vida sexual. Na maioria das vezes, o organismo elimina a infecção espontaneamente. Porém, em uma parcela menor, o vírus persiste e inicia um processo lento de transformação celular que pode levar ao câncer ao longo de anos.

Importância da vacinação

A primeira linha de defesa é a vacinação. Disponível gratuitamente no SUS, a vacina contra o HPV representa uma das intervenções mais eficazes já desenvolvidas em oncologia preventiva. Países que alcançaram altas taxas de cobertura vacinal como Austrália e Reino Unido já observam quedas acentuadas na incidência de lesões pré-cancerosas e projetam a eliminação da doença nas próximas décadas.

No Brasil, no entanto, a cobertura vacinal ainda está aquém do ideal. Barreiras culturais, preconceito, desinformação e falhas logísticas contribuem para um cenário em que muitos adolescentes — o público-alvo da vacinação — permanecem desprotegidos.

Ação de rastreamento

A segunda linha de defesa é o rastreamento. Por décadas, o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, foi a principal ferramenta para detectar lesões precursoras. Ele continua sendo eficaz, especialmente quando realizado de forma periódica. Contudo, o avanço tecnológico trouxe métodos mais sensíveis, como o teste de DNA para HPV, que identifica diretamente a presença do vírus de alto risco antes mesmo de alterações celulares serem detectáveis.

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Esse novo paradigma, já adotado em diversos países, desloca o foco do diagnóstico tardio para a identificação precoce do risco. Combinado a biomarcadores como p16 e Ki-67 e ao uso crescente de inteligência artificial na análise citológica, o rastreamento caminha para uma era de maior precisão e menor margem de erro.

Tecnologia não basta

De acordo com o especialista, o desafio central permanece organizacional: transformar conhecimento em acesso. O Brasil ainda carece de um programa de rastreamento efetivamente estruturado e equitativo. Em muitas regiões, mulheres só chegam ao sistema de saúde quando já apresentam sintomas, como sangramento e dor pélvica. Nesse estágio, as chances de cura diminuem, e o tratamento torna-se mais agressivo, mais custoso e mais impactante para a qualidade de vida.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs uma estratégia ambiciosa para mudar esse cenário: vacinar 90% das meninas, rastrear 70% das mulheres e tratar 90% das lesões identificadas. Não se trata de uma meta utópica, mas de um plano tecnicamente viável. Para dar certo, no entanto, são necessários compromisso político, investimento contínuo e mobilização social. Com isso, estima-se que o câncer de colo de útero poderá ser eliminado.

"O câncer do colo do útero expõe uma verdade desconfortável: não basta que a medicina saiba como prevenir uma doença; é preciso que a sociedade consiga aplicar esse conhecimento de forma consistente", diz o médico. Ele reafirma que, dentre todos os cânceres, o de colo de útero é um dos poucos cuja eliminação está ao alcance. "A questão que permanece não é científica, mas coletiva", conclui o oncologista.

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Sintomas do câncer de colo de útero

- Sangramento vaginal irregular: costuma ocorrer após a relação sexual, mas pode acontecer, espontaneamente, entre as menstruações;

- Corrimento vaginal fétido: geralmente, de coloração marrom;

- Dor pélvica: é uma dor contínua e que também aparece durante a relação sexual.

(Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica)

Edição: Fernanda Villas Bôas

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