A febre dos perfumes árabes no Brasil, impulsionada pelas redes sociais e pelo luxo acessível, gerou uma corrida por autenticidade após a alta nas falsificações. O uso de cosméticos pirateados ameaça a saúde, causando alergias e queimaduras pela falta de regulação. Para evitar riscos, especialistas recomendam comprar apenas de canais oficiais e checar a embalagem, rótulos em português e o registro do produto na Anvisa, cujo sistema online valida a regularidade dos itens comercializados no país.
A perfumaria árabe tem ganhado espaço entre os consumidores brasileiros. Dados do Google Trends revelam que a busca por esse tipo de produto cresceu 150% desde 2024, enquanto as buscas pelo termo "perfume árabe original" aumentaram 140% no mesmo período. Os valores mostram uma preocupação que costuma acompanhar tendências: a falsificação.
Nas redes sociais, no e-commerce, em lojas e bancas de camelô, os perfumes árabes estão à venda. Contudo, identificar a autenticidade do produto nem sempre é fácil, visto que, muitas vezes, as falsificações trazem embalagens e fragrâncias que, à primeira vista, parecem idênticas às originais.
"Um perfume falsificado imita ou reproduz fraudulentamente uma marca legítima, induzindo o consumidor a acreditar que está comprando o original. Pode utilizar embalagem, nome, lote e rotulagem falsos", descreve a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Há também o produto irregular, que é um conceito mais amplo e abrange qualquer produto que não atenda às exigências sanitárias aplicáveis - sem a regularização exigida, falsificados, contrabandeados, roubados, com propaganda irregular ou desvios de qualidade.
"Mais do que tentar identificar uma falsificação apenas pela embalagem ou pelo frasco, que podem ser reproduzidos de maneira cada vez mais sofisticada, a principal recomendação é verificar a procedência do produto e a confiabilidade do vendedor", alerta Maria Jaber, CMO na Rebaj, importadora oficial das fragrâncias Lattafa no Brasil.
Como identificar um perfume árabe falso
Para confirmar a regularidade de um produto cosmético, a Anvisa disponibiliza um sistema de consulta gratuito em seu site, clicando aqui. Basta utilizar o número do processo de regularização que consta no rótulo da embalagem, composto por 17 dígitos, começando com "25351".
A agência também recomenda realizar a busca pelo nome do produto ou pelo CNPJ da empresa. O resultado da consulta informa a situação do produto: ativo - regularizado pela Anvisa, com fabricação, importação e comercialização permitidas; inativo - regularização não vigente. Caso a busca não retorne nenhum resultado, significa que o produto não foi regularizado.
Márcia Fraga Riedi, CEO da Portal Brasil, distribuidora exclusiva da Hamidi no País, reforça que produtos originais chegam por meio da distribuição oficial e de varejistas autorizados. Esse caminho garante que o perfume entrou regularmente no País e atendeu às exigências da Anvisa.
Ela também lista outros sinais que podem indicar que o produto é falsificado:
- Preços muito abaixo dos praticados pelo varejo;
- Embalagem mal impressa e mal acabada;
- Divergência entre os códigos de lote da caixa e do frasco;
- Rótulo sem informações, em português, dos responsáveis pela importação e distribuição no Brasil ou do número de notificação na Anvisa.
"Ser o canal oficial de uma marca internacional não significa apenas trazer o produto ao país, mas assumir a responsabilidade por aquilo que chega às mãos do consumidor. Por isso, nossa orientação é simples: sempre compre no canal oficial", complementa Márcia.
Riscos da pirataria na perfumaria
Além do prejuízo econômico causado pela concorrência desleal com fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes que atuam regularmente, como pontua Maria Jaber, a falsificação também envolve problemas de qualidade que podem afetar a saúde do consumidor.
"No produto falsificado, não existe qualquer garantia sobre quais substâncias foram utilizadas, sua procedência, concentração ou condições de fabricação e armazenamento. Estamos falando de produtos aplicados diretamente sobre a pele", ressalta a CMO na Rebaj.
A Anvisa também alerta sobre esses fatores, destacando que produtos irregulares, incluindo falsificados e contrabandeados, não oferecem garantias de segurança, eficácia e qualidade. Entre os principais riscos à saúde estão: reações alérgicas e dermatites, queimaduras e irritações químicas, exposição a contaminantes e toxicidade por substâncias não declaradas.
O sucesso dos perfumes árabes
Do ponto de vista de Leandro Petit, perfumista da Givaudan, existem três fatores que contribuem para a popularidade da perfumaria árabe no Brasil:
- Digitalização do mercado de fragrâncias: redes sociais, criadores de conteúdo e comunidades especializadas democratizaram o acesso à informação sobre perfumaria, permitindo que marcas árabes alcançassem consumidores de forma muito mais rápida do que no passado;
- Percepção de valor: muitas marcas árabes conseguem oferecer alta qualidade olfativa, embalagens sofisticadas e excelente performance por preços competitivos quando comparadas a marcas internacionais de luxo tradicionais;
- Características olfativas que agradam: notas adocicadas, ambaradas, baunilhadas, especiadas e amadeiradas já possuem forte aceitação no mercado local. A perfumaria árabe frequentemente trabalha essas famílias olfativas de maneira intensa e generosa, criando uma conexão natural com as preferências do público brasileiro.
"Além disso, a apresentação visual com frascos ornamentados, pesados e pomposos, constrói uma percepção de 'luxo acessível'. Quando você soma essa estética ao poder das redes sociais, onde vídeos promovem a promessa do 'elogio garantido', cria-se o cenário perfeito para a viralização entre os consumidores", complementa o especialista da Givaudan, multinacional suíça de destaque global na perfumaria.
Em comparação com outras tradições de perfumaria, a árabe "costuma privilegiar densidade, intensidade e projeção", explica Leandro. Segundo ele, enquanto esse estilo aposta em fragrâncias mais expansivas e duradouras, a europeia tradicional valoriza elegância, refinamento e equilíbrio entre as notas.
Segundo o profissional, esse movimento está gerando impacto significativo em toda a indústria, que tem apostado no aumento da diversidade criativa. Por isso, grandes marcas passaram a explorar territórios olfativos mais ousados, inspirados em referências do Oriente Médio, o que deve contribuir para um mercado mais plural e dinâmico.