Em Milão, a Fendi apresentou sua coleção Primavera/Verão inspirada nos ícones italianos Raffaella Carrà e Adriano Celentano. A estilista Maria Grazia Chiuri propôs um retorno à moda livre e espontânea, desafiando o medo do julgamento alheio. O desfile, marcado por passarelas espelhadas que multiplicavam corpos, destacou a sensualidade a partir de peças de lingerie combinadas a referências masculinas e femininas, celebrando a energia e a quebra de convenções estéticas.
Retomar a moda de maneira livre, instintiva e sem medo dos julgamentos. Essa é a proposta de Maria Grazia Chiuri em sua segunda coleção à frente da Fendi, apresentada nesta quarta-feira (23), em Milão, para a temporada Primavera/Verão.
A estilista italiana buscou inspiração na apresentadora e cantora Raffaella Carrà, falecida em 2021, e no cantor e humorista Adriano Celentano, dois ícones da cultura popular italiana conhecidos pela maneira espontânea como construíram suas imagens.
O desfile foi realizado em uma passarela cercada por superfícies espelhadas, que multiplicavam os corpos e os movimentos do público e dos modelos.
A instalação remeteu diretamente à performance da canção "Prisencolinensinainciusol", apresentada por Carrà e Celentano no programa de variedades da Rai "Milleluci", em 1974.
"Alguns jovens da minha equipe nem conheciam Carrà e Celentano, mas, ao verem a performance deles, ficaram eletrizados", contou Chiuri.
Segundo a diretora criativa, as novas gerações vivenciam a moda com menos liberdade do que no período em que ela começou a trabalhar no setor.
"Elas sentem o julgamento dos outros. É uma pena, pois há pouco foco no corpo atualmente, e elas frequentam menos as boates ? lugares onde, naquela época, você era livre", afirmou.
Para Chiuri, recuperar essa liberdade também significa reencontrar a energia e a paixão associadas aos primeiros anos de sua carreira, quando a moda, segundo ela, estava menos inserida na cultura "mainstream" e sofria menos pressão externa.
A coleção parte justamente do corpo e de uma reflexão sobre a sensualidade. A lingerie aparece como ponto de partida, com sutiãs de renda, shorts de cetim bordado, slips fluidos e robes.
As peças são combinadas em uma sobreposição constante entre referências tradicionalmente associadas ao masculino e ao feminino. Na passarela, uma estola de pele aparece sobre um sutiã; uma gargantilha de pedrarias acompanha um vestido fluido; e uma bandana cravejada de cristais é usada em diferentes combinações.
Também aparecem tops esportivos com saias de renda, vestidos justos com estampa de leopardo acompanhados de coletes bordados, tops de franjas com calças, jaquetas confortáveis com sapatos adornados com joias e camisas-casaco risca-de-giz combinadas a capas inspiradas no "trench coat" masculino.
O efeito dos espelhos reforça a ideia de fusão entre os corpos e encontra um paralelo na própria construção das roupas, que são sobrepostas e combinadas continuamente.
A inspiração em Carrà e Celentano também aparece na escolha do poema "i like my body when it is with your", de E. E. Cummings, usado no convite para o desfile. O evento contou com a presença de personalidades como Monica Bellucci e Jovanotti.
Ao explicar a coleção, Chiuri também relacionou sua trajetória profissional à ideia de romper convenções dentro da indústria da moda. "Talvez eu tenha desafiado as convenções do sistema como diretora criativa de uma maison", afirmou, ao recordar a perspectiva feminista que levou para a história da grife francesa. "E, na Dior, fiz isso ainda mais".