Como os incêndios estão remodelando a Amazônia, segundo estudo que durou 20 anos

Pesquisa aponta que queimadas frequentes causam perda de biodiversidade e homogeneização ecológica, principalmente das bordas da floresta, mas não ao ponto de chegar à savanização

20 abr 2026 - 16h11

Em 2004, a Amazônia teve um dos maiores picos de desmatamento já registrados, e também um dos piores índices de queimadas.

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Cientistas americanos e brasileiros iniciavam nessa época, no Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam), um estudo que se mostraria visionário com o aumento dos incêndios florestais devastadores nos últimos anos.

Eles realizaram durante anos queimas controladas em áreas de floresta da Estação de Pesquisa Tanguro, em Querência (MT), para testar se o bioma seria capaz de se recuperar e manter as características de floresta ou se se transformaria em savana, hipótese sugerida pelos modelos climáticos e muito debatida desde então.

Parte dos resultados dessa pesquisa, publicados em um artigo nesta segunda-feira, 20, pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), revela que os incêndios frequentes causam perda de biodiversidade e homogeneização ecológica, principalmente das bordas da floresta. Mas não savanização.

A ideia da savanização é que, com a degradação, as áreas de floresta assumiriam uma fisionomia mais aberta, com menor densidade de árvores e maior presença de gramíneas, características típicas de ecossistemas savânicos, como o Cerrado.

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"Para comprovar a hipótese, o esperado seria reduzir a densidade de abundância de espécies especialistas (típicas) de floresta e aumentar as de savana. Mas a gente não registrou isso. O que a gente registrou foi redução das espécies especialistas de floresta e aumento das generalistas", afirma um dos coordenadores do estudo, Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale apoiado pelo Instituto Serrapilheira.

Para entender se diferentes frequências de queimada impactariam a taxa de mortalidade das árvores e a intensidade do fogo, o estudo foi realizado em três parcelas de floresta:

  • uma parcela de "controle", que não sofreu queima experimental;
  • uma parcela queimada anualmente, de 2004 a 2010;
  • uma parcela queimada a cada três anos, em 2004, 2007 e 2010.

A partir de 2010, as queimas foram suspensas e os pesquisadores passaram a avaliar a degradação e acompanhar a recuperação das áreas.

O resultado surpreendeu: o fogo a cada três anos teve maior intensidade e impacto na mortalidade de árvores do que o fogo anual, por conta do acúmulo de biomassa.

Segundo o estudo, a recuperação parecia no início tender à "savanização". As áreas degradadas foram cobertas por gramíneas (vegetação como o capim), mas elas eram invasoras, mais próximas de um pasto degradado que da biodiversidade do Cerrado.

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As gramíneas exóticas proliferaram principalmente na borda e criaram um ciclo de retroalimentação: aumentam a intensidade dos incêndios, provocando a morte de mais árvores e aumentando a chance de o fogo se alastrar novamente.

Com o passar do tempo e a chegada das árvores, porém, o "capim", que precisa de mais luz e espaços abertos, foi sendo eliminado pelas sombras criadas pelas copas. Mas, como as árvores mais típicas da Amazônia não evoluíram na presença do fogo, muitas delas não retornam depois dele.

A falta das especialistas pode ainda gerar uma floresta vazia de animais e outras espécies que dependem de suas funções ecossistêmicas.

Perseveram nessa nova composição as generalistas e pioneiras, o que leva à homogeneização. Elas se desenvolvem mais rápido, têm casca fina, madeira leve e raízes superficiais, o que as tornam mais vulneráveis a novos incêndios e tempestades de vento.

A boa notícia é que isso ocorreu principalmente nas zonas de borda. No interior da floresta, a biodiversidade permaneceu relativamente estável.

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"A floresta está se recuperando, mas pensando na composição, é um processo que ainda vai levar muito mais tempo. É uma mensagem positiva, mas com cautela", diz Maracahipes.

Por que o estudo foi inovador

A maioria dos estudos sobre fogo na Amazônia usa sensoriamento remoto - mede através de imagens de satélite a área de floresta ou de pasto que foi queimada, onde o incêndio começou e se a cicatriz de fogo na floresta está aumentando.

Esse tipo de ferramenta permite estudos em larga escala, mas não consegue detectar o impacto sobre a biodiversidade "no chão" da floresta.

"Temos poucos estudos de longo prazo na Amazônia como os da Tanguro. Eles são essenciais para o nosso entendimento dos impactos de longa duração do fogo na floresta", diz a bióloga Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Oxford e Lancaster, na Inglaterra, especializada na dinâmica dos incêndios na Amazônia.

Segundo Berenguer, ainda há poucos grupos de pesquisa dedicados a esse tipo de estudo e poucos locais na Amazônia como a Tanguro. Ela destaca a importância do financiamento à pesquisa para projetos de longa duração como esse.

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