Trump avança na ofensiva contra vacinas para crianças

11 ago 2026 - 08h51

Sem evidência científica, presidente recomenda suspender imunização rotineira contra covid-19, gripe e outras doenças. Especialistas em saúde criticam decreto dentro e fora dos EUA.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na segunda-feira (11/08) uma ordem executiva para alterar as recomendações sobre a imunização infantil. O novo passo da ofensiva do governo do republicano contra as políticas de vacinação estabelecidas sugere reduzir o número de vacinas previstas para crianças, reformular algumas delas e espaçar aplicações.

Imunização infantil entrou na mira de novo decreto de Donald Trump, cujo governo avança agenda antivacina sem comprovação científica
Imunização infantil entrou na mira de novo decreto de Donald Trump, cujo governo avança agenda antivacina sem comprovação científica
Foto: DW / Deutsche Welle

Com milhões de crianças retornando às salas de aula após as férias de verão no Hemisfério Norte, esta época do ano costuma ser movimentada nos postos de vacinação, aumentando o potencial impacto imediato do decreto.

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A Casa Branca usou como justificativa uma suposta relação entre vacinas e autismo, apesar da ausência de evidências científicas que sustentem a afirmação. A ampla revisão dos programas de imunização nos moldes do governo Trump, que mira a redução da aplicação de vacinas há muito cientificamente comprovadas, é alvo de amplas críticas pelos especialistas em saúde.

"Décadas atrás, as crianças recebiam apenas uma pequena fração das vacinas exigidas hoje", disse Trump ao apresentar o decreto. "Naquela época, as pessoas tinham muito mais saúde e, é claro, a elevada taxa de autismo que vemos hoje não existia." No entanto, o presidente reconheceu que não sabe o que causa o autismo.

O decreto cita um relatório encomendado por Trump e elaborado pelo próprio governo. Também afirma que os EUA hoje recomendam mais vacinas do que outros países desenvolvidos. Especialistas em imunização, entretanto, ponderam que cada nação enfrenta riscos próprios e têm sistemas de saúde diferentes.

O governo federal não tem autoridade para tomar diretamente decisões sobre vacinação, e os estados têm competência para exigir imunização de estudantes que desejam frequentar a escola. Por isso, o decreto tem caráter mais recomendatório do que obrigatório.

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Menos vacinas, mais visitas ao médico

De uma lista anterior de 18 doenças combatidas por vacinas de rotina, foram cortadas a da covid-19, do rotavírus, da gripe, das hepatites A e B e da meningite bacteriana.

A nova recomendação é que caiba aos pais, em consulta com médicos ou farmacêuticos, a decisão de imunizar ou não os filhos. A medida, diz a Casa Branca, maximiza o poder de escolha das famílias. Além disso, o texto sugere que a vacina contra a hepatite B seja administrada apenas durante a adolescência.

Permanece a recomendação universal para a aplicação de vacinas contra sarampo, caxumba, rubéola, difteria, tétano, coqueluche, poliomielite, Haemophilus influenzae tipo B, doença pneumocócica, papilomavírus humano e varicela. A lista contida no decreto é mais ampla para crianças em grupos de risco.

Entretanto, a ordem executiva também recomenda que as vacinas contra sarampo, rubéola e caxumba sejam aplicadas separadamente, em vez de em uma única injeção. Seriam necessárias diferentes visitas das famílias aos postos de vacinação, o que tende a enfraquecer a cobertura na população e aumenta o risco da contração de doenças entre doses.

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Durante teleconferência com jornalistas, o presidente da Academia Americana de Pediatria (AAP, na sigla em inglês), Andrew Racine, afirmou que seriam necessários mais de dez anos para desenvolver estas vacinas separadas e aprová-las nos EUA. Outros especialistas apontaram ainda que não há embasamento científico para justificar a mudança.

"Recomendamos continuar administrando às crianças uma vacina cuja segurança é respaldada por décadas de dados", acrescentou Aaron M. Milstone, também da AAP.

Recomendações conflitantes

Conhecido pela sua posição contra as vacinas, o secretário de Saúde de Trump, Robert F. Kennedy Jr., também alterou o calendário de vacinação pediátrica. Foram ainda reduzidos os recursos destinados ao desenvolvimento de novas vacinas.

Ainda não está claro quais mudanças poderão ocorrer a nível estadual, e é provável que a ordem executiva seja contestada na Justiça. Por ora, o governo afirma que não haverá alteração na disponibilidade de imunizantes nem na cobertura dos planos de saúde.

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Citado pela CNN, Racine disse ver como único resultado da medida de Trump o aumento da "incerteza, medo e confusão onde não precisa haver nada disso".

A Organização Mundial da Saúde (OMS), ligada às Nações Unidas, também respondeu. Um porta-voz lembrou que as recomendações de vacinação se baseiam em "mais de 60 anos de pesquisa pela OMS, autoridades nacionais e grupos de especialistas independentes."

Os calendários de aplicações de cada vacina, por exemplo, foram determinados por extensos estudos conduzidos nos períodos de maior vulnerabilidade às doenças que elas combatem. "O que sai da OMS é baseado na ciência, afirmou Tarik Jašarević, porta-voz da organização. "Nós esperamos que todos os países usem esta melhor evidência científica que nós temos."

Em 2024, um relatório dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, a principal agência de saúde pública dos Estados Unidos, estimou que a vacinação rotineira de crianças nascidas entre 1993 e 2023 preveniu 508 milhões de ocorrências de doenças. Teriam sido evitadas assim 32 milhões de hospitalizações, mais de 1 milhão de mortes e um custo de 2,7 trilhões de dólares para toda a sociedade americana.

ht (AFP, Reuters, dpa, ots)

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