O rastreamento do câncer identifica tumores antes dos sintomas, permitindo tratamentos simples e maiores chances de cura. O diagnóstico precoce dos tipos mais incidentes envolve exames essenciais: mamografia para mama (a partir dos 40-50 anos); toque e PSA para próstata (a partir dos 45-50 anos); colonoscopia e teste FIT para cólon e reto (a partir dos 45-50 anos); Papanicolau e teste de DNA-HPV contra o câncer cervical; e tomografia de baixa dose para fumantes sob risco de câncer de pulmão.
Cuidar da saúde vai muito além de tratar uma doença, como o câncer, depois que ela aparece. Dieta equilibrada, controle do peso, atividade física, vacinação em dia, não fumar e evitar bebidas alcoólicas ajudam a reduzir o risco de diversas enfermidades. Mas há outra estratégia essencial: descobrir um problema de saúde antes do surgimento dos sintomas. É a chamada prevenção secundária. No caso do câncer, ela inclui exames de rastreamento, que identificam tumores ainda em estágios iniciais.
"O rastreio possibilita a detecção do tumor quando ainda é pequeno e não se espalhou pelo corpo, a chamada metástase", explica o oncologista clínico Henry Najman, da Oncologia D'Or do Rio de Janeiro. "O diagnóstico precoce permite que utilizemos tratamentos mais simples, de forma rápida, aumentando as chances de cura do paciente", complementa.
Conheça agora os exames de rastreamento dos cinco tipos de câncer mais incidentes no País:
Câncer de mama
Sem considerar o tumor de pele não melanoma, o câncer de mama é o que mais acomete as brasileiras. Só este ano, o Instituto Nacional do Câncer (Inca)1 estima que serão diagnosticados 78.610 casos, em especial em mulheres a partir da quinta década de vida.
A mamografia é considerada o exame padrão-ouro para o diagnóstico desse tipo de tumor. O Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)2 recomendam que todas as mulheres sem sintomas façam a mamografia anual a partir dos 40 anos de idade.
Mulheres com casos de câncer de mama na família (mãe ou irmã antes dos 50 anos) devem começar mais cedo, de acordo com a orientação médica. O exame deve ser feito até os 75 anos de idade ou com expectativa de vida acima de sete anos.
O Ministério da Saúde atualizou as diretrizes para a realização de mamografia pelo Sistema Único de Saúde (SUS)3, oferecendo o exame dos 40 aos 49 anos sob demanda e decisão compartilhada entre médico e paciente, mesmo sem sinais ou sintomas. Dos 50 aos 74 anos, o exame deve ser realizado a cada dois anos, independentemente de sintomas.
Câncer de próstata
O câncer de próstata é o mais incidente entre os homens do País, ficando atrás apenas do tumor de pele não melanoma. Este ano, serão 77.920 novos casos1, em especial em indivíduos com 50 anos ou mais. Quanto mais velha for a pessoa, maior será o risco de apresentar este tipo de câncer, mesmo de forma assintomática.
A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)4 recomenda que homens a partir dos 50 anos procurem um profissional especializado para avaliar de forma individualizada a realização do rastreamento anual do câncer de próstata, por meio do toque retal e a dosagem sanguínea do PSA. Os exames devem ser feitos até os 70 anos. A partir dessa idade, a decisão do rastreamento deve ser individualizada.
Pessoas com histórico familiar de câncer — em especial de mama e próstata —, principalmente parentes de primeiro grau, têm maior propensão à enfermidade e por isso devem começar o rastreamento a partir dos 45 anos de idade. A recomendação é a mesma para homens negros e indivíduos obesos, que também integram os grupos de risco.
A maioria dos tumores na próstata cresce de forma lenta. Por isso, mesmo que o câncer seja diagnosticado de maneira precoce, o médico pode optar muitas vezes pelo seguimento ativo em lugar do tratamento imediato. A estratégia compreende acompanhar o paciente, a fim de observar a evolução do tumor e só realizar a intervenção terapêutica quando necessário.
Câncer colorretal
Os cânceres de cólon e reto ocupam a terceira posição entre os tipos de tumores mais frequentes no Brasil, tanto em homens como em mulheres. Projeções do Inca dão conta que, em 2026, serão diagnosticados 53.810 casos da doença1, sendo 26.270 entre os homens e 27.540 entre as mulheres.
Tradicionalmente, a colonoscopia é realizada a partir dos 50 anos. Mas o crescimento dos casos do câncer colorretal em adultos jovens levou algumas sociedades médicas, como a Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed)5, a recomendarem o exame para indivíduos a partir dos 45 anos. As causas do aumento podem estar relacionadas a fatores comportamentais como o consumo de ultraprocessados, carnes vermelhas, bebidas alcoólicas e tabaco, além do sedentarismo e da obesidade.
A colonoscopia tem um caráter preventivo, diagnóstico e terapêutico. As lesões pré-malignas (pólipos) podem ser tratadas por este exame por meio da sua ressecção. É importante destacar que, no decorrer do tempo, os pólipos podem evoluir para câncer colorretal.
Recentemente, o Ministério da Saúde6 adotou o FIT, sigla em inglês para Teste Imunoquímico Fecal, para rastrear o câncer colorretal em pessoas a partir dos 50 anos. É um exame de fezes não invasivo, usado para detectar pequenas quantidades de sangue oculto nas fezes — invisíveis a olho nu —, que podem indicar a presença de pólipos ou lesões iniciais.
Câncer de Colo do útero
Em 2026, o Inca estima que serão diagnosticados 19.310 casos de câncer de colo do útero1 (ou câncer cervical), a maioria em pessoas dos 30 aos 50 anos. Sem considerar o tumor de pele não melanoma, este é o terceiro câncer mais incidente nas mulheres. Mais de 90% dos casos são provocados pelo vírus Papiloma Humano (HPV).
Durante anos, o rastreamento do câncer de colo de útero baseou-se no exame citopatológico — conhecido como Papanicolau. Em 2024, o Ministério da Saúde7 incorporou ao SUS o teste de DNA-HPV oncogênico. Em 2025, as diretrizes passaram a recomendá-lo como método primário, com implementação progressiva8. A coleta é semelhante à do Papanicolau, mas o teste procura diretamente o material genético do vírus do HPV. A citologia continua sendo utilizada de rotina.
A vacina contra o HPV está disponível na rede pública de saúde. A imunização oferece proteção não só contra o câncer cervical. O vírus também está relacionado a tumores no canal anal, na vulva, na vagina, no pênis e na orofaringe, região que inclui principalmente a base da língua, as amígdalas e a parte posterior da garganta.
Câncer de pulmão
O câncer de pulmão é a maior causa de mortalidade por câncer no Brasil e no mundo. Na fase inicial, a doença pode ser assintomática ou gerar sintomas inespecíficos. Quando presentes, podem incluir tosse persistente, falta de ar, dor no tórax, cansaço, presença de sangue no escarro e perda de peso.
Desde 2024, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem recomendam a realização anual de tomografia computadorizada de tórax de baixa dose para pessoas entre 50 e 80 anos, fumantes ou que deixaram de fumar há menos de 15 anos e com carga tabágica igual ou superior a 20 maços-ano. O cálculo da carga equivale à multiplicação do número de maços fumados por dia pelo número de anos de tabagismo. Por exemplo, se uma pessoa fumou 40 cigarros por dia (dois maços) durante 20 anos, a carga tabágica é de 40 anos-maço (2 x 20).
*Texto com informações de assessoria.