Numa acirrada disputa voto a voto, candidata de direita alcança vantagem irreversível sobre adversário, que promete contestar votação. Resultado oficial deve ser anunciado até meados de julho.Com 99,86% das urnas apuradas, a direitista Keiko Fujimori alcançou uma margem de votos necessária para vencer o segundo turno e se tornar a próxima presidente do Peru.
Fujimori tem 50,11% dos votos válidos, contra 49,88% de Roberto Sánchez, com uma diferença estreita de 43.386 votos que já não poderá ser revertida, pois restam aproximadamente 26.200 votos a serem contabilizados para ambos os candidatos.
O líder do partido Juntos pelo Peru, que anunciou que não reconhecerá o governo de Fujimori, baseou seu pedido de anulação da votação no exterior ao considerar que, supostamente, esses votos foram comprometidos. Os percentuais da apuração se invertem caso sejam excluídos os votos do exterior, de modo que Sánchez alcançaria 50,11% dos votos válidos, com 38.007 votos a mais do que a filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), que ficaria com 49,88%.
A autoridade eleitoral declarou que considera improcedente o pedido de Sánchez para anular os votos de peruanos no exterior. O resultado oficial do segundo turno deve ser anunciado até meados de julho.
A candidata conservadora, de 50 anos, concorreu à Presidência pela quarta vez, tendo chegado ao segundo turno em todas as três campanhas anteriores - um histórico que ressalta tanto sua resiliência quanto sua influência polarizadora na política peruana.
A ex-deputada lidera o partido conservador Força Popular e é a filha mais velha do ex-presidente Alberto Fujimori, ditador que governou de 1990 a 2000 antes de ser preso por acusações de corrupção e violações dos direitos humanos.
Sua campanha se baseou fortemente em uma mensagem de defesa da lei e da ordem, ecoando as políticas de segurança militarizadas associadas à Presidência de seu pai na década de 1990.
Fujimori terá diante de si o desafio de governar para um país altamente dividido, em que uma parcela considerável dos eleitores critica o legado político de seu pai. Mas, diferentemente de seus antecessores no cargo — foram nove nos últimos dez anos —, ela deverá usufruir de maior estabilidade no ofício, já que mudanças na Constituição tornaram mais difícil destituir um presidente.
Trajetória política
Nascida em 25 de maio de 1975, em Lima, Keiko Sofía Fujimori Higuchi é filha de Alberto Fujimori e Susana Higuchi. Sua vida esteve ligada à política desde cedo, já que em 1994, com apenas dezenove anos, assumiu o papel de primeira-dama após a separação de seus pais, enquanto ele era presidente.
Educada nos Estados Unidos, Fujimori tem se posicionado como pró-Washington, defendendo os investimentos estrangeiros sob regras institucionais mais claras e se apresentando como uma parceira mais confiável para os EUA do que seus rivais, que ela descreve como mais alinhados a Pequim.
Em entrevistas recentes, ela reconheceu publicamente os desafios pessoais e políticos dos últimos anos, incluindo sua prisão preventiva, a morte de seus pais e seu divórcio - eventos que, em suas próprias palavras, fortaleceram seu caráter e renovaram seu compromisso com o país.
Keiko Fujimori atuou como congressista de 2006 a 2011, onde se consolidou como uma das principais figuras da oposição ao governo do presidente Alan García.
Em 2009, ela fundou o partido Força Popular, que preside desde 2013 e pelo qual participou do processo eleitoral que a levou à Presidência.
Nos últimos anos, Keiko enfrentou diversas investigações judiciais, principalmente por supostas contribuições ilícitas para campanhas eleitorais relacionadas ao caso Odebrecht. No entanto, em janeiro deste ano, após uma decisão do Tribunal Constitucional, o Judiciário ordenou o arquivamento definitivo do processo.
O legado de seu pai
"O principal desafio para um governo Fujimori é sua legitimidade inicial", alerta o advogado e cientista político Juan de la Puente. "Não se trata apenas de legitimidade eleitoral legal, mas também de legitimidade histórica: ela lidera um partido que defende o golpe de Estado de seu pai e renunciou a qualquer autocrítica em relação àquele governo autoritário."
Alberto Fujimori presidiu o Peru com mão de ferro entre 1990 e 2000, em um governo marcado por vários casos de corrupção. Em 2005, foi preso no Chile e depois extraditado. Posteriormente, foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado, usurpação de funções, corrupção e espionagem, além de desvio de fundos. Após uma série de disputas na Justiça, ele foi solto em 2023, mas morreu no ano seguinte.
Para seus apoiadores, Fujimori é o homem que salvou o país do colapso econômico e do terrorismo, mas para seus detratores ele é um autocrata que pisoteou as instituições democráticas para se manter no poder. Um relatório de 2004 da Transparência Internacional classificou o ex-chefe de Estado em sétimo lugar entre os dez líderes mais corruptos do mundo.
A eleição de Keiko marca o retorno do fujimorismo ao poder no Peru, 26 anos depois de seu pai ter apresentado sua renúncia por fax do Japão, após a descoberta do enorme escândalo de corrupção no aparelho estatal, orquestrado por seu braço direito, o assessor Vladimiro Montesinos.
"É necessário que ela, sua equipe técnica e seu grupo político entendam que estão herdando um país altamente polarizado, com críticas válidas ao legado político de seu pai. Garantias de liberdade de expressão, proteção dos direitos humanos e a defesa da separação de poderes devem ser questões prioritárias na agenda pública", afirma a cientista política Ximena Niño de Guzmán Tapia.
Ameaças aos direitos das mulheres
Seu programa, no entanto, gera pouca esperança entre aqueles que o analisam sob perspectivas de esquerda e feministas. Diana Miloslavich, ex-ministra da Mulher e renomada defensora dos direitos das mulheres, afirmou à DW que Fujimori "não tem um programa claro" e que trouxe de volta a PRONAA (Programa Nacional de Assistência Alimentar), uma instituição extinta que buscava explorar organizações de mulheres pobres para obter ganhos políticos, além de militarizar a segurança pública.
"O partido deles apoiou todo o pacote legislativo 'pró-crime' e o pacote 'anti-direitos das mulheres'. Eles proibiram o uso de linguagem inclusiva, removeram a palavra 'gênero' de todos os documentos governamentais e hoje questionam o feminicídio, quando há uma vítima todos os dias, seja por tentativa ou consumação. É uma perspectiva sombria", diz Miloslavich. A especialista se refere tanto a um conjunto de leis aprovadas pelo Congresso que, segundo analistas, enfraquecem a capacidade do Estado de investigar e punir o crime organizado e a corrupção, quanto a diversas iniciativas legislativas consideradas por muitos como um retrocesso em termos de igualdade de gênero.
Em relação ao descontentamento político que permeia o Peru, De la Puente afirma que "este país antieleitoral votou, mas espera muito pouco daqueles que estão no poder." Miloslavich acrescenta que, com todos os mecanismos institucionais de controle e equilíbrio - o Tribunal Constitucional, o Ministério Público e a Ouvidoria - alinhados com o bloco governista, "o descontentamento se aprofundará."
Lentidão no processo de apuração
O processo de apuração dos votos no Peru é bastante lento em comparação com outras democracias da região, cujos resultados são anunciados praticamente no dia da eleição ou apenas algumas horas depois, como no Brasil.
O país prioriza a segurança na transmissão de dados em detrimento da velocidade, e as atas de apuração devem ser centralizadas fisicamente antes de serem validadas. "A ata de apuração é elaborada pelos funcionários da seção eleitoral ao final do dia da eleição e é o único documento válido para a contagem. Assim, é aguardada a chegada física das atas desde as seções eleitorais, tanto no país quanto no exterior", explicou a cientista política Ximena Niño de Guzmán à DW.
"No sistema peruano, só existem resultados oficiais. Além disso, o processo de contagem de votos não termina na seção eleitoral; ele tem fases em que os partidos podem apresentar contestações. Alguns apontam que esse modelo aparentemente protetor se baseia em uma desconfiança histórica no sistema eleitoral", explica De la Puente.
Essa desconfiança tem raízes profundas. Em um país onde os candidatos parecem relutantes em reconhecer a vitória eleitoral de seus oponentes, tanto Keiko Fujimori quanto Roberto Sánchez prometeram respeitar os resultados. Mas, ao final, o candidato da coalizão de esquerda Juntos pelo Peru organizou uma campanha de arrecadação de fundos para financiar a contestação de seções eleitorais favoráveis a sua rival.
A iniciativa fracassou, não foram arrecadados os fundos necessários para cobrir as taxas oficiais exigidas para anular as aproximadamente 1,7 mil seções eleitorais contestadas, e o partido suspendeu a campanha.
rc/ra (DW)