Projeto de lei coloca em risco o ensino obrigatório de história africana e indígena nas escolas

Proposta de deputada federal gera debate sobre liberdade religiosa e obrigatoriedade curricular nas escolas brasileiras

12 mar 2026 - 22h39

O Ministério da Educação manifestou publicamente que acompanha com preocupação a tramitação de um novo projeto de lei na Câmara dos Deputados. O texto em questão busca alterar a atual estrutura de ensino no Brasil para excluir a obrigatoriedade do conteúdo relacionado à história africana e indígena. A proposta é de autoria da deputada federal Clarissa Tércio e sugere que a presença de alunos da educação básica em atividades com teor cultural ou religioso passe a ser voluntária. O projeto pretende exigir que as instituições públicas e privadas obtenham autorização prévia dos responsáveis para que os estudantes participem de tais momentos pedagógicos.

MEC alerta para projeto de lei que torna facultativo ensino de história africana e indígena
MEC alerta para projeto de lei que torna facultativo ensino de história africana e indígena
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil / Perfil Brasil

A proposta sugere uma modificação direta na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que é o pilar do sistema educacional do país. No argumento apresentado, o estudo da trajetória dos povos originários e das populações pretas é tratado como uma questão de crença individual. Segundo a redação do projeto, é essencial garantir que a participação nessas atividades respeite os princípios da liberdade religiosa e de consciência que estão assegurados pela Constituição Federal. A deputada Clarissa Tércio defende que algumas famílias possuem convicções opostas a determinadas práticas culturais que podem ser abordadas em sala de aula ou eventos escolares.

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A parlamentar argumenta que os pais devem ter o direito de decidir sobre a formação de seus filhos conforme seus valores pessoais. "Dessa forma, a pluralidade de crenças e a opção pela não crença devem ser asseguradas no ambiente escolar. Nenhum estudante pode ser penalizado com faltas, perda de pontos ou prejuízo acadêmico por não participar dessas atividades. Caso necessário, deve ser oferecida uma alternativa compatível com os conteúdos curriculares", traz a redação oficial do projeto de lei. O texto foi apresentado em março de 2025 e segue agora para a análise da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, onde poderá receber emendas dos demais parlamentares.

A discussão ocorre em um momento de consolidação de leis históricas no país. O ensino da cultura afro-brasileira tornou-se obrigatório no Brasil ainda em 2003, através da Lei 10.639. Anos depois, em 2008, a Lei 11.645 estendeu essa obrigatoriedade para incluir também a história dos povos indígenas. Apesar do tempo de vigência, a implementação prática desses conteúdos sempre enfrentou desafios estruturais. Dados indicam que, até o ano de 2023, menos de 20% dos municípios brasileiros haviam conseguido integrar efetivamente essas disciplinas em seus currículos escolares de forma plena e sistemática.

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Para tentar reverter esse cenário, o Ministério da Educação estabeleceu recentemente a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola. Essa iniciativa foca principalmente na capacitação de educadores, já tendo viabilizado a criação de cerca de 297 mil vagas para treinamento docente. No entanto, a chegada do novo projeto de lei é vista como um possível retrocesso por especialistas e gestores da área. A Secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão, Zara Figueiredo, critica à Folha a natureza da proposta legislativa que tramita na Câmara.

Para a secretária do governo federal, o projeto ignora que o ensino desses temas é uma base curricular e não um evento isolado. "Quando regulamentamos e criamos uma política sólida, chega um PL que visa flexibilizar isso com equívoco atrás de equívoco", afirma Zara Figueiredo. Ela ressalta que tornar esses conteúdos facultativos retira a importância devida ao tema dentro da formação dos cidadãos brasileiros. "Assumir as leis como facultativas, na perspectiva que a parlamentar assume, inviabiliza dar importância ao tema. Não é evento, é política curricular", diz a secretária de forma enfática sobre a distinção pedagógica.

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