A estreia da minissérie Emergência Radoativa esta semana acendeu a curiosidade do público sobre o acidente ocorrido em Goiânia (GO), em 1987. O ocorrido ficou marcado na história do Brasil, tanto por ter feito dezenas de vítimas, quanto pela gravidade da radioatividade espalhada na cidade.
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No dia 13 de setembro de 1987, os catadores de material reciclável Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira encontraram um objeto de aço no terreno que pertencia ao Instituto Goiano de Radioterapia, que estava desativado desde 1985. A história é retratada na minissérie da Netflix.
Roberto e Wagner chegaram a sofrer sintomas de contaminação radioativa, mas não entenderam que se tratava da radioatividade do aparelho. Cinco dias depois, o objeto foi vendido ao ferro-velho de Devair Ferreira.
No ferro-velho, Devair abriu uma cápsula dentro da máquina para tentar reaproveitar o chumbo. Foi quando ele encontrou cerca de 19 gramas de um pó azul brilhante. Encantado com o brilho, ele distribuiu o pó aos familiares e amigos, incluindo a sua esposa, Maria Gabriela.
O que eles não sabiam, no entanto, era que a peça encontrada se tratava de um aparelho de radioterapia e que o pó era césio-137, um poderoso radioativo. O acidente foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, que vai de 0 a 7.
Contaminação em série
O pó também foi dado a Ivo, irmão de Devair, que distribuiu para sua filha, Leide das Neves, de 6 anos, que chegou a consumir a substância durante uma refeição. Diversas pessoas que passaram pelo ferro-velho tiveram contato com a cápsula e foram contaminadas.
Entre os sintomas estavam náuseas, tonturas, diarreias e vômitos, levando as pessoas a buscarem um hospital e ajuda médica. Maria Gabriela chegou a acionar a Vigilância Sanitária, desconfiada de que a causa poderia ter sido o pó.
Em uma entrevista com médicos, Maria Gabriela afirmou que os sintomas apareceram depois que o marido desmontou um "aparelho estranho". No dia 23 de outubro, ela e a sobrinha, Leide, faleceram.
Entre outras vítimas fatais estão Israel dos Santos, de 22 anos, e Admilson de Souza, de 18 anos, ambos funcionáriso do ferro-velho de Devair. Devair chegou a passar por um tratamento de descontaminação e morreu sete anos depois.
O físico Walter Mendes Ferreira foi o primeiro a desconfiar de que se tratava de um acidente com radiação. Ele identificou altos níveis de radiação, resultando no diagnóstico correto das vítimas.
A limpeza do césio-137 resultou em 13.500 kg de lixo atômico, descartados em 14 contêineres lacrados que hoje estão armazenados no Parque Estadual Telma Ortegal, em Abadia de Goiás. O local foi criado para armazenar o lixo atômico.
Um monitoramento feito pela Comissão Nacional de Energia Nuclear mostrou que, na época, mais de 290 pessoas apresentaram elevados níveis de radiação. O número real de vítimas nunca foi descoberto, mas muitas delas se organizaram para criar uma associação após o acidente.