Na ONU, Volodymyr Zelenskiy alertou que a Ucrânia retaliará ataques à sua infraestrutura energética, tornando o inverno rigoroso também para a Rússia, caso não haja uma trégua no setor e nas rotas do Mar Negro. Com o apoio de drones de longo alcance, Kiev busca pressionar Moscou por um cessar-fogo limitado antes da chegada do frio. No entanto, o chanceler russo Sergei Lavrov rejeitou pausas temporárias nos combates, reafirmando que o país seguirá com seus objetivos militares inalterados.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy advertiu Moscou na Organização das Nações Unidas nesta quarta-feira que a Ucrânia deve retaliar e tornar o inverno que se aproxima extremamente doloroso para a Rússia, caso as duas partes não consigam chegar a um acordo sobre uma trégua para os ataques a instalações de energia antes que o frio se instale.
A Ucrânia e seus aliados correm contra o tempo para garantir acordos relacionados à infraestrutura energética e navegação no Mar Negro antes do inverno, temendo novos ataques russos a instalações de energia e aquecimento, enquanto Moscou continua demonstrando pouco interesse em negociações mais amplas para pôr fim à guerra.
"Os ucranianos entendem que este inverno pode ser muito rigoroso para nós. Mas, em resposta, não teremos outra escolha a não ser torná-lo doloroso também para a Rússia", disse Zelenskiy à Assembleia Geral da ONU durante o encontro anual de líderes mundiais em Nova York.
Embora a Rússia possua um arsenal de mísseis muito maior, que tem usado para bombardear seu inimigo ao longo da guerra, a Ucrânia desenvolveu e utilizou milhares de drones de longo alcance para contra-atacar armazéns russos, infraestrutura portuária e refinarias de petróleo.
"É exatamente por isso que dizemos que são necessárias medidas de distensão antes do inverno", disse Zelenskiy, pedindo uma diplomacia mais robusta e destacando a influência que o presidente chinês, Xi Jinping, poderia exercer sobre o presidente russo, Vladimir Putin.
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, manteve conversas com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, nesta quarta-feira. Após o encontro, Rubio afirmou que tanto a Ucrânia quanto a Rússia haviam manifestado interesse em um cessar-fogo limitado envolvendo alvos relacionados a grãos e energia.
No entanto, não houve sinal imediato de qualquer mudança na posição russa.
Um comunicado do Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que, na reunião, o país havia "reafirmado seu compromisso incondicional com a consecução dos objetivos de sua operação militar especial" -- expressão que Moscou usa para descrever sua guerra na Ucrânia.
Dirigindo-se aos 15 membros do Conselho de Segurança à margem da reunião anual da ONU com líderes mundiais, Lavrov indicou que Moscou não deve aceitar qualquer cessação temporária das hostilidades.
"A Europa, independentemente do que pense, só quer uma pausa e pretende aproveitá-la para abastecer o regime de Kiev com armas", afirmou em uma sessão do Conselho dedicada à guerra na Ucrânia.
Os principais diplomatas do Reino Unido, França e Dinamarca aproveitaram seus discursos para proferir fortes condenações à guerra da Rússia, alertando de diversas maneiras para uma escalada perigosa e o aumento no número de mortes de civis.
Zelenskiy aproveitou seu discurso na Assembleia Geral para destacar o papel de Putin como impulsionador da guerra, descrevendo-o repetidamente de forma sarcástica como "paciente zero" e "aquele de quem essa ideia de guerra continua se espalhando cada vez mais".
"É por isso que o 'paciente zero' deve ser detido. É preciso negar a ele o espaço para agir -- e o espaço para espalhar ainda mais esse mal", afirmou.
Zelenskiy disse aos líderes, durante cúpula da "Plataforma da Crimeia" realizada paralelamente à ONU, que Kiev está pronta para uma trégua marítima no Mar Negro com base em propostas como as apresentadas pelo Egito, pela Índia e pela Turquia.
"Estamos aguardando a resposta da Rússia. A Ucrânia está pronta... para garantir a segurança da navegação e a segurança alimentar no Mar Negro, caso a Rússia também esteja disposta a tomar medidas concretas para a redução da tensão. Temos que começar por algum lugar", disse.
Os principais importadores de trigo na Ásia, no Oriente Médio e na África, que dependem da região do Mar Negro para o abastecimento, têm enfrentado dificuldades para garantir seus suprimentos. Os preços globais do trigo dispararam.