Clea Broadhurst, correspondente da RFI em Pequim
As terras raras são os 17 metais indispensáveis às tecnologias modernas. No setor militar, eles são usados na produção de radares, sistemas de orientação de mísseis, motores e ímãs de alto desempenho. Sem esses materiais, grande parte do armamento avançado não pode ser produzida ou renovada - ou seja, seu papel é central nos sistemas militares mais sofisticados.
A China controla cerca de 70% da produção mundial de terras raras e, principalmente, quase 90% do seu refino - etapa mais complexa e estratégica do processo. Há décadas, Pequim investe em toda a cadeia de valor, da extração à transformação, garantindo influência direta sobre o acesso a esses recursos e impondo suas condições ao mercado global.
Dependência crítica dos EUA
Os Estados Unidos importam a maior parte das terras raras da China, especialmente os elementos mais estratégicos, como disprósio e térbio. Esses metais permitem fabricar ímãs que resistem a temperaturas extremamente altas, fundamentais para mísseis, radares e alguns sistemas de propulsão.
Para essas chamadas terras raras "pesadas", praticamente não existem alternativas imediatas fora da China, criando uma vulnerabilidade direta para a indústria de defesa americana, que depende de cadeias de fornecimento sobre as quais tem pouco controle.
Poder indireto nos conflitos
No curto prazo, a dependência não impede operações militares. Os estoques americanos permitem sustentar meses de engajamento, e a capacidade atual ainda é suficiente para ataques no Oriente Médio.
Mas no médio prazo, a reposição de materiais se torna problemática. Em conflitos modernos, o consumo de munição é rápido e contínuo.
Se a China reduzir ainda mais suas exportações, a produção de novas armas pode desacelerar, a reposição de estoques se complicar e os custos, subir. Desta forma, Pequim exerce um poder indireto: não sobre as operações imediatas, mas sobre sua duração, intensidade e a capacidade dos EUA de manter um esforço militar prolongado.
Reduzir a dependência é complexo
Washington tenta diversificar fornecedores, recorrendo a parceiros como a Austrália e relançando produção interna. Mas reconstruir toda a cadeia, da mina ao refino, é longo, caro e tecnicamente complexo. Especialistas estimam que levará pelo menos uma década para os americanos reduzirem significativamente a dependência da China.
As terras raras se tornaram, por si só, um instrumento de poder. Para Pequim, são uma alavanca em negociações comerciais e estratégicas. Para Washington, representam um ponto de fragilidade que exige solução urgente.
Nesse contexto, esses minerais podem se tornar um tema central nas próximas conversas entre Donald Trump e Xi Jinping, na interseção entre interesses militares, industriais e diplomáticos.